Um dia se escreverá sobre o impacto de Cristiano Ronaldo na História de Portugal, mas um dos efeitos do madeirense já é evidente: não há criança neste país, mais ou menos graúda, que não se sinta legitimada para gritar “síííííííííííííííí” por tudo e por nada, a propósito ou a despropósito, com o mesmo entusiasmo com que Eder disse na Alameda “é feriado hoje, ca****!”

Serve este introito para apresentar as personagens desta história. Em jeito de prenda de Natal, os responsáveis do Centro Social Paroquial São Maximiliano Kolbe, paredes meias com o bairro de Chelas, decidiram levar setenta crianças entre os seis e os dezassete anos de idade ao aeroporto de Lisboa pela primeira vez. E, ainda não tinham passado cinco minutos, já o grupo lançava em uníssono o grito de guerra ronaldesco em plena pacatez de uma Portela em manhã de quarta-feira.

— Já todos perceberam onde estamos?
Sííííííííííííííííí.

Ao contrário dos colegas mais velhos, que tendem a encolher os ombros mesmo perante coisas extraordinárias, Afonso, de seis anos, não tem problemas em esconder o entusiasmo. “Hoje é o dia todo de surpresas!”, repete algumas vezes. A primeira foi logo o destino: as educadoras só disseram que era dia de passeio, nada mais. E os miúdos ainda não desconfiavam de que, até ao fim da manhã, iam visitar um avião da Easyjet e dar uma volta por cima do estuário do Tejo e a Península de Setúbal.

Enquanto comem miniaturas de pastéis de nata e mini-brioches, as responsáveis do centro — que recebe crianças e jovens de um dos bairros mais problemáticos da capital — vão preparando o terreno para o que se segue. Como grande parte destas pessoas nunca andou nem sequer esteve dentro de uma aeronave, há que perceber se todos estão dispostos a isso.

Miguel está. “Ó Vanda, o avião não é considerado o meio de transporte mais seguro do mundo?”, pergunta o rapaz de onze anos, cabelo louro espetado, quando o grupo chega à zona do check-in. “Para mim é a bicicleta”, discorda o amigo Daniel, mas o outro não liga, com olhar atento a todos os pormenores, todas as movimentações. As hospedeiras de algumas companhias aéreas passeiam de cabeça coberta, os polícias trazem metralhadoras, os japoneses andam de um lado para o outro meio perdidos, um senhor com rastas numa das filas está a atrair atenções inusitadas. É o cantor Mastiksoul, que não se livra de dar três ou quatro autógrafos. Ou cinco ou seis.

Miguel nunca tinha posto os pés no aeroporto, muito menos num avião. Ainda assim, não tem dúvidas: “Eu quero ser piloto.” É por influência do tio, que durante muitos anos foi condutor dos carros que transportam as bagagens entre o terminal e os aviões, e trazia do trabalho histórias que deliciavam o petiz. “Tenho uma prateleira cheia de livros sobre aviões no meu quarto. E já pedi aos meus pais para me darem um aeroporto em miniatura, mas daqueles a sério, elétrico, não é dos outros de plástico.”

“Sou muito novo para morrer”

— Estes senhores ofereceram-nos a oportunidade de irmos ver um avião por dentro. Vamos lá, sentamo-nos, pomos os cintos e vimos embora, como é óbvio. Querem ir?
Síííííííííííííí.

— Estão a gostar?
Síííííííííííííí.

Depois do desprezo inicial, Ana Maria lá vai cedendo e admite que estar no aeroporto, quase a entrar num avião, é “mega fixe”. Há bocado, na fila para o check-in onde recebeu o bilhete para a volta nos céus de Lisboa — que achava que era falso –, ela tentou impressionar Miguel e Daniel. “Já fui a Espanha, à Alemanha…” Os outros não acreditaram e ela acabou por se desmentir. Já dentro do Airbus foi das pessoas que teve uma reação mais efusiva. “Eia c’um caraças, isto por dentro é bué da grande!”

Muito zeloso do lugar que lhe atribuíram, Daniel senta-se no 6B e ignora repetidos avisos de que os lugares destinados aos presenteados são lá atrás. Ao entrar no autocarro que os transportou entre a gare e a pista, foi dele a pergunta mais honesta: “Isto é um avião?” Não era, ele rapidamente percebeu e, uma vez lá dentro, ficou grudado à janela para não perder pitada.

É que naquela altura, apesar do que lhes tinham dito, já ninguém duvidava de que iam mesmo voar. Não sabiam por quanto tempo, não sabiam para onde, mas sabiam que iam levantar voo naquele aparelho aparentemente monstruoso. O comandante, aliás, não conseguiu guardar segredo por muito tempo.

— Vamos dar uma volta aqui pelo chão.
Yeah! Mas vamos voar?
— Não sei se há condições…depende da torre de controlo.

Se o avião se vai mexer, mais vale que seja para o ar. O aparelho começa a andar pela pista, aqui os hangares, ali o quartel dos bombeiros, além o terminal de onde acabámos de sair. Quem faz a visita guiada às instalações é o espirituoso comissário de bordo André, que, como mandam as regras, explica as regras de segurança dos voos. “Se temos de aterrar na água, ai ai ai, o que é que se faz?” Usa-se o colete salva-vidas por baixo de cada assento, explica.

Breve paragem à entrada da pista, uma última piada em terra. “Está tudo bem disposto? Ainda bem. Agora também não tinham outro remédio”, atira André. O resto já se sabe: uma aceleração brusca, uma velocidade enorme, uma sensação estranha no estômago e… muitos gritos. É sol de pouca dura, que o espanto pela paisagem rapidamente se substitui ao medo.“Bué da fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixe.” O futuro piloto Miguel está absorvido com o que vê, não tem vontade de falar. Tira selfies e não descola o nariz da janela. No banco ao lado, Daniel parece mais interessado em analisar o interior da aeronave. E Ana Maria está calada, não se lhe arranca palavra.

Oeiras, Costa da Caparica, Almada, Palmela, Setúbal, Tróia. Em quarenta minutos não dá para mais, mas ainda dá para sustos. Sobre as praias paradisíacas da costa alentejana, vários poços de ar e turbulência surpreendem os incautos. Miguel fica em sobressalto e queixa-se de que o cérebro lhe está a bater no crânio. “Avião! Eu tenho onze anos, sou muito novo para morrer!”

Não morreu. E, de volta a terra, cantou Maria Leal com os outros como se não tivesse acontecido nada.