Paterson é uma cidade do estado americano de New Jersey, com cerca de 145 mil habitantes. É o título de um longuíssimo poema de William Carlos Williams, influenciado por Ulisses, de James Joyce, e uma resposta a The Waste Land, de T.S. Eliot, publicado em cinco volumes, entre 1946 e 1958, escrito enquanto o autor, que era médico pediatra, estava colocado no hospital de Passaic, mesmo ali ao pé de Paterson. E Paterson é também o nome do protagonista do filme homónimo de Jim Jarmusch, placidamente interpretado por Adam Driver com o seu ar equino e pachola. Paterson é condutor de autocarros, tem uma mulher iraniana carinhosa e hiperactiva, Laura, que quer ser cantora “country” e pinta círculos em tudo, da roupa aos “muffins”, tem um buldogue, Marvin, que só obedece à mulher, e escreve poesia, que só mostra a Laura. O seu poeta preferido, tal como o da mulher, é Williams Carlos Williams. Isto está mesmo tudo ligado, como diria o outro.

[Veja o “trailer” de “Paterson”]

A história desenrola-se ao longo de uma semana na vida de Paterson, seguindo as suas rotinas diárias, com uma ou outra fuga ao habitual ou acontecimento inesperado. Jarmusch gosta de dar tempo ao tempo, e este é um daqueles filmes sem pressas, em que se sente o tempo passar, enquanto Paterson sai de casa, guia o autocarro, volta para casa, janta com a mulher e vai dar uma volta com o buldogue e beber uma cerveja no bar do bairro. E escreve os seus poemas, à mão, com um lápis, e sem fazer cópias, apesar dos repetidos avisos da mulher. Paterson não tem telemóvel (quando um dia o seu autocarro pifa, tem que pedir um emprestado a um passageiro para comunicar a avaria). Aliás, em “Paterson”, ninguém passa horas ao computador nas redes sociais, nem a devorar séries de televisão. Nem há cenas de sexo, porque Jarmusch não se sente à vontade com o assunto e evita filmá-las sempre que pode.

[Veja uma entrevista com Jim Jarmusch]

É como se o filme se ambientasse numa América alternativa, uma utopia pacata, de felicidade rotineira “low, low tech” e sem gente má, onde as pessoas ainda falam umas com as outras nos bares, nas lavandarias e nos autocarros, em vez de estarem com as caras enfiadas nos Smartphones. Até mesmo quando Paterson e a mulher quebram a rotina no fim-de-semana e decidem ir ao cinema, não vão ver um filme de super-heróis ou uma comédia de adolescentes estúpida, mas sim uma velha fita a preto e branco, “A Ilha das Almas Selvagens”, de Earl C. Kenton, a primeira adaptação ao cinema de “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells. “Paterson” é uma comédia “cool” e “zen” como só Jim Jarnusch as sabe fazer, anti-“slapstick” e casual, subtilmente poética e excêntrica (ver as rimas visuais em casa de Paterson ou os gémeos que povoam o filme) e com “gags” de pavio tão longo como o poema de Williams Carlos Williams que dá nome ao filme e à personagem.

[Veja uma entrevista com o realizador e os actores em Cannes]

E depois, há a poesia que Paterson escreve (da autoria do poeta Ron Padgett, grande amigo do realizador, e que fez três poemas expressamente para o filme), tão quotidiana como a sua vida e o filme, imediata, despretensiosa e transparente, também ela “zen”. É que Paterson não só não tem quaisquer angústias ou fúrias criativas, como também não escreve com a ambição ardente de ser publicado, reconhecido e ganhar prémios. “Paterson” vai frontalmente contra todos os “clichés” da representação dos poetas e da escrita poética no cinema, porque Jim Jarmusch quer desdramatizar e desromantizar o acto da criação poética, e trazê-lo para o quotidiano mais prosaico e tangível. Sim, a poesia tem muita importância na vida de Paterson, mas ele encara-a com naturalidade, sem dramas nem estados de alma.

[Ouça os poemas de “Paterson”]

https://youtu.be/3FkiJLDaV8M

E quando um acidente doméstico com o cão Marvin provoca o único grande baque do filme e vem dar razão a Laura (interpretada pela encantadora Golshifteh Farahani) o universo, na pessoa de um turista japonês também apreciador de Williams Carlos Williams e de visita à cidade, encarrega-se de o ajudar a começar a recompor-se do abalo. Tudo muito “cool”, tudo muito zen, tudo delicada, empatica e soberbamente jarmuschiano. Será ainda preciso dizer que “Paterson” é um dos melhores filmes do ano?