Os melhores

As Mentiras que as Mulheres Contam e As Mentiras que os Homens Contam, Luis Fernando Verissimo (D. Quixote)
As capas da edição portuguesa destes dois livros são infelizes (bota infeliz nisso), mas encaderne a coisa em papel pardo, não pense mais no assunto e concentre-se no que está lá dentro: os diálogos que parecem falados mas são escritos; e o dia a dia que parece rotina mas é, para sermos pirosos, a essência da vida. E depois, claro, o humor. Um exemplo: “Deus, que não tinha problemas de verba, nem uma oposição para ficar dizendo ‘Projetos faraônicos! Projetos faraônicos!’, resolveu, numa semana em que não tinha mais nada para fazer, criar o mundo”. Outro exemplo: “Chega um dia na vida de todo o homem em que ele se olha no espelho de manhã e tem uma revelação estarrecedora: sua mulher está dormindo com outro! Depois ele olha melhor e vê que não é outro, é ele mesmo, mas por alguma razão inexplicável ele está com quarenta anos”. Não há nenhuma dúvida e, se for preciso, eu vou ao notário registar isto: o brasileiro Luis Fernando Verissimo é o melhor cronista de língua portuguesa vivo.

O Homem Fatal e A vida como ela é…, Nelson Rodrigues (Tinta-da-China)
Se Luis Fernando Verissimo é o melhor cronista de língua portuguesa vivo, então Nelson Rodrigues é o melhor cronista de língua portuguesa morto. Os seus livros estão cheios de traições, de suicídios por amor, de perversões sexuais e de funerais. E, evidentemente, também de humor. Nelson Rodrigues era um reaccionário declarado e esteve do lado da ditadura brasileira contra o esquerdismo das elites, da Igreja e da juventude. Mas essa era uma posição política mais estilística do que filosófica — ele gostava sempre de estar do contra. Quando o filho, Nelsinho, militante das esquerdas, foi preso e apareceu com evidentes sinais de maus tratos, Nelson teve um choque: afinal, era verdade, o regime que ele defendia torturava mesmo. (A dada altura, o ministro do Exército tinha dado uma ordem: se o filho de Nelson fosse preso, ele não podia morrer.) Ruy Castro conta, na biografia O Anjo Pornográfico — a vida de Nelson Rodrigues, a cena em que ele encontra o filho:
“Nelson perguntou-lhe na frente de um oficial:
‘Você foi torturado?’
E Nelsinho:
‘Muito.’
O rosto de Nelson se desfez, como uma máscara de teatro que tivesse sido deixada na chuva. Envelheceu anos naqueles e nos minutos seguintes.”
Durante várias décadas depois da sua morte, um conflito entre os herdeiros (seis filhos de três mulheres diferentes) impediu que a obra de Nelson Rodrigues fosse publicada no estrangeiro. Agora que tudo se resolveu, os seus livros começam a chegar a Portugal. A vida como ela é… junta vários contos e O Homem Fatal várias crónicas. Esperemos que a Tinta-da-China responda com urgência a uma pergunta muito séria: além destes dois e de A Menina Sem Estrela (também já publicado) quando é que vamos ter tudo de Nelson Rodrigues?

Chega de Saudade, de Ruy Castro (Tinta-da-China)
Não sei se repararam que eu falei em Ruy Castro, autor da im-per-dí-vel biografia de Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico. Este ano, a Tinta-da-China prestou mais um inestimável serviço à Humanidade com a publicação de outro livro de Ruy Castro, Chega de Saudade — a história e as histórias da Bossa Nova. Como explica na “Introdução e Agradecimentos” da edição brasileira (de 1990), Ruy Castro falou com mais de cem pessoas para escrever este livro: “Durante dezoito meses, de janeiro de 1989 a agosto de 1990, elas se submeteram pacientemente a longas entrevistas , fornecendo informações, vasculhando gavetas, esclarecendo datas, localizando discos, copiando fitas, arrancando fotos de seus álbuns, desenhando mapas e fazendo descrições minuciosas de casas, bares e boates”. Este trabalho de remador de Ben-Hur (piscadela de olho para os fãs de Nelson Rodrigues) nota-se em cada linha de Chega de Saudade. Quem quiser aprender a escrever um livro de não-ficção pode começar por aqui.

A Noite do Meu Bem, de Ruy Castro (Companhia das Letras)
Santo Deus, mais Ruy Castro? Sim, mais Ruy Castro. Como eu disse em cima, Portugal recebeu este ano (com um ligeiríssimo atraso de 26 anos) o Chega de Saudade enquanto o Brasil recebeu, ainda a cheirar a novo, este A Noite do Meu Bem — a História e as Histórias do Samba-Canção. Tudo se passa na noite do Rio de Janeiro nos anos 40, 50 e 60. Ruy Castro avisa: “Este é um livro para ser escutado tanto quanto lido — 90% das canções podem ser ouvidas na internet”. É uma boa ideia: ler o livro enquanto se ouve o livro. Além de música, A Noite do Meu Bem tem política, futebol, economia, sexo e, genericamente, má vida. Ruy Castro nunca escreve sobre um tema, ou sobre uma pessoa; escreve sobre uma época. E tome atenção a um detalhe: como ele consegue coser o fim de um capítulo ao começo do seguinte. Tente fazer igual, tente — e veja como é difícil.

A Ditadura Acabada, Elio Gaspari (Intrínseca)
É o quinto e último volume da História da ditadura brasileira, escrita pelo jornalista Elio Gaspari. Deixem-me chamar a atenção para isto: juntos, estes livros são a melhor coisa alguma vez escrita sobre um regime autoritário. Esta investigação nasceu de forma engraçada (e impossível de replicar, por exemplo, em Portugal). Foi assim: em 1984, Gaspari passou três meses em Washington com uma bolsa do Wilson Center for Internacional Scholars, tendo como objetivo declarado escrever um pequeno ensaio sobre duas das principais figuras da ditadura que governou o Brasil nos anos 60 e 70. Mas, quando o tempo acabou, percebeu que só tinha escrito um terço daquilo a que se comprometera e que, ainda por cima, um ensaio não seria suficiente para explicar o que se passara no país. Quando confessou o seu fracasso ao diretor do centro, ficou pasmado com a resposta: “Você não sabe como fico feliz. É para isso que existe o Wilson Center. Para fazer com que uma pessoa saia das suas ocupações rotineiras e descubra que deve escrever um livro”. Na realidade, como já se viu, foram cinco livros. Poucas pessoas escrevem História como ele: Elio Gaspari conta, com detalhes e inteligência, como a ditadura foi montada e, décadas depois, desmontada — tendo, entre um momento e o outro, dizimado as esquerdas com uma terrível violência. Escusam de procurar: nenhum destes volumes está editado em Portugal. Mas não entrem em pânico: foi para isso que Deus inventou a Amazon.

O pior

A Espia, Paulo Coelho (Pergaminho)
Este ano, os portugueses tiveram que sofrer mais um livro de Paulo Coelho. A Espia conta a história de Mata-Hari e está escrito da forma que se esperaria. Mas não nos deixemos tomar por maus pensamentos. É sempre útil lembrar que Paulo Coelho está no seu melhor não quando escreve, mas quando escrevem sobre ele. Por isso, podemos sempre recuperar O Mago, a biografia do escritor feita por Fernando Morais e que foi publicada em Portugal logo em 2009.

[as escolhas de Miguel Pinheiro:]

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