“Ninguém passa pelo Lousal, é preciso vir cá de propósito”, dizem-nos assim que chegamos ao centro Ciência Viva que ocupa o edifício que em tempos serviu de apoio técnico e científico à Mina do Lousal, extinta em 1988. O céu está limpo e o sol brilha lá no alto nesta segunda-feira, 6 de fevereiro, quando um grupo de jornalistas alcança a pequena aldeia mineira para ficar a conhecer o novo programa de turismo da Ciência Viva e da Fundação Vodafone, que pretende levar todos os curiosos a conhecer Portugal.

Na prática, o projeto consiste num cartão anual — cuja compra inclui um extenso guia e o acesso indiscriminado aos conteúdos de uma aplicação disponível em iOS e Android — que permite a entrada nos 20 centros Ciência Viva espalhados pelo território nacional, bem como descontos em cerca de 100 espaços de ciência e cultura. A ideia é conhecer o que de melhor o país tem para oferecer, pelo que o programa permite explorar — de guia ou de telefone na mão — 18 circuitos, 54 percursos e mais de 200 etapas. Circuitos como o do Lousal, que começa no Centro Ciência Viva – Mina de Ciência e que termina no interior da terra, entre cristais de diferentes minerais.

O Centro Ciência Viva – Mina de Lousal ocupa o edifício que em tempos serviu de apoio técnico e científico à Mina do Lousal. © Divulgação

A visita ao centro, inaugurado em 2010, começa no interior de uma réplica da galeria da mina do Lousal, da qual se extraiu pirite durante décadas, um composto de enxofre e ferro também conhecido como “ouro dos tolos” devido ao seu brilho metálico de cor dourada. Ao percorrer a falsa galeria ouve-se o som de picaretas e veem-se imagens reais de quem passou uma vida debaixo do solo. A homenagem é clara e o aproveitamento do edifício também: entre as diversas salas com experiências de âmbito científico está o antigo balneário dos mineiros, onde estes tomavam um merecido banho depois de um dia intenso de trabalho subterrâneo. O balneário foi transformado na exposição “Banho de Ciência”, sendo que os chuveiros permanecem intactos: deles já não jorra água, antes conhecimento.

O Museu Mineiro do Lousal, vizinho do centro Ciência Viva, também tem que se lhe diga. Durante a visita a esta antiga central elétrica contam-nos que a aldeia foi eletrificada antes da Baixa de Lisboa e que cada mineiro tinha direito a uma lâmpada e a uma hora de eletricidade por dia. Geradores de enormes dimensões, ferramentas utilizadas na mina e fotografias de quem um dia as carregou fazem parte do mostruário do espaço, mas talvez a peça mais simbólica seja o relógio situado junto à entrada: está parado no tempo e assinala a hora, o minuto e o segundo em que o último motor deixou de trabalhar; a hora exata em que a mina parou de funcionar.

No restaurante Armazém Central servem-se pratos típicos alentejanos. © Ana Cristina Marques/Observador

Parece estranho pensar que não há muito tempo esta foi uma aldeia mineira com tudo aquilo a que tinha direito — igreja, mercado, hospital e até maternidade. A arquitetura do local reflete a hierarquia social e exemplo disso é a escola — hoje convertida num hotel de quatro estrelas –, o único edifício que podia ter dois andares. Também o antigo armazém de explosivos da mina foi transformado, sendo hoje um restaurante — o Armazém Central — onde se come bem, muito bem, durante uma ou duas horas.

Atualmente já não se explora pirite no Lousal mas sim conhecimento, seja através módulos científicos auto-sustentados ou de objetos inanimados que contam histórias passadas. Mas o verdadeiro ex-líbris é mesmo a mina em si, acedida através de um conjunto de passadiços de madeira rodeados por uma paisagem árida, mas também por duas lagoas de águas ácidas — uma avermelhada e outra esverdeada. Adiante está a única galeria visitável de uma mina que vai até uma profundidade de 500 metros.

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À entrada da galeria dão-nos chapas de plástico, tal como as de metal que eram entregues aos mineiros antes de eles descerem até às profundezas da terra — era este um mecanismo de segurança para perceber quem é que estava ou não no interior da mina. E entre corredores escuros e revestidos por uma estrutura de madeira estão paióis de dinamite. Diz quem sabe que durante a guerra civil espanhola, entre 1936 e 1939, a mina foi assaltada mais do que uma vez.

O circuito do Lousal é um dos muitos que se podem fazer a partir da rede de centros Ciência Viva, cuja missão parece ser, por estes dias, metê-lo a percorrer Portugal de norte a sul.

O cartão referido custa 50€ e é válido para dois adultos ou um casal com filhos até aos 17 anos.