Os dois graus negativos que se fizeram sentir este domingo em Paris não justificavam o cenário encontrado no Gymnase Trévise: tudo forrado de branco, 15 modelos com o cabelo molhado e coberto de neve no centro da sala, maçãs do rosto encarnadas de frio e pedaços de gelo agarrados às sobrancelhas, como se tivessem acabado de enfrentar uma tempestade para chegar ao 9º arrondissement. Um salto aos bastidores explicava o panorama gelado: o efeito molhado foi conseguido com gel, as bochechas foram pintadas com blush e a neve simplesmente recortada em papel. Tudo para embarcar na viagem de Hugo Costa ao próximo outono-inverno, apresentada esta tarde na capital francesa.

Seis meses depois da estreia na Cidade-Luz, o designer português de 33 anos voltou à Semana de Moda Masculina de Paris, desta vez incluído no calendário oficial de apresentações da Federação Francesa de Moda, e novamente apoiado pelo Portugal Fashion. E voltou com uma coleção inspirada em Roadl Amundsen, explorador norueguês que liderou a primeira expedição a chegar ao Polo Sul, a 14 de dezembro de 1911, e foi o primeiro homem conhecido a atingir um glaciar. Se a neve não caiu na rua como na sala forrada de branco, é fácil pensar noutros paralelismos: apenas seis anos depois da estreia no Bloom, a plataforma dedicada aos novos talentos nacionais do Portugal Fashion, Hugo Costa fez uma verdadeira escalada e afirma-se como o primeiro e único português numa das principais semanas de moda masculina — a mesma onde apresentam, no calendário oficial de desfiles, grandes maisons como Dior, Kenzo e Balenciaga.

A sua expedição “amundseniana” a Paris, que é na verdade o concretizar de uma “vontade antiga de trabalhar com a paleta cromática dos glaciares”, como diz o designer ao Observador, não foi no entanto feita de passos rápidos mas sim de uma exposição prolongada. Em vez de um desfile de 10 minutos, a sua coleção foi apresentada numa performance de três horas onde os modelos foram convidados a ocupar o campo de basquetebol do ginásio parisiense — todo ele forrado com papel craft, “o mesmo que era usado para fazer as embalagens nas primeiras expedições” — até subirem a 15 cubos brancos enrolados em cordas. Nesses cumes improvisados, e com uma banda sonora também ela “glaciar e cristalina”, os manequins pareciam semi-congelados mas mexiam-se. O mesmo acontecia com a audiência, que assim podia não só ver as roupas em pormenor mas também conversar, tirar fotografias, fazer vídeos e beber um copo de vinho do Porto, oferecido em bandejas, para aquecer.

Foto Ugo Camera

O designer no final da performance, no meio de algumas das suas propostas para o outono-inverno 2017/18. (Foto: Ugo Camera)

Nas roupas, nova viagem: primeiro cromática, dos cinzas ao branco, com um inesperado azul-petróleo a transformar-se em azul-água à medida que os coordenados iam entrando na sala, depois da matéria-prima, com as tradicionais fazendas e sarjas a ganharem, por vezes, um tratamento especial. “Associamos muito este tipo de vestuário aos tecidos técnicos, por ser um vestuário onde se exige mais proteção, mas nós não queríamos usá-los, não é a nossa identidade”, diz Hugo Costa, usando sempre o plural para frisar que não trabalha sozinho, tem “uma equipa”. “Aquilo que as pessoas poderão identificar, nesta coleção, como materiais técnicos, são na verdade bases clássicas que tiveram um acabamento diferente e foram revestidas com uma membrana PU [poliuretano] que lhes dá um ar meio congelado, mais hirto”, explica o criador.

Nos impermeáveis mas não só, nesta coleção Hugo Costa reforça as silhuetas oversized de outras estações em sobretudos compridos, sobreposições — aquilo a que chama “overcoat” — e faixas a servirem de cintos ou a penderem das mangas dos conjuntos que apresentou. Com uma estreia: os primeiros macacões que desenhou enquanto marca. “Quando vemos imagens dos exploradores do início do século passado, temos quase um bloco de cor, um look total. A partir do momento em que as fotografias são a preto e branco e não têm a melhor qualidade do mundo, não se percebe se aquilo que eles usam é um fato, se é um jumpsuit“, diz o designer. E analisando também um pouco o vestuário de um explorador hoje, continua a haver uma imagem global e o jumpsuit continua a ser uma peça fundamental para proteção, e continua a estar associado ao trabalho.”

Com um estúdio-atelier em São João da Madeira, uma loja online “quase pronta” e clientes de retalho em Portugal, Suíça, China, Tailândia e Taiwan, Hugo Costa quer continuar a sua escalada e “crescer de forma consistente”. “Eu não quero ser um episódio mas sim uma série completa. Não quero estar só um dia em Paris, quero acontecer aqui, quero ter um showroom aqui, e fazer mais apresentações”, diz.

Roald Amundsen desapareceu em 1928, 16 anos depois de ter chegado ao Polo Sul e já depois de ter sobrevoado o Polo Norte. No que depender de Hugo Costa, o mundo da moda não o verá desaparecer tão cedo.

O Observador viajou para Paris a convite do Portugal Fashion.