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Há mais de 10 anos que Rodrigo não entrava na oficina do avô Mendes, na aldeia de São Paio de Gramaços, concelho de Oliveira do Hospital. Tinha-se mudado para Lisboa para trabalhar numa empresa de telecomunicações. E não voltou. Mas há algum tempo tinha uma ideia que não lhe saía da cabeça: criar um projeto próprio, na terra da família. Não sabia bem o quê. Primeiro pensou em t-shirts ou calças de ganga. Depois lembrou-se que aquela pequena fábrica de sapatos podia transformar-se num restaurante. “Fui tirar umas fotos. Até que, a mexer nas coisas empoeiradas, encontrei uma bota antiga. E pensei: é isto”, recorda o criador da Swain, um modelo de botas unissexo que está a fazer furor além-fronteiras.

Estávamos em outubro de 2012. A velha bota de couro feita à mão tinha ficado perdida no antigo escritório do sr. Mendes, como era conhecido na região. “Isto tem 50 anos”, disse o pai ao Rodrigo, apontando para o exemplar. Os rascunhos dos vários modelos de calçado, as máquinas de costura, as formas dos sapatos de madeira e as ferramentas manuais tinham mais. Quase 100, mas continuavam intactas.

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A velha oficina do avô, em São Paio de Gramaços. © Nando Duarte

Rodrigo ficou a pensar naquilo. Duas semanas depois regressou à aldeia e à oficina. Começou a mexer nos materiais e encontrou, por acaso, o par da bota. “Aí fez-se luz. Era o meu avô a dizer-me: esquece isso, o restaurante, a roupa casual. Tens aqui o meu legado”, conta o jovem de 38 anos. E assim nasceu o primeiro produto da marca Graven, a mãe das botas Swain.

Apesar da ligação familiar, o engenheiro de telecomunicações era o único membro dos Mendes que não se tinha dedicado ao mundo dos sapatos. “Nunca pensei que a minha vida pudesse voltar às raízes familiares”, explica o empreendedor. Queria criar uma bota vintage, tradicional e que mostrasse a qualidade dos sapatos portugueses.

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Rodrigo Mendes e mais um par de botas. © Henrique Casinhas / Observador

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Na antiga fábrica, encontrou também as formas de madeira e cartão e os moldes para cortar a pele. Pegou nos rascunhos do avô, na base da bota que recuperou e adaptou-os. “O design é algo muito recente”, lembra. O primeiro contacto que fez levou-o a um fabricante de Santa Maria da Feira que acabou por produzir o protótipo. “Dei um tiro e acertei logo. Tive sorte”, confessa Rodrigo. O processo de fabrico já não é 100% artesanal porque há máquinas para coser as peles e colagens. “Mas existe sempre a mão do sapateiro que guia”, reforça o empreendedor. Tal como aconteceu com o sr. Mendes há quase um século.

O avô começou a trabalhar com apenas 16 anos. Teve aulas com um mestre artesão da aldeia em 1918, que o incentivou a começar o negócio. “Aprendeu rápido, tudo manual e apenas com ferramentas básicas.” Nos mercados e nas feiras da vila de Oliveira de Hospital, hoje cidade, toda a gente conhecia o sr. Mendes. “Não havia marca. Era o nome do meu avô e assim funcionava”, conta Rodrigo.

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Na antiga oficina, o couro era cosido nestas máquinas. © Nando Duarte

O pequeno negócio cresceu e expandiu-se para outras paragens. Chegaram às colónias portuguesas. Deste lado do oceano, o sr. Mendes investiu: comprou as primeiras máquinas de costura, novas ferramentas e contratou mais gente. Chegou a ter 25 sapateiros a tempo inteiro na oficina. “Os tamancos eram o modelo que mais se vendia.”

Para aumentar a competitividade da equipa, o sr. Mendes criou uma técnica para saber qual o colaborador que produzia mais. “Nos rascunhos do meu avô, encontrámos os nomes dos trabalhadores com um código. Quem aumentasse a produção, ganhava mais. Já naquela época, ele tinha objetivos”, descobriu o neto, referindo-se também às cifras que eram usadas para manter a confidencialidade dos trabalhadores e não criar inimizades no dia-a-dia.

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Rodrigo Mendes (à esquerda) com o avô e o irmão, à porta da oficina, na aldeia de São Paio de Gramaços.

Com 12 anos, o filho, José Mendes, pai de Rodrigo, começou a passar mais dias na oficina do pai do que na escola. Passou a aprender a arte do ofício e a dedicar-se também ao negócio de família. “O meu pai manteve a produção do meu avô e continuou a vender nos mercados e feiras”, conta Rodrigo. Mas era preciso escalar o negócio, identificar fabricantes e novos fornecedores. Chegaram os anos 70 e com ele a instabilidade política do país. “Com o 25 de Abril o meu pai teve medo”, justifica.

José Mendes achou melhor não investir. Deixou a produção na fábrica e passou a fazer apenas o escoamento do stock nas feiras locais. “Os últimos pares produzidos na oficina foram na década de 80. Ficámos com dois empregados até à reforma”, descreve Rodrigo.

A família decidiu então abrir uma sapataria e apresentar outro tipo de calçado.” O modo de comprar era diferente e o meu pai decidiu apostar na loja de rua”, afirma. Abriram uma sapataria em Oliveira de Hospital e em Arganil, hoje gerida pelo irmão de Rodrigo. Mas mantiveram o nome do legado: Sapataria Mendes. “Toda a gente conhecia o meu avô e era preciso manter os clientes.”

