Bob Dylan – que nasceu Robert Allen Zimmerman – é um músico único, que se impôs nos anos 60 e 70 com canções como “Blowin’ in The Wind” e “The Times They Are a-Changin”. Ambas se tornaram hinos para os defensores de movimentos anti-guerra e dos direitos humanos. Mas mais do que a qualidade de Dylan, dos seus poemas e da sua criatividade musical, foi a sua posição vincadamente anti-establishment e de grande crítica social e política que o tornou tão influente e popular. Dentro e fora dos Estados Unidos da América (EUA).

Zimmerman nasceu em 1941 no Minnesota, filho de judeus soviéticos que emigraram para os EUA, mas despertou para a música muito cedo, ainda no liceu, período durante o qual integrou várias bandas. Em 1959, já com 18 anos, trocou o liceu pela faculdade e o rock pela música folk que, na sua opinião, era mais séria e rica em conteúdo. Foi então que, em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas – que inicialmente disse apreciar e, posteriormente, que mal conhecia –, decidiu assumir o nome artístico que ainda hoje enche salas de espectáculos por esse mundo fora.

De Harley para o liceu

Se esta é a história do compositor e músico que todos – ou quase todos – conhecem, já a paixão do novo Nobel da Literatura por carros e motos é bem menos popular.

O seu primeiro amor foram as duas rodas, tendo adquirido a sua primeira moto, uma Harley-Davidson Knucklehead Twin, que pintou de preto e que lhe serviu de meio de transporte durante os anos de liceu.

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Com a faculdade chegaram os tours musicais, primeiro pelo Estado e depois pelo país. Dylan trocou as duas pelas quatro rodas, tendo-se desde logo revelado um fã da Ford. Em 1963 e no ano seguinte, as deslocações entre espectáculos foram realizadas a bordo do seu Ford Galaxy Country Sedan Station Wagon, produzido em 1962. O Country Sedan de 1962 deu lugar a um outro de 1964, com Dylan a regressar às motos numa altura em que já era uma estrela do folk, cantando lado a lado com nomes como Joan Baez, o que lhe abriu as portas dentro e fora dos EUA.

Por estranho que pareça, neste regresso às motos, Bob não optou pelas muito americanas Harley, tendo preferido que a sua segunda montada fosse inglesa. Adquiriu uma Triumph Tiger 100, numa época em que muitos actores e músicos favoreciam a marca britânica, de Steve McQueen a James Dean, passando por Clint Eastwood, Paul Newman e Marlon Brando.

Em 1966 Dylan ofereceu a si próprio mais um brinquedo, que admite ter sido “a coisa mais cara que alguma vez comprou”, até então. Referia-se a um Ford – what else? – Mustang descapotável. Contudo este automóvel, por quem o artista tinha grande devoção, não durou muito. Um dos seus colaboradores deixou-o descair monte abaixo em Woodstock, onde então vivia, com a viagem a terminar com o Mustang enfaixado num camião. “O máximo que consegui por ele foram 25 dólares”, queixou-se o artista. Curiosamente, um ano antes, o cantor tinha lançado “It’s All Over Now Baby Blue”, num presságio para o destino do seu Mustang Convertible azul-bebé.

Mas o ano de 1966 ainda não tinha terminado e estava prestes a acabar muito mal para Bob Dylan que, a caminho da oficina para reparar a sua nova Triumph 500, caiu a baixa velocidade. Isso não o impediu de ficar às portas da morte durante dias, só regressando à música passados quatro anos. Mesmo assim, apesar do acidente, o músico continuou a gostar de andar de moto, pois ainda há cinco anos, no seu 70º aniversário, foi visto a andar numa Harley.

Facadas nos fãs

Ao longo dos quase 60 anos de carreira, Bob Dylan tem sido um deus para a esmagadora maioria dos melómanos. Pelo menos, os que gostam de folk. Há quem não lhe perdoe alguns deslizes, sobretudo aqueles rumo ao vil metal, graves para um histórico crítico do establishment.

A primeira das facadas na sua reputação foi de carácter técnico e teve lugar quando Dylan optou por “going Electric” no Newport Folk Festival de 1965. Choveram críticas dos amantes das guitarras acústicas, tradicionais no folk, e passou a ser frequente nos seus concertos escutar, aqui e ali, uns espectadores aos gritos acusando-o de Judas.

Mas a guitarra eléctrica foi a menor das pedras que os críticos atiraram ao agora Nobel. Depois de numa conferência de imprensa, em 1965, quando já tinha atingido o estrelato, ter respondido “lingerie feminina” à pergunta “que anúncio aceitaria fazer se tivesse que fazer algum”, resposta dada com uma entoação que permitia concluir que nem morto o apanhariam a promover os lucros do grande capital, Bob Dylan surpreendeu toda a gente, e em diversas ocasiões, facturando consideravelmente em anúncios comerciais.

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Dylan já tinha vendido a utilização do seu “The Times They Are a-Changin”, um dos seus hinos dos anos 60, para banda sonora de um anúncio de 1996 ao Banco de Montreal. E continuou por aí fora, promovendo os automóveis da Cadillac, os iogurtes da Chobani e, para o cantor distinguido pelo prémio criado pelo inventor da dinamite engolir por completo a ironia, vendeu a sua imagem à lingerie da Victoria’s Secret em 2004.

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Em 2014, Bob Dylan surpreendeu toda a gente no anúncio ao Chrysler 200 (construtor que, é bom recordar, é controlado pela Fiat) durante o Super Bowl, precisamente na altura do ano em que a publicidade é mais bem paga nos EUA. O anúncio da IBM, em 2015, só veio provar que Dylan é coerente. Em relação a 2014, é claro. Quanto ao espírito dos anos 60, estamos conversados.

https://www.youtube.com/watch?v=wtyORRJ_gzM