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O MOTELX, o festival de cinema de terror – e não só – de Lisboa que começou em 2007, vai voltar para a 10ª edição, que foi apresentada esta terça-feira. De 6 a 11 de setembro – com os dias anteriores dedicados a festas de antecipação – o Cinema São Jorge e o Teatro Tivoli BBVA, do outro lado da rua, mostrarão vários filmes e receberão eventos e atividades relacionadas com o terror – outros espaços incluem a Cinemateca Júnior, o beco da Rua da Moeda, em frente ao Lounge, a Odd School e o Largo de São Carlos. Além da competição internacional e portuguesa, a mostra terá este ano como convidado o italiano Ruggero Deodato, que em 1980 realizou o infame “Holocausto Canibal”, pioneiro dos filmes de “found footage” ainda hoje em voga (como se muitas das imagens utilizadas no filme fossem gravações de eventos e pessoas reais).

Além de dois filmes restaurados do realizador polaco Walerian Borowczyk (1923-2006), há vários motivos de interesse, entre filmes novos e clássicos. E o programa ainda não está fechado, em breve haverá mais confirmações. Aqui ficam dez filmes para ver na décima edição do MOTELX – a grafia também é uma novidade este ano: antes escrevia-se MOTELx:

“Creepy”, de Kiyoshi Kurosawa

No ativo desde o início dos anos 1980, Kiyoshi Kurosawa – não, não é da família de Akira – é um nome maior do terror japonês (apesar de também trabalhar com outros géneros), com filmes como “Cure”, “Pulse” ou “Retribution”. O thriller deste ano estreou-se no Festival de Berlim e é baseado num livro de Yutaka Maekawa. A história gira à volta de um misterioso psicopata que incita os seus vizinhos a serem violentos nos subúrbios de Tóquio.

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“K-Shop”, de Dan Pringle

Salah é um estudante cujo pai, dono de um espaço que vende kebabs, é morto por rufias embriagados. O jovem é, portanto, obrigado a tomar o lugar do pai e gerir a loja. Um dia, durante uma discussão com outro cliente alcoolizado, este morre. O que se segue é uma espécie de “Sweeney Todd” versão moderna, em que Salah vai matando cada vez mais e usando a carne das suas vítimas para pôr nos kebabs e vender aos clientes. Um filme britânico rodado em Bournemouth, com imagens reais de gente a beber nas ruas, em parte financiado via Kickstarter.

“Psycho Raman”, de Anurag Kashyap

https://www.youtube.com/watch?v=hjDjijTcbRo

Nos anos 60, várias pessoas foram mortas ao acaso e espancadas até à morte com uma barra de aço em Mumbai e arredores. Em 1968, Raman Raghav, o assassino em série, foi apanhado e confessou ter morto várias pessoas, mas nem sabia dizer ao certo. Ficou conhecido como Psycho Raman. O realizador Anurag Kashyap, muito dado à exploração do crime e da investigação policial – sem grande reverência por quem a pratica – pegou este ano na história para fazer um thriller que mostra como tudo aconteceu e o polícia que apanhou o assassino.

“Shelley”, de Ali Abbasi

Este filme dinamarquês e sueco com muito de “A Semente do Diabo” centra-se numa jovem empregada doméstica romena que é contratada por um casal rico anti-tecnologia para ser barriga de aluguer. A mulher do casal é franzina, mas à medida que a gravidez avança e a rapariga vai ficando pior de saúde, ela fica misteriosamente melhor. É o primeiro filme de Ali Abbasi, que nasceu no Irão e vive na Dinamarca, e que, admite, não é muito dado ao terror.

“The Transfiguration”, de Michael O’Shea

https://www.youtube.com/watch?v=lW0MKmzKDGA

Antes de ter feito este filme, Michael O’Shea foi porteiro de discoteca, arranjou computadores e ainda trabalhou como taxista, sempre a tentar escrever e realizar um drama independentes. Mas não conseguiu. Desistiu do mundo indie e virou-se para o terror. Resultou: o seu primeiro filme, este “The Transfiguration”, estreou-se em Cannes. E é uma espécie de mistura entre drama de adolescentes e filme de vampiros, centrando-se num jovem órfão nova-iorquino de 14 anos que mergulha no mundo desses monstros para escapar à solidão e ao bullying de que é alvo na escola.

“Under the Shadow”, de Babak Anvari

https://www.youtube.com/watch?v=4fhejr94P14

Na reta final da guerra entre o Irão e o Iraque nos anos 1980, um edifício em Teerão é atingido por um míssil, mas não fica destruído. Em vez disso, uma mãe e uma filha que moram num dos apartamentos, já de si com muita tensão na vida, veem-se a braços com uma presença estranha em casa. O filme de estreia do iraniano Babak Anvari, rodado na Jordânia, foi uma das sensações do festival de Sundance deste ano.

“De Palma”, de Noah Baumbach e Jake Paltrow

Noah Baumbach, realizador de filmes como “A Lula e a Baleia”, “Greenberg” ou “Frances Ha”, juntou-se a Jake Paltrow (o apelido não engana: é irmão de Gwyneth) para este badaladíssimo documentário sobre Brian De Palma, o senhor de filmes como “Carrie”, “Scarface” ou “Os Intocáveis”. Basicamente, os dois entrevistaram o lendário realizador com uma obsessão por Alfred Hitchcock ao longo de 30 horas, com De Palma a falar sobre os altos e baixos da sua carreira e a mostrar excertos de filmes, sempre com um enorme sentido de humor.

“Tickled”, de David Farrier e Dylan Reeve

A ideia de “Tickled” era simples. David Farrier, um jornalista neo-zelandês com um gosto por explorar o bizarro, queria fazer uma reportagem leve sobre um estranho desporto de resistência a cócegas. Só que um pedido a uma produtora que faz vídeos sobre esse desporto é rejeitado. A razão? Farrier é bissexual e esse desporto é demasiado heterossexual para ser tratado por alguém como ele. O que se segue é algo completamente diferente do que ia ser inicialmente, um documentário cheio de constantes e inesperadas reviravoltas na trama, com gente que não quer, de todo, que Farrier chegue à verdade.

“The Peanut Butter Solution”, de Michael Rubbo

Céline Dion, uma das pessoas quebequenses mais famosas de sempre, tem o francês como primeira língua. As duas primeiras canções que grava em inglês eram versões de temas que já cantava em francês. Nunca saíram em álbuns, só em compilações muito posteriores, mas ambas apareceram neste clássico canadiano de terror fantástico para toda a família de 1985, em que um miúdo de 11 anos apanha uma doença a explorar uma mansão que acabou de arder e fica sem cabelo. E é visitado por fantasmas que lhe dizem a solução: uma fórmula mágica, com manteiga de amendoim, para deixar crescer o cabelo. Não é preciso gostar de Dion para ver — e será dobrado ao vivo.

“O Segredo das Pedras Vivas”, de António de Macedo

Rodado em 1992, este filme de António Macedo que parte de lendas relacionadas com pedras e afins da época pré-histórica portuguesa na zona do Alentejo passou como minissérie na RTP. Na altura chamava-se “O Altar dos Holocaustos”. Mas a ideia original era que fosse um filme, com um nome diferente. O realizador, que sempre teve problemas a ver o seu trabalho apoiado – e desistiu da atividade para escrever e ensinar – e que já viu filmes seus como “A Promessa” serem exibidos no MOTELX , recebeu financiamento recentemente para acabar o filme, quase 25 anos após ter sido iniciado. É por isso que esta é uma antestreia mundial.