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Super Bowl

Lady Gaga: afrontar Trump com as palavras de sempre

Um exército de drones, críticas subtis a Trump e uma camaleónica cantora 'pop' mais discreta do que o costume. A atuação de Lady Gaga foi feita para agradar até aos que lhe torcem o nariz.

Getty Images

Não há nenhuma moderação, ultimamente adotada pela artista norte-americana, que lhe apague o jeito flamboyant em palco. Desta vez não houve vestidos feitos de carne, mas sim um grande aparato pirotécnico e uma legião de bailarinos, como não é invulgar encontrar nos espetáculos da artista. E quem esperava ansiosamente pelo intervalo do Super Bowl para ouvir Lady Gaga a fazer críticas cortantes a Donald Trump pode ter saído desiludido do NRG Stadium, em Houston (Texas). Ela fê-las ainda assim, mas deixou a música falar por si. A introdução da sua atuação foi suficiente para que Gaga levantasse a voz de modo menos polémico do que habituou o público. É que, embora as suas palavras possam ser interpretadas como uma afronta às políticas do presidente norte-americano, também são simplesmente tudo o que a cantora sempre defendeu ao longo da sua carreira musical.

Os drones usados na atuação de Lady Gaga têm 31 centímetros quadrados, pesam 227 gramas e são feitos de plástico protegido com uma espuma, que funciona como um “airbag” em caso de acidente. Todos juntos fizeram 4 mil milhões de combinações de cores criadas por luzes LED e os seus movimentos foram controlados à distância, através de uma codificação que prevê a sua localização GPS, o nível de bateria do drone e a acrobacia previsto para esse drone. Se um falhar, é substituído em segundos por outro drone.

Tudo começou com um vídeo introdutório com Tony Bennett, com quem Lady Gaga já fez alguns duetos. Foi então que a cantora surgiu em cima de um pedestal protegida por uns quantos fios que a permitiam baloiçar no ar e fazer umas piruetas pouco confortáveis para espectadores com vertigens. Atrás dela, um exército de 300 drones “Shooting Star” iluminados de branco, azul e vermelho compunham no céu a bandeira da Velha Glória. Num fato cravado de pedras reluzentes prateado, a artista de 30 anos falou de uma América para todos: “Esta é a tua terra. Esta é a minha terra, de Califórnia até à ilha de Nova Iorque, da floresta da madeira vermelha até às águas de Gulf Stream. Esta terra foi feita para ti e para mim”. A ideia de uma América partilhada foi repetida ao longo de todo o discurso, que tinha até uma referência ao muro que Donald Trump quer acabar de construir entre os Estados Unidos e o México. Lady Gaga conseguiu, ainda assim, ser discreta ao tocar nesse assunto: “Enquanto andava vi um sinal. E o sinal dizia: Não Passar. Mas no noutro lado não dizia nada. Esse lado foi feito para mim e para ti”.

Mas não, estas frases não foram escritas por Lady Gaga. De acordo com Arlo Guthrie, filho do cantor de folk norte-americano Woody Guthrie, o poema citado pela cantora foi escrito pelo pai numa resposta ao poema “God Bless America”, escrito pelo compositor Irving Berlin, inimigo confesso de Woody. Na sua versão original, o poema é mais agressivo do que costuma ser citado. Lady Gaga escolheu essa versão mais suave onde, garante Arlo, não sobressai de forma tão vincada a raiva com que o pai compôs o poema. Mas bastou.

Quando Lady Gaga foi anunciada como artista convidada para o famoso “halftime” do Super Bowl, questionada sobre se iria aproveitar a ocasião para tecer críticas a Donald Trump, a cantora respondeu: “As únicas declarações que vou fazer durante o espetáculo no intervalo são as que eu tenho feito consistentemente durante a minha carreira. Eu acredito na paixão pela inclusão, acredito no espírito de igualdade”. disse Gaga. E acrescentou: “o meu desempenho vai sustentar essas filosofias”.

E bastou, porque o reportório de Lady Gaga é já por si bastante desafiador das políticas instituídas pelo novo presidente norte-americano. A cantora fez uma viagem ao passado e escolheu as músicas mais famosas da sua carreira para marcar o intervalo do Super Bowl. A lista inclui os sucessos “Poker Face”, “Born This Way”, “Telephone”, “Just Dance”, “Million Reasons” e “Bad Romance”. Ora, a segunda música interpretada pela artista é suficientemente elucidativa do posicionamento liberal, pouco trumpista, de Lady Gaga. Basta olhar para a letra, que pode ser lida como uma referência às orientações sexuais e identidades de género: “Não te escondas em arrependimento, apenas ama-te e estás pronto. Eu estou no caminho certo, querido: eu nasci assim”.

No meio de todas estas declarações, o espetáculo de Lady Gaga fez-se essencialmente de uma coisa: saltos. Constantemente presa por dois fios de metal que a mantinham suspensa no palco, a artista norte-americana parecia alada na atuação preparada para o Super Bowl. E parecia angelical quando susteve a respiração do público a cantar “Million Reasons”, uma das suas baladas. A rebeldia que entra na genética da cantora parecia substituída por uma serenidade que se abateu no estádio quando se sentou ao piano apenas iluminada por um foco de luz e por velas acesas em seu redor, chegando até a cumprimentar os pais, que estavam na bancada. Foi o momento romântico da noite, mesmo antes de “Bad Romance” quase no final de uma das atuações mais esperadas do ano. E como acabou o concerto? Com um “mic drop”: Lady Gaga largou o microfone, ciente de que não desiludiu os fãs que a preferem polémica nem envergonhou os mais comedidos. Depois voltou a saltar, desta vez para o abismo.

Mas esta não foi a primeira vez que Lady Gaga fez as honras no Super Bowl: o ano passado, foi ela quem cantou o hino nacional norte-americano. Este ano, esse papel coube ao cantor Luke Bryan, que fez História no evento. É que o autor de “Someone Else Calling You Baby” tornou-se o primeiro homem em dez anos a cantar o “The Star-Spangled Banner” (em português, A Bandeira Estrelada): o último tinha sido Billy Joel. Pode ver a atuação do cantor de country – género musical que não costuma subir ao palco do Super Bowl – aqui em baixo.

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