Rodrigo estava longe. Mais concretamente em Aveiro no curso de Engenharia de Telecomunicações. “Achei o nome pomposo. Quando abri o jornal na área de emprego vi que havia muita procura. Tinha 17 anos.” Em 2004, entrou no grupo da Portugal Telecom para a área das telecomunicações móveis. Desenvolveu projetos de inovação e criatividade dentro da empresa. “Mas não tinha bases e fui estudar”, diz. Inscreveu-se numa pós-graduação em Branding e Gestão de Marcas, no IADE, em 2011.

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Rodrigo Mendes andou muito para chegar às Swain. © Henrique Casinhas / Observador

A ideia de ter um projeto próprio começou a ganhar mais força. Desde aquela tarde de outubro de 2012 na fábrica do avô até aos testes para a amostra final, passaram dois anos para Rodrigo chegar à versão da Swain. “Comecei a fazer testes com amigos e a apostar nas vendas na internet”, conta. Lançou sozinho uma campanha de crowdfunding, onde reuniu dois mil euros. Mas só em 2016 é que arrancou “a sério”, como diz. Fez contactos com bloggers, fotógrafos. Um amigo fez o site e outro o logótipo. Em troca, receberam um par de botas que custam, na loja online, 150 euros.

“Uma bota tradicional, antiga, que trouxe um estilo urbano à bota do campo”

O empreendedor apostou num modelo unissexo, que desse tanto “para homem como para mulher” e, assim, ter mais mercado e criar diferenciação. “Não queria uma bota com género”, explica. Registou ainda a marca nos Estados Unidos da América e no Japão. Teve quase duas semanas para perceber a importância da escolha de um nome. Pesquisou na internet e encontrou Graven. “Gostei, soava bem e mais ninguém tinha”, comenta. Depois pensou em criar sub-marcas e surgiu a Swain. Segundo Rodrigo, no Google a tradução da palavra aponta para “apaixonado, jovem camponês”. “É como a sinto: uma bota tradicional, antiga, que trouxe um estilo urbano à bota do campo.”

Em pouco tempo, começaram a surgir clientes na Nova Zelândia, México, EUA, Alemanha e Austrália. “Vendemos mais lá fora do que aqui”, diz, avançando que apenas 8% da faturação das Swain é em Portugal, os restantes 92% vêm de fora. “Só graças ao Facebook, Linkedin e Instagram”, refere. Mas já recebeu contactos para levar as Swain para outras paragens. “Um empresário francês comprou-as na ‘net’, gostou e agora quer pô-las à venda num retail em Paris.”

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As Swain em Los Angeles.

Rodrigo Mendes já perdeu a conta aos contactos de bloggers e motoqueiros a pedirem para divulgar o produto nas suas páginas. Até surgem pedidos peculiares. “Tivemos uma encomenda de um finlandês que adorava [as botas] e queria um par número 48. Estamos a trabalhar numa nova forma para conseguir satisfazê-lo”, diz, entre risos.

Nem a embalagem foi descurada. O empresário apostou numa caixa especial para o transporte do produto. “Umas botas desta qualidade não podem ir num embrulho normal”, justifica. Porquê? “Pela ligação à terra, ao avô Mendes e a preocupação com o ambiente.” Por isso, desenhou uma caixa de madeira a quem os clientes podem dar outra utilização. Há quem faça uma mini-horta, um guarda-livros ou um simples caixote na cozinha. “Se é um produto que tem um significado tão grande para mim, como poderia embalá-lo numa simples caixa de papelão que as pessoas deitam fora?”

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As botas vêm numa caixa de madeira a quem os clientes podem dar outro uso.

A ideia despertou interesse de publicações na área da sustentabilidade como a inhabitat. “Trouxe-me imensa visibilidade.” Já é a terceira grande encomenda que faz ao fabricante de Santa Maria da Feira e, nas duas últimas, foi obrigado a duplicar o número de botas produzidas. “Existe uma multidão de marcas e a verdade é que a Swain está a sobressair.”

Nos próximos tempos quer consolidar a marca e arranjar mais lojas “lá fora” para venderem o produto. Por isso, o maior bolo de investimento até agora foi para o registo da marca. “Gastei quase cinco mil euros”, diz. Mas não quer ficar por aqui.

A Graven pode criar outras versões da Swain, sempre com o conceito do unissexo, para que seja também mais rentável. “A marca não está fechada a novas categorias. “Quem sabe uns ténis casuais concorrentes da All Star, por exemplo”, atira. Mas sempre sob a alçada da Graven e o lobo, o símbolo da marca, o espírito rebelde do animal que não foi domesticado pelo homem e segue o seu caminho.

Quando contou à família que iria mergulhar neste negócio, não reagiram bem. “Ficaram com medo”, confessa. Até à data, o investimento chega aos 12 mil euros, só com capitais próprios. Mas Rodrigo não desistiu. ”Esta bota tem pormenores únicos, é a herança do meu avô. Quero proteger a história dela”, diz, concluindo que só falta realizar um sonho: “Regressar à aldeia e manter o projeto na oficina do meu avô.”

Nome: Graven
Data: 2016
Pontos de venda: Loja online e Ton-up Garage (Porto)
Preço: 155€

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