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Era nobre a missão que levava a pequena sonda espacial Philae para lá da nossa atmosfera: descobrir no mundo pouco conhecido dos cometas os segredos sobre a origem do nosso planeta. Em novembro de 2014, à boleia da nave-mãe Rosetta, Philae tornou-se no primeiro objeto construído pelo Homem a pousar num cometa. A sua nova casa seria 67P/Churyumov-Gerasimenko, um cometa que passeia no Sistema Solar entre as órbitas da Terra e de Júpiter. Mas algo correu mal e Philae perdeu-se dos radares da Estação Espacial Europeia (ESA). Para sempre, julgava-se. Mas Philae renasceu da morte cósmica: esta segunda-feira, a ESA anunciou que descobriram o paradeiro da sonda desaparecida há dois anos. As novas imagens enviadas pela sonda espacial Rosetta, cuja missão termina em menos de um mês, mostram a pequena Philae presa entre as rochas do cometa onde aterrou em 2014.

Dez anos depois de dizer “adeus” à Terra, Philae deu sinais de iida a 510 milhões de quilómetros de casa. A partir dali, a sua função era vaguear pelo cometa gelado e encontrar pistas que nos explicassem como nasceu o Sistema Solar. Enquanto toda a gente celebrava – a Google até colocou o robô no lugar de um dos “O” no seu logótipo – os cientistas viam-se a braços com um problema: 67P/Churyumov-Gerasimenko tinha uma superfície mais dura do que esperado. Foi a partir daí que o destino de Philae parecia tornar-se cada vez mais negro: ali, nas sombras do cometa, a sonda era incapaz de se alimentar da energia do Sol e entrou em hibernação.

O mundo estava rendido a Philae: é que antes de entrar num silêncio que parecia eterno, a sonda conseguiu descobrir compostos orgânicos ricos em azoto e carbono, dois elementos essenciais para a existência de vida. Mesmo no leito da morte, Philae tinha descoberto que a origem da vida na Terra pode mesmo estar nos cometas. Os cientistas já faziam o luto da máquina quando ela acordou: quando o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko se aproximou do Sol, a ESA recebeu sinais de vida de Philae, que tinha conseguido aproveitar mais um pouco de energia solar para voltar a funcionar. Mas foi sol de pouca dura: Philae nunca conseguiria sobreviver ao mundo gelado e rígido do cometa, por isso a ESA decidiu fechar todos os canais de comunicação com a pequena sonda em julho deste ano.

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Mas Philae é uma Fénix renascida… do gelo. Quando os cientistas analisaram as últimas imagens enviadas pela Rosetta, aperceberam-se da presença de um objeto que os surpreendeu. Era Philae, com o seu corpo cúbico com um metro de aresta e as suas três pernas assentes entre as rochas do 67P/Churyumov-Gerasimenko. A alegria da ESA foi então partilhada no Twitter e recebeu, até agora, quase 1.160 de “gostos”. Embora saibam que Philae nunca mais vai acordar, a descoberta do seu paradeiro é essencial para os cientistas: sabendo da sua localização exata é mais fácil analisar os últimos dados que enviou para Terra.

E quanto à sonda Rosetta? De acordo com o comunicado enviado pela ESA, Rosetta vai ser posta na rota do cometa para se despenhar a 30 de setembro, pondo fim a uma odisseia cósmica com doze anos. Com ela destrói-se também a câmara Osiris, que ao longo de vários anos trouxe até à Terra imagens esclarecedoras sobre os cometas do Sistema Solar.