Os melhores

Journey to the Abyss — The Diaries of Count Harry Kessler, Harry Kessler
Já cheguei à idade em que leio o que devia ter lido ontem e não o que por aí se lê hoje. Ganhei com certeza com a troca. O primeiro livro que recomendo é o diário de Harry Kessler, em dois volumes (na versão Kindle, só há um deles traduzido para inglês com o título de Jornada para o Abismo). Kessler, um cosmopolita por nascença e vocação, foi militar, diplomata, bibliófilo, grande coleccionador de pintura, e uma das luzes do modernismo e da “sociedade” (era um aristocrata rico). Conheceu toda a gente, do Kaiser Guilherme a Verlaine, a Monet e a Nietzsche. Não é possível perceber a Europa entre 1890 e 1937 sem o ter lido. Com alguns (raros) lapsos de eugenismo, é uma das testemunhas mais lúcidas do tempo. E escreve admiravelmente.

O mundo de ontem, memórias de um europeu, Stefan Zweig
Depois de Kessler, recomendo também as memórias de um contemporâneo, Stefan Zweig, O mundo de ontem, memórias de um europeu, que cobrem sensivelmente o mesmo período. Judeu e perseguido pelo crescente anti-semitismo austríaco e, a seguir, alemão, era um notável produto dessa mesma cultura que o perseguiu. Biógrafo, romancista, dramaturgo, libretista, as memórias contam a decadência e a morte da civilização da classe média, que se julgava suprema e triunfante como o Progresso (com maiúscula). É uma história triste. Zweig teve de emigrar, com a emergência de Hitler, e foi parar ao Brasil onde se matou aos 60 anos, por horror à devastação do seu “mundo de ontem”.

[as escolhas de Vasco Pulido Valente:]

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