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“Este foi o meu último combate e escolhi o parceiro certo para dançar”

No final do combate, Floyd Mayweather e Conor McGregor, aqueles dois excêntricos que andaram meses e meses a fio nas provocações e nas ofensas, abraçaram-se. Acabou a novela, vai começar uma nova etapa (sem o americano no boxe e com o irlandês de regresso ao UFC), ficou o respeito.

McGregor ganhou o respeito de Mayweather porque lhe conseguiu dar mais luta do que pensava (apesar de ter quebrado fisicamente no exato momento em que tinha definido com o pai como a altura em que saltaria para cima do adversário) mas, sobretudo, pela coragem que teve em meter-se num desporto que não é o seu e aguentar como um guerreiro irlandês, tentando dentro do possível cumprir todas as regras acordadas.

Mayweather ganhou o respeito de McGregor porque, não sendo (para ele) um pugilista particularmente rápido e forte nas ações, mantém sempre a compostura em qualquer situação mas, sobretudo, pela coragem que teve em mergulhar no desconhecido arriscando um recorde de invencibilidade que ficará para sempre como o seu legado.

Este foi o dia em que Floyd Mayweather ganhou mas Conor McGregor não perdeu.

O dia começou com chegadas bem distintas à T-Mobile Arena em Las Vegas, que, poucos instantes antes do início dos combates do ‘Main Card’ (que foram quatro), ainda não tinha vendido todos os ingressos e em diferentes setores do recinto, dos mais caros aos mais baratos. Terá sido um flop também a nível de receita final (pergunta retórica que iremos responder durante a semana, tal como muitas outras que vão agora surgir)?

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Mayweather foi o primeiro a cruzar a porta de entrada do recinto, com roupa desportiva, alguns sorrisos e sempre com os phones a ouvir música. Mais tarde, McGregor, de fatinho à medida e óculos que reconhece usar para ficar com mais estilo, apareceu com a mulher e o pequeno filho de três meses, num carrinho de bebé. Até na preparação estavam diferentes, com o irlandês a colocar as ligaduras ainda com o fato vestido (arregaçou apenas as mangas da camisa) e o americano com equipamento de treino a ser massajado nas costas, nos ombros e nos peitorais enquanto se cumpria o ritual de colocação das luvas. Estavam concentrados, cada um à sua maneira.

Chegava o momento solene da entrada em ringue. McGregor foi o primeiro, de tronco nu e bandeira da Rep. Irlanda ao pescoço. Ele tem orgulho nas raízes e deixou-o à vista de todos; as raízes têm orgulho dele e fizeram-no ouvir a todos. Entre a euforia aquando do início da música durante o percurso até às escadas finais antes do combate, ficou uma imagem que diz tudo: três jovens irlandeses (e eram milhares em Las Vegas) com as veias bem salientes, cara vermelha e punho fechado a gritar “Come on Conor! Come on Conor! Come on Conor!“.

Essa é uma das principais diferenças entre ambos: enquanto o irlandês tem uma legião de fãs que vão atrás dele para todo o lado, o americano tem uma legião de amigos e conhecidos que encontra ou leva para todo o lado. Porque ele é mesmo assim, com um feito mais fechado e atitudes que às vezes nem ele próprio percebe. Nem vamos mais longe: pela primeira vez entrou de cara tapada rumo ao centro das decisões, apenas com os olhos à mostra (algo que as redes sociais não deixaram passar ao lado e de que maneira, acrescente-se).

Ouviram-se os hinos, fizeram-se as apresentações, começou o combate. Que teve um início surpreendente, com’The Notorious’ a ir para cima de ‘Money’ como se não houvesse amanhã mas com capacidade para ir evitando respostas do adversário, que pareceu até surpreendido com as rajadas que tinha ali pela frente. A certa altura, a confiança do irlandês era tal que chegou a colocar as mãos atrás das costas, colocando a cara a jeito para levar (mas a controlar, claro). Estava a dar espetáculo. Mas mais tarde iria perceber-se que, mais do que espetáculo, tinha de arriscar ainda mais porque as suas pilhas não eram alcalinas e a bateria iria acabar depressa. Demasiado depressa.

McGregor é um