Não foi esquecimento da produção nem lapso do criador: este domingo, todas as peças de Dino Alves desfilaram com a etiqueta pendurada, minutos antes de o próprio designer pisar a passerelle com uma t-shirt a dizer “buy me”. Através das roupas mas também de duas convidadas veteranas do humor, houve um grande recado na coleção apresentada este domingo na ModaLisboa: comprem-me, escrevam sobre o meu desfile, não me peçam apenas convites e roupas emprestadas.

Rewind até às 20h30, uma hora de atraso e a Garagem Sul do Centro Cultural de Belém cheia de convidados e imprensa nas bancadas improvisadas, à espera de ver a coleção de Dino Alves para o próximo outono-inverno, intitulada “Manual de Instruções”. As luzes apagam-se, como antes de cada desfile, mas em vez de focos apontados para iluminar os primeiros coordenados, um conjunto de figurantes entra no recinto ainda às escuras com porta-fatos a taparem a cara e o tronco. Seguem-se dois palanques e duas convidadas-surpresa: Ana Bola e Maria Rueff, que dizem rapidamente ao que vêm quando saúdam, no microfone, “boa noite caros clientes”.

“Informamos que os desfiles decorrem na passerelle“, “o desfile demorará cerca de 13 minutos, provavelmente menos tempo do que o público demorou a entrar e a sentar-se” ou “chegámos à conclusão que atualmente se vende apenas 25% da coleção, por isso decidimos fazer apenas 25% das peças” foram algumas das farpas lançadas em jeito de humor perante uma sala que se r(ev)iu e aplaudiu. “Todas as peças estão à venda”, lembraram as porta-vozes. “Pensamos que assim está respondida a pergunta ‘mas quem é que vai vestir isto?’ que fazem ao criador há 16 anos, três meses e 12 dias.”

As provocações continuaram nas peças apresentadas com etiquetas, sobretudo nas t-shirts coordenadas com bonés da Chapelaria D’Aquino ou calças em vichy, e onde se lia “dress me”, “try me”, “love Dior” ou “prefer Chanel”. Mas também na quase ausência de acabamentos, resolvida com nós ou efeitos de patchwork, numa espécie de “faça você mesmo” que, regressando a Ana Bola e Maria Rueff, serviu “para verem o que isto custa”.

Peças unidas por nós e com a etiqueta pendurada, uma parte do “Manual de Instruções” de Dino Alves. © Rui Vasco

Críticas digeridas e tensão liberta, sobretudo depois de Lili Caneças desfilar para o “Diamante Africano” de Nadir Tati enquanto distribuía beijinhos pela assistência, coube a Nuno Gama fechar a noite — e a 48ª edição da ModaLisboa — com uma “profecia” que, nas palavras do designer, ganhou também contornos de “procissão”.

Desta vez inspirado no “lado oculto dos painéis de São Vicente de Fora”, o criador que tem demonstrado um longo namoro com o passado português quis tentar construir “um hemisfério masculino” a partir daquilo que acha que é o conteúdo da pintura: “uma lenda maravilhosa que diz que somos abençoados por Deus”. Uma lenda, já agora, em que o próprio Nuno Gama acredita, tal como confidenciou nos bastidores: “Eu acho que a minha comida é a melhor comida do mundo, acho que o meu clima é um dos melhores, acho que as minhas praias são maravilhosas, acho que somos abençoados de alguma forma e acho que quando queremos somos extremamente poderosos a fazer as coisas bem feitas.”

Para transmitir esse poder, Nuno Gama imprimiu riscas diagonais nas mangas dos seus casacos e t-shirts desportivas, “para enaltecer o dorso”, bordou a palavra “proteção” nas costas dos casacos, pôs as cinco quinas das bandeiras nos bolsos dos calções e fez alguns modelos desfilarem com os cabelos, as barbas e até as sobrancelhas pintadas de dourado, quais anjos e guardiões de um Deus que inaugurou a passerelle sentado no chão com enormes candeeiros acesos.

Muito antes de o desfile de Nuno Gama começar, já o seu Deus esperava os convidados. Um Deus múltiplo, nas palavras do designer, como os candeeiros que lhe saíam dos braços. © André Marques/Observador

“A força motora desta coleção acaba por ser a nossa parte espiritual”, resume o designer. “Não é a força de carregar no botão ou de carregar malas, é a força que temos dentro de nós.”

Antes de Nuno Gama convocar os deuses e Dino Alves disparar aos consumidores, a tarde começou com a plataforma LAB, dedicada às micromarcas. Primeiro com Patrick de Pádua e os seus casacos militares para um homem que vai à luta mas não se esquece da proteção dos santos (estampados em camisolas), depois com Duarte, nome masculino que na verdade pertence a uma criadora, Ana Duarte, e que para o próximo outono/inverno pegou no conceito de sportswear luxury para apresentar uma coleção com casacões preparados para as montanhas, intitulada “Nevada”.

Depois do espírito boho de Christophe Sauvat, uma mescla de influências russas (nas peças de pelo), da costa de Los Angeles (nas túnicas) e de Portugal (nas cestas de junto e nas malhas), Valentim Quaresma fez levantar as máquinas fotográficas dos smartphones com as suas joias sempre vanguardistas, numa viagem entre a época vitoriana e o punk — do dourado ao cabedal — onde reciclou vários materiais, incluindo fotografias antigas e folhas de raio-x.

Valentim Quaresma recuou até à época vitoriana e incluiu fotografias antigas em algumas das suas joias. © Rui Vasco

Recém-chegada ao Centro Cultural de Belém, a ModaLisboa já fez saber que não irá aquecer o lugar no CCB e regressa em outubro com uma nova casa: o Pavilhão Carlos Lopes, recentemente reaberto e renovado.