A escolha de José Júlio Pereira Gomes para o cargo de secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SG-SIRP) está a provocar “apreensão” dentro do organismo. Ao Observador, fontes conhecedoras da realidade interna dos serviços antecipam um “futuro negro” ao embaixador, pelo perfil “incompatível” com o tipo de liderança que as “secretas” desejam.

Os episódios que têm vindo a ser divulgados nos últimos dias deixaram vários elementos dos Serviços de Informações apreensivos quanto à escolha do gabinete do primeiro-ministro para o cargo de responsável máximo das secretas. O primeiro testemunho foi dado por Ana Gomes, em declarações ao Diário de Notícias. A eurodeputada socialista, que se cruzou com Pereira Gomes em 1999, aquando do referendo à independência de Timor-leste, disse que ao até agora embaixador de Portugal em Estocolmo “falta o perfil psicológico” adequado para as funções. A eurodeputada socialista pôs ainda em causa a “capacidade” de Pereira Gomes “para aguentar situações de grande pressão”, com as consequências internas que isso poderá ter: uma falta de “confiança” dos “espiões” portugueses em relação ao futuro líder do SIRP.

No mesmo dia, num artigo de opinião no jornal Público, o jornalista Luciano Alvarez acusava Pereira Gomes de “mentir” sobre a forma como a missão portuguesa deixou o território timorense (houve, nesse período, posições opostas quanto à decisão de continuar em Timor ou deixar o país ainda antes da chegada da missão das Nações Unidas). O embaixador, diz Luciano Alvarez, “mentiu” quando contestou as declarações de Ana Gomes, “sabendo que há várias testemunhas que podem desdizer as suas palavras”. Entre as quais o jornalista, que estava em Timor naquele período.

Também José Vegar acompanhou o referendo no terreno, como jornalista. No Observador, Vegar recorda alguns episódios que viveu naqueles meses para sustentar a ideia de que Pereira Gomes é “o diplomata errado para a cúpula secreta”. E, na mesma linha de Ana Gomes, explica porquê. “O diplomata cedeu mentalmente à pressão dos cargos que exerceu, e no caso de Timor ao contexto de segurança existente naqueles meses de 1999, e o pânico paranoico em que se encerrou determinou as suas decisões e atos”, pondo em “risco vidas” e prejudicando o “desejo do povo timorense”.

Parlamento coloca pressão sobre Costa

Pereira Gomes deverá, em breve, ser chamado à Assembleia da República para uma audição parlamentar conjunta entre os deputados da comissão de Assuntos Constitucionais e os deputados da comissão de Defesa. É um procedimento previsto por lei, que acontece sempre que novos responsáveis das “secretas” se preparam para assumir funções”, mas desta vez a audição pode ter outros contornos.

O PSD, que validou a escolha do embaixador em Estocolmo para a liderança do SIRP, diz ao Observador que tem vindo a “registar essas notícias” sobre Pereira Gomes, reconhecendo que “o assunto está a ganhar dimensão”. Consequências práticas? Os sociais-democratas não abrem, para já, o jogo. Mas é preciso recordar que o nome da deputada Teresa Morais, ex-secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares, está em cima da mesa para liderar o conselho de fiscalização das “secretas” (CFSIRP), depois de o PS ter deixado claro que não subscreveria o nome da vice-presidente da social-democrata para o lugar. Os sociais-democratas reafirmaram a sua opção (a votação está agendada para 7 de junho) e, com isso, criaram um braço de ferro com o PS que pode agora ser importante para determinar a posição que o PSD venha a tomar sobre a escolha de Pereira Gomes.

Ainda sem data marcada para a audição do embaixador no Parlamento (local que Marcelo considera decisivo para legitimar a escolha), há quem defenda que, ainda antes dessa fase, o Governo deve reponderar a sua escolha. Ao Público, António Costa mantinha, esta sexta-feira, uma posição firme: “A proposta de indigitação fala pela confiança que tenho no embaixador José Júlio Pereira Gomes para o desempenho das funções para que agora é proposto”. Mas, na abertura das jornadas parlamentares, a líder do Bloco de Esquerda (partido que, tal como o PCP, não foi consultado neste processo) pedia que, face à “gravidade” daquilo que tem vindo a ser tornado público, o primeiro-ministro possa voltar atrás.

O “futuro negro” nos serviços

Oficialmente, os serviços de informações estão em silêncio. Até à entrada em funções de Pereira Gomes, impera a discrição. Mas, ao Observador, diferentes fontes com conhecimento aprofundado da realidade interna do SIRP e que pedem para não ser identificadas dizem que se sente uma “apreensão generalizada” quanto àquilo que o embaixador pode representar para imagem da instituição.

