Os melhores

“A Menina Sem Estrela”, Nelson Rodrigues (Tinta da China)

O livro obrigatório de Nelson Rodrigues. É nas memórias A Menina Sem Estrela que conta com um raríssima coragem e uma desordem adequada como se tornou escritor. E o homem em que se tornou. Em Rodrigues toda a experiência ganha um significado moral e uma transcendência, como se a sua grande obsessão fosse encontrar uma forma de dignificar uma vida onde encontrava mais canalhas do que gente boa. Estão aqui os grandes temas que definem a melhor literatura (o amor, o sexo, a morte), as suas fendas biográficas (a fome, as mortes do irmão Roberto e do pai, a cegueira da filha), os seus defeitos (a cobardia, a inveja, o ressentimento), os momentos em que se achou anjo – pornográfico mas anjo. E uma língua quase só sua, feita de brilhantes formulações e génio aforístico.

“O Medo”, “A Fome”, “Lugar de Massacre”, José Martins Garcia (Companhia das Ilhas)

A reedição das obras de José Martins Garcia é um acto de serviço público para quem considera a literatura como gesto exigente. A uma prosa cheia de recursos, sem os trazer à lapela, junta-se uma verve sarcástica, não poupando temas, feridas e mitos históricos portugueses, que varre um período histórico que vai dos anos 50 aos anos 80 do século passado. Para citar algumas das palavras de Urbano Bettencourt, um dos organizadores da colecção, este universo literário engloba a “cinza e a desumanização do salazarismo-marcelismo”, o “exílio e o expatriamento”, “o abandono e a miséria insulares”, a “guerra colonial e as suas consequências devastadoras a nível físico e psicológico”. Martins Garcia não ficou convencido com o curso dos acontecimentos posteriores. “Neste lapso de tempo”, lembra Urbano, situa-se ainda a “euforia da revolução”, ela própria objeto também de um discurso cáustico que desmonta “os seus excessos e desmandos”.

“Apócrifa Antologia – Projecto Literário em Curso”

Uma antologia que, não representando um movimento literário, esboça uma direcção em sentido diverso mas tão necessário como a dos “Poetas Sem Qualidades” de há uns anos. Abrem-se assim mais carreiros. A arte poética aqui tem menos a ver com um tom menor que se detém nas ocorrências da biografia, dos dias e das ruas e mais com uma vocação metafórica que, felizmente, vai além do malabarismo sem chão. Não há pistas e notas biográficas a circundar estes nomes: António Albata, Beatriz de Almeida Rodrigues, André Tavares Marçal, Vasco Macedo, André Alves, Elsa Oliveira, Marco Galrito, José Pedro Veiga, Tito, Xavier Lopes. Marta Esteves, Tristan a. Guimet, João Vicente. Possivelmente porque, como refere Macedo, “toda a soberania é um gesto de vaidade”. Os poemas, aguentando bem a página, fazem o leitor imaginar a sua leitura pública e a sua performance, à conta da sua torrência ou magoada ou feroz.

“À Espera de Bojangles”, Olivier Bourdeau (Guerra & Paz)

Foi uma pequena editora, a editions Finitude, que teve o desplante de editar En Attendant Bojangles, livro que se tornou um fenómeno em França, tornando o desconhecido Olivier Bourdeau (n.1980) numa figura apetecível para entrevistas e perfis. Mas não é por isso que merece o destaque. Merece-o por ser uma narrativa preciosa, feita de swing, humor e melancolia, na qual se jogam a felicidade familiar vista pelos olhos de uma criança e o seu apagamento, como se fosse uma canção bela e triste que tivesse chegado ao fim. Sente-se a influência do cinema – o autor fala em “Breakfast at Tiffany’s”. Por vezes parecemos estar a assistir a uma curta de animação. Pequeno filme que na sua primeira frase faz adivinhar a fantasia que vem a seguir: “O meu pai tinha-me dito que, antes de eu nascer, a sua profissão era caçar moscas com um arpão”.

“Da Direita à Esquerda – Cultura e Sociedade em Portugal, dos anos 80 à Actualidade”, António Araújo (Saída de Emergência)

Um dos objectos perseguidos em Da Direita à Esquerda é o de fazer um balanço e contas das “novas” direitas portuguesas – as que se assumiram desde os anos 80 até hoje. Encontramos a direita do Semanário e da Olá, a direita anarco-conservadora do Independente, a direita conservadora-liberal dos blogues, a direita do jargão do empreendedorismo. Mas outro, realizado, é uma crónica, rara e necessária, da sociedade portuguesa que junta alta e baixa cultura num conjunto de referências que vão da “Vida Portuguesa” a livros do top sobre temas como as crises económicas e intestinais, passando por clubites políticas, facciosismos, circos mediáticos, termos da moda. Matéria que, junta, funciona como um retrato de uma certa sociedade portuguesa para além de qualquer quadrante.

O pior

“Ai que prazer/Não cumprir um dever,/Ter um livro mau para ler/E não o fazer!/Ler é maçada,/Estudar é nada/O sol doura sem má literatura.”

[As escolhas de Nuno Costa Santos:]

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