Nome: Estranha Guerra de Uso Comum
Autor: Paulo Faria
Editora: Ítaca
Páginas: 296
Preço: 16€

estranha guerra 2

Haveria muito a dizer sobre os méritos de Paulo Faria enquanto tradutor e sobre a importância da sua estreia na ficção. Felizmente, o padre José Tolentino de Mendonça já tratou de dizer tudo isso no seu artigo semanal no Expresso, o que me permite avançar directamente para o que há a dizer acerca de Estranha Guerra de Uso Comum.

Neste livro, Paulo Faria conta a história de Carlos, o filho de um médico que serviu no Ultramar à procura de conhecer melhor o pai depois da morte deste. Para o fazer, Carlos irá conversar com dez combatentes que conheceram o seu progenitor em Moçambique, intercalando essas dez conversas com dez cartas que escreve ao seu pai já depois da morte deste.

Qualquer leitor minimamente atento perceberá imediatamente que este Carlos é apenas um alter-ego de Paulo Faria, também ele nascido em 1967, também ele tradutor, também ele filho de um médico que esteve na Guerra Colonial, falecido em 2013, e esta identificação tão clara entre autor e personagem não pode de maneira nenhuma ser ignorada para a compreensão tanto dos méritos como dos problemas de Estranha Guerra de Uso Comum. Aliás, Paulo Faria parece querer tornar absolutamente explícita a veracidade dos factos narrados no seu livro quando, ao descrever a conversa que Carlos teve com o alferes Matias, vai intercalando aquilo que o alferes diz sobre a guerra com os comentários que Matias faz a propósito dos acontecimentos do Porto-Sporting para a Taça de Portugal 2014/15, que ia sendo disputado durante a conversa, comentários esses que coincidem precisamente com o que aconteceu no referido jogo.

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Paulo Faria parece estar desta forma a exorcizar, através de uma personagem com quem só não partilha o nome, o trauma da morte do seu pai, num ajuste de contas que é ao mesmo tempo uma declaração de dependência. As cartas que escreve oscilam sempre entre uma enumeração dos defeitos do pai e uma lamentação por nunca ter tornado claro que o amava. A certa altura, naquela que é, a meu ver, a frase central do livro, precisamente por condensar a tensão que percorre todo o texto, Carlos escreve ao pai o seguinte:

“Eras o homem mais machista do mundo. Não eras um homem do teu tempo, eras inclassificável, exótico, fascinante de uma maneira doentia. Eras um homem em luta com o teu tempo e eu queria lutar a teu lado” (página 140).

Aqui, Carlos começa por atacar o pai, como faz ao longo de todo o livro, para depois gradualmente declarar o fascínio que este exerce sobre si, terminando a desejar ficar do seu lado, seja em que ocasião for.

Apesar de Paulo Faria ter já assinaláveis virtudes enquanto escritor, ao propor-se a escrever um livro sobre um pai que simultaneamente ama e odeia, o escritor está a procurar abordar, logo no seu primeiro livro, um assunto que parece intratável, condenando desta forma a sua obra, sob certo ponto de vista, ao fracasso. Esse fracasso é reforçado pela própria premissa do livro, uma vez que a ideia de conhecer a guerra colonial do seu pai é absurda (tal como é absurda a ideia de conhecer a guerra colonial ou sequer o seu pai). Carlos parece aliás estar consciente, embora intermitentemente, de que o exercício a que se propõe não poderá nunca ser bem-sucedido, como sugere logo na segunda carta quando formula as suas intenções:

Fui à cata das tuas fotografias de Moçambique, comecei a falar com os teus antigos camaradas de armas, quero saber mais. Parece simples. Morreste, não queria que tivesses morrido, prolongo a tua existência mais um bocadinho falando de ti. As coisas são ligeiramente mais complicadas.

Se este projecto é um projecto condenado à partida ao fracasso (não sendo isto necessariamente um defeito), o livro não o é, uma vez que torna evidentes uma série de virtudes que Paulo Faria inegavelmente tem e que se revelam sempre que o autor se consegue livrar da sombra de Lobo Antunes que atormenta esta Estranha Guerra de Uso Comum e que em nada beneficia o livro. Esta presença de Lobo Antunes não surge no assunto do livro, mas antes num sentimentalismo exacerbado (que encontramos constantemente em Lobo Antunes e em algumas passagens deste livro), na utilização de evocações que interrompem subitamente a narrativa, e que são também elas exacerbadamente sentimentais (“Pai, agora já posso chorar?”; “Pai, isto nunca mais acaba; “Pai, já posso morrer?”, etc.) e essencialmente numa maneira característica de começar as frases à maneira do veterano de recordações de guerra (compare-se, por exemplo, a página 73 de Estranha Guerra de Uso Comum onde se lê “A água a puxar-nos as pernas com uma força incrível, os soldados a chamarem” com a página 275 da décima edição de Manual dos Inquisidores, onde os parágrafos começam com: “e a família a apagar logo o cigarro, a tirar à pressa a mão dos bolsos” ou “a minha mãe (…) a estalar os suspensórios”).

Reduzir Estranha Guerra de Uso Comum a uma emulação de Lobo Antunes seria, no entanto, ignorar alguns dos maiores trunfos do livro. Paulo Faria revela nos testemunhos dos companheiros de guerra do seu pai uma extraordinária capacidade (fruto talvez do seu excelente trabalho como tradutor) para captar o tom e reproduzir o discurso que ouvira, um talento que se revela particularmente no monólogo final do alferes Júlio Vitória, uma reflexão acerca da perversidade dos comandantes dos batalhões, que forçavam os soldados a fazer tudo na sombra porque “queriam que nos metêssemos com o capelão, que o desafiássemos para ele perder a virgindade com a Isabel, queriam que espicaçássemos os homens casados para os vermos enganar as mulheres com as Isabéis e com as Madalenas, queriam que sujássemos tudo à nossa volta, que nos sujássemos também para não lhes podermos apontar o dedo, para sermos todos irmãos na javardice” (página 124).

Mas o que mais impressiona neste livro é a forma lenta e cuidada como Paulo Faria desenvolve as suas histórias, a forma como, por exemplo, se vai desenvolvendo a história de um guerrilheiro capturado pelas forças portuguesas e que é assassinado à queima-roupa pelo alferes Gomes numa expedição. A história vai lentamente ganhando pormenores, alguns deles contraditórios entre si, até que Carlos entrevista Gomes, que termina a conversa narrando a morte do guerrilheiro de uma forma crua, subtil, sem dramatismos e por isso mesmo extraordinariamente violenta. Conta Gomes que “a história dele [do guerrilheiro] não tinha pés nem cabeça. Já tinha ido uma vez mostrar esse esconderijo e acabou por fugir. Mesmo assim mandaram que ele fosse novamente servir de guia. Da última vez calhou-me a mim” (página 152).

Ao despedir-se de Gomes no Centro Comercial Colombo, ainda a tentar perceber como é que aquele velho simpático fora capaz de matar um guerrilheiro desarmado à queima-roupa, Carlos olha uma última vez para o alferes, para o ver a ir-se embora e, evidenciando novamente o virtuosismo de Paulo Faria, descreve este olhar colocando-se a si mesmo na posição do alferes, estando o alferes por sua vez na posição do guerrilheiro:

“Caminhámos até à saída do Colombo, ele comentou que a mulher estava a fazer compras no supermercado ali do centro comercial, que ia ter com ela, eu despedi-me (…). Parei ao cabo de dez passos, voltei-me para trás, fiquei a vê-lo afastar-se, um velho de costas vergadas, de telemóvel colado ao ouvido” (página 156).

Paulo Faria está desta forma a resumir aquela que é a maior lição do livro e que Carlos aprende da pior forma nesta sua odisseia: não há maneira nenhuma, por mais que desejemos, de nos colocarmos na pele dos outros. Não há fórmula nenhuma que nos permita perceber uma pessoa ou de sequer conhecê-la.

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.