Era preciso tomar uma decisão. E rapidamente. Raúl José ajeitou o headset e de lá ouviu Jesus (castigado e a ver o jogo na bancada) dar uma ordem. O Sporting empatava (1-1) em Chaves e Rúben Semedo acabara de ver o segundo cartão amarelo — é a terceira vez que o central é expulso por duplo amarelo no último ano. Paulo Oliveira saltou do banco, tirou o fato-de-treino à pressa e fez uns sprints logo ali, sem ter sequer tempo de aquecer antes de entrar. A substituição estava pronta. O minuto era o 73. Certamente sairia alguém do meio-campo ou, quem sabe, um dos suplentes (Bryan Ruiz ou André Felipe) que entraram ao intervalo.

Depois, dois minutos depois, o Sporting marcaria. Paulo Oliveira viu o golo ainda fora do relvado, à espera para entrar. Três toques. Um: Ruiz desmarcou num passe longo André Felipe dentro da área, ligeiramente descaído para a esquerda e sem ângulo para chutar. Dois: André cruzou de primeira para o primeiro poste, um cruzamento rasteiro, forte e à espera de um desvio. Três: Bas Dost antecipou-se a Freire e, nessa nesga que conseguiu ganhar ao central do Chaves, desviou para o poste contrário e para dentro da baliza.

Era preciso tomar uma decisão. E mais rapidamente ainda, pois Oliveira entraria mal acabassem os festejos e a bola regressasse ao meio-campo. Saiu Bas Dost. Antes do golo, e com o Sporting a empatar em Chaves, certamente não sairia o “pinheiro” que todos procuravam com cruzamentos e mais cruzamentos, em busca do empate e, a seguir, da reviravolta no placard. Mas a um quarto de hora do fim, e vencendo, o Sporting resolveu tirar Bas Dost: era tempo de segurar a vitória. Sabendo o que sabe a esta hora, Jesus tiraria outro qualquer e não o holandês. Talvez saísse André. Talvez Ruiz. Qualquer um menos ele. É que o “pinheiro” fez falta no tempo extra.

“Culpe-se” Fábio Martins e o golo de uma vida. João Patrão tentou desmarcar Rafael Batatinha (os dois entraram com a segunda parte a decorrer) nas costas da defesa do Sporting. O passe era “a rasgar”. E Batatinha ficaria cara a cara com Patrício, que logo tratou de sair da baliza. Não foi preciso. Coates não deixou. Esticou-se todo, deslizou sobre o relvado e não deixou. O problema é que o corte do uruguaio acabou nos pés de Fábio Martins. O outro problema é que Patrício saiu da baliza e continuava mais adiantado do que deveria. E Fábio rematou de primeira, fazendo um “chapéu” ao guarda-redes do Sporting. Sim, é o golo de uma vida. Mas é golo. E o Chaves empatava o jogo.

Voltemos atrás no tempo. E voltemos ao início do jogo. Literalmente ao início e aos quatro minutos.

Golo madrugador do Chaves e de Rafael Lopes, erro de marcação (a roçar o amadorismo, diga-se) de Ricardo Esgaio. Mas a culpa do golo do Chaves (falemos primeiro da “culpa” e mais adiante do mérito que também há) não é apenas dele. Bruno César (que hoje foi defesa-esquerdo) subiu, deixou o flanco à mercê de Perdigão, não recuperou o lugar, Perdigão foi desmarcado desde a defesa e correu que se desalmou, olhou para a área, saiu-lhe do pé direito um cruzamento longo e, ao segundo poste, Lopes cabeceou à vontade. Porquê “à vontade”? Simples: Esgaio, que o deveria seguir, não seguiu, não saltou com ele, não fez nada, e foi o “espectador” que de mais perto assistiu ao golo. Quanto ao mérito, é todo de Rafael Lopes, que se aproximou de Rúben Semedo antes do cruzamento, depois recuou até Coates e, por fim, até Esgaio. Atrapalhou as marcações dos centrais do Sporting e escolheu por adversário o defesa que pior o faz.

Empatar, o Sporting só empataria perto do intervalo: 46′. Antes, e durante toda a primeira parte, tentou vezes e vezes sem contra, à direita ou à esquerda, encontrar com cruzamentos uma cabeça loura, um tanto calva, que é a de Bas Dost. Sem sucesso. Ora porque os laterais e centrais do Chaves não permitiam e cortavam tudo, ora porque os cruzamentos (sobretudo os de Esgaio e Bruno César; a propósito: laterais precisam-se em Alvalade) não chegavam lá. Por fim, e depois de tantas tentativas, Gelson cruzou desde a direita, um cruzamento longo, Bas Dost deu um passe atrás na pequena área e desviou nas costas de Ponck.

Era o 15.º golo esta temporada (em 25 jogos) para Bas Dost. Faria mais um na segunda parte — e disso tudo lhe contei logo no início. Mas saiu (talvez cedo de mais e quando o jogo continuava “partido”) e não voltaria a aumentar a sacada de golos que já leva. No final, mesmo no finalzinho — e depois do golo de Fábio Martins –, o Sporting bem tentou o que antes tentara: cruzar para a área, na esperança que alguém resolvesse o que se complicou. Coates é também ele um “pinheiro” e subiu até à área do Chaves. Mas não é Dost. André? Esse, nem goleador, nem “pinheiro”. E o Sporting desaproveitou o deslize do Benfica horas antes.