Balanço Literário

Os clássicos vs Os ausentes

Jorge Almeida faz o elogio dos nomes essenciais: aqueles que encontraram merecidas reedições e outros que continuam à espera da sua vez.

Charles Dickens

Getty Images

Autor
  • Jorge Almeida

Os melhores

“Em Busca do Tempo Perdido”, Marcel Proust (Relógio d’Água)

O grande acontecimento editorial ocorrido este ano em solo português é resultado de um acto de generosidade verdadeiramente louvável da Relógio d’Água. A reedição dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust na colecção ‘Clássicos para Leitores de Hoje’ possibilita aos leitores deleitarem-se com a prosa inigualável de Proust num formato física e financeiramente apetecível. As desculpas para não ler o romance de Proust são cada vez mais inaceitáveis.

“Heróides”, Ovídio (Cotovia)

Com o talento poético que o celebrizou, Ovídio fez das figuras mitológicas da Antiguidade clássica as protagonistas destes vinte e um poemas/cartas de amor. Repleto de ciúme, humilhação, suicídio, desejo sexual, infidelidade, delírio, incesto, estratégias de sedução, insultos, súplicas, maldições, comiseração, violações e perdão este é um texto fundamental para se perceber coisas aparentemente tão distintas como referências de Os Lusíadas, teorias de Freud e os gritos dos vizinhos do primeiro esquerdo.

“O Amigo Comum”, Charles Dickens (Relógio d’Água)

A primeira impressão que a leitura de O Amigo Comum suscita no leitor é a de que está perante um escritor genial no domínio completo das suas virtudes (estilísticas, intelectuais, etc.). O virtuosismo exibido por Dickens em certas páginas sugere a comparação com um malabarista a fazer a sua arte em cima de um TGV na sua velocidade máxima, enquanto avalia criticamente as paisagens por onde passa, o progresso tecnológico e as políticas económicas responsáveis pela inflação do preço dos bilhetes. Diga-se, também que essas virtudes são perceptíveis graças à tradução exemplar de Maria de Lourdes Guimarães.

“Avelina, criada para todo o çerviço”, José Vilhena (E-Primatur)

Há uma boa quantidade de pessoas que pensa que a melhor forma de perceber a sociedade portuguesa contemporânea passa pela leitura de livros cujo título começa geralmente com “Portugal:” e que acaba invariavelmente com um conjunto de palavras compostas. Em boa hora a E-Primatur se lembrou de reeditar um dos livros que nos dá pistas muito úteis para perceber algumas das peculiaridades da sociedade portuguesa e ainda bons momentos de pura diversão.

“Bandolim”, Adília Lopes (Assírio & Alvim)

O conjunto de textos que formam Bandolim é composto por aquilo a que, num sentido lato, poderíamos chamar ‘achados’: achados porque são coisas que a autora acha (citações eruditas, trocadilhos, notas de rodapé de trabalhos dos tempos universitários, frases ouvidas em cafés, memórias) e das quais parece não se querer desfazer, porque as considera verdadeiros achados, isto é, pechinchas, na medida em que o lucro que tira da sua relação com todas elas parece ser vital para a sua escrita. Por vezes, parece-se com uma mnemónica sobre a própria vida.

O pior

Uma leitura regular de Balzac, disse Wilde, faz com que os nossos amigos se pareçam com sombras, tal a espessura e a profundidade humana das personagens criadas pelo escritor francês. Assim, não espanta que os leitores de Balzac prefiram a leitura a eventos sociais. Muitos dos leitores portugueses têm alguma relutância em acreditar nesta afirmação sobre o génio de Balzac devido à inexistência de um projecto audacioso que se proponha a traduzir uma parte significativa das obras que compõem a Comédia Humana. A ausência de um projecto deste tipo é, assim, o que de pior aconteceu na edição de livros em Portugal.

[as escolhas de Jorge Amaral:]

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