Uma das fontes considera que Pereira Gomes “já entra coxo, bastante coxo“, no SIRP. O low profile que internamente se espera de quem lidera as “secretas” foi abalado pelas várias posições vindas a público nos últimos dias. E esse é apenas o aspeto menos grave nas reservas de quem vive os serviços de informações por dentro. O grande problema é que “o perfil e a autoridade” do futuro líder do SIRP — nome que terá merecido a validação de António Vitorino, segundo o Observador apurou — “estão francamente abalados”, e isso “é altamente preocupante”, diz uma das fontes.

José Vegar, autor do livro Serviços Secretos Portugueses — História e Poder da Espionagem Nacional e que acompanha há décadas o trabalho das “secretas”, considera mesmo que Pereira Gomes tem um “problema de personalidade que não é compatível com o cargo de secretário-geral do SIRP“.

O jornalista diz que, “quando é nomeada uma pessoa destas, há uma reação de desagrado e de frustração” no serviços porque, “logo à partida, tem uma fragilidade que será explorada“. As “secretas”, diz Vegar, procuram, por um lado, ter “uma chefia que revele uma cultura de exigência e conhecimento” sobre o trabalho destes serviços. Por outro lado, é importante que “a opinião pública e institucional tenham a imagem de que os responsáveis do SIRP são pessoas a toda a prova, e isso não acontece com o diplomata Pereira Gomes”.

O passado de Pereira Gomes

A história de José Vegar com Pereira Gomes é mais longa que a de Luciano Alvarez ou de Ana Gomes. Começa alguns anos antes dos episódios de Timor, num momento em que o agora embaixador assumia a secretaria de Estado da Defesa, sob comando do ministro António Vitorino.

Em meados da década de 1990, o jornalista acompanhava os assuntos da Defesa Nacional. E um dos primeiros choques de frente com o então secretário de Estado aconteceu quando Vegar confrontou o ministério com as verbas que constariam do Orçamento do Estado para os militares, no ano seguinte, e que ficavam aquém daquilo que as chefias dos três ramos tinham defendido. “Contactei o Ministério da Defesa e houve logo uma grande perturbação, com contactos telefónicos fora da norma profissional, desagradáveis, com várias tentativas de manipulação dos números” por parte de Pereira Gomes.

A peça foi publicada e, dias depois, jornalistas e governante cruzaram-se em Sintra, numa conferência sobre geoestratégia. “Você está ao serviço dos generais”, acusou o secretário de Estado. “Eu disse-lhe que já tinha tido confrontos mais violentos com titulares da Defesa e que nunca me tinham dito isso e acrescentei que o secretário de Estado não era capaz de lidar com a pressão do cargo”.

A partir desse momento, Pereira Gomes terá dado ordens no ministério para que não houvesse qualquer contacto com Vegar. Mas o jornalista já acompanha a área há longos anos, tendo criado relações de confiança com vários elementos dos gabinetes. “Os diretores-gerais e os chefes de gabinete tinham uma longa relação comigo”, recorda. Resultado: “Falavam comigo à revelia do secretário de Estado”.

Anos depois, os dois voltam a encontrar-se em Timor. Na missão portuguesa de acompanhamento do referendo de Timor para a independência estavam várias pessoas com quem Vegar se relacionava, profissional e pessoalmente, há vários anos. Quando chegou ao país, o jornalista começou uma série de contactos — com elementos da ONU, partidos timorenses, padres jesuítas, o próprio embaixador indonésio — que pudessem servir-lhe para obter informações sobre a evolução do clima político e social no país, num momento particularmente sensível.

Logo nessa fase inicial, Vegar recebe a indicação por várias fontes de que Pereira Gomes (chefe da missão de observação portuguesa) tinha voltado a proibir qualquer contacto consigo. Inclusive contactos pessoais. “Dois anos depois daquela notícia, Pereira Gomes continuava a entender uma questão profissional como sendo pessoal, há aqui uma obsessão qualquer”, entende o jornalista.

É nesse registo que se vai aproximando a semana do referendo. Pelo caminho, Vegar vai testemunhando “vários episódios” que o fazem acreditar numa “obsessão paranóica” de Pereira Gomes, “causada pelo medo permanente” que revelava. “Numa tarde em que não se passava nada de grave, numa rua do centro de Díli, Pereira Gomes e outros elementos da missão estavam num carro e eu noutro; estávamos a descer uma rua quando o carro deles fez uma movimentação brusca e virou para trás”. Vegar tentou saber o que se passava e questionou, mais tarde, um dos portugueses que iam no carro do chefe de missão sobre o episódio. “O José Júlio viu um ajuntamento e não quis arriscar”, disseram-lhe. O ajuntamento era, na verdade, o mercado local.

30 de agosto de 1999. Os timorenses decidem o seu futuro no referendo (escolhendo a independência em relação à Indonésia) e o país entra em convulsão. Há casas a ser queimadas, perseguições. “Toda a gente, entre elementos da ONU e missão portuguesa, quando começa violência, fica em choque, ninguém estava preparado para lidar com aquilo”, recorda Vegar, um dos elementos do grupo que mais experiência tinha em cenários de conflito.

Muitos manifestam intenção de voltar imediatamente para Lisboa. Vegar (jornalista do Expresso), Luciano Alvarez (do Público) e Hernâni Carvalho (RTP) queriam ficar. Estiveram todos juntos — jornalistas, membros da missão, militares — numa sala comunal, fechados, durante vários dias, na sede da UNAMET (United Nations Mission in East Timor), no período que antecedeu o regresso da missão a Lisboa. Foi aí que Pereira Gomes e [o embaixador] António Gamito colapsaram totalmente“, recorda Vegar. “Passavam o dia na cama, não tomavam quaisquer decisões”, conta, fazendo uma ressalva:

O meu problema não é que tenham colapsado, é que não tenham dado conta disso a Lisboa, do facto de que não tinham condições para liderar.”

O jornalista recorda um episódio que ilustra essa incapacidade. “Na sede da UNAMET, não havia comida e água para tanta gente”. As instalações estavam desenhadas para 400 pessoas, mas naquela fase haveria cerca de dez vezes mais que isso, com todos os timorenses que tinham trabalhado com a missão, familiares e amigos a procurar refúgio no quartel. “Na nossa sala”, continua Vegar, “havia uma garrafa de água e eu bebi. Nesse momento, disseram-me para não beber dali, porque a água era do Pereira Gomes, mas, ainda assim, eu bebi. Só que comecei a sentir-me entorpecido”. Dirigiu-se ao médico, dando-lhe conta de que não estava em boas condições. “Ele respondeu-me: ‘Tenho a garrafa cheia de comprimidos para o Pereira Gomes e o Gamito se acalmarem porque eles não estão nada bem”. O chefe de missão e o embaixador estariam sob o efeito de calmantes, garante Vegar.

É nesse registo que, dias depois, se dá o confronto entre Ana Gomes, embaixadora em Jacarta, e Pereira Gomes, já relatado por Luciano Alvarez. O chefe de missão terá decidido o regresso a Portugal contrariando a vontade do próprio Governo português. Ao Público, o homem escolhido para liderar as “secretas” dá outra versão. Garante que recebeu instruções “ao mais alto nível do Estado Português” e cita um telegrama do Ministério dos Negócios Estrangeiros para Nova Iorque e Jacarta a 8 de setembro, dia anterior à partida da missão: “Face iminência nossa Missão Observadores ser obrigada retirar Díli, quadro mais global evacuação UNAMET, muito agradeceríamos V. Ex.ª assegurasse com maior urgência junto essas autoridades que funcionários locais por nós contratados serão também autorizados a sair. Segundo dados transmitidos esta manhã por Dr. Pereira Gomes, haverá 24 pessoas nessa situação, tendo seus nomes sido já comunicados a Chefe UNAMET. Ian Martin terá garantido que os incluirá plano evacuação, tendo porém solicitado estas diligências” (sic)”.

Pressões, mentiras, falta de perfil: um erro de casting?

Quando leu a notícia da nomeação de Pereira Gomes pela primeira vez, José Vegar pensou: “É um engano.” Não era. E foi isso que levou o jornalista a pensar como seria possível que, com o historial testemunhado agora por Ana Gomes e Luciano Alvarez, a que Vegar se veio juntar, o gabinete do primeiro-ministro tivesse optado por esta escolha.

“Não consigo entender como é que um processo normal de escolha do secretário-geral do SIRP que implica um veting, uma análise cuidadosa, possibilita esta nomeação”. Porque “não passa pela cabeça de ninguém responsável e com maturidade política que a nomeação de Pereira Gomes não provocaria a reação que provocou”.

O jornalista levanta outra questão: “Estes episódios não foram vistos ou presenciados por uma pessoa, foram por 25, entre políticos, diplomatas, polícias, jornalistas, portanto, só posso ligar a resposta positiva de Pereira Gomes ao convite a alguma arrogância ou a questões do foro psicológico”.

[Correção: o nome de Teresa Morais ainda não foi votado; a vice-presidente do PSD não mereceu o aval do PS para a direção do Conselho de Fiscalização das “secretas”, o que não impediu o social-democratas de propor o seu nome para a votação que se realiza na próxima semana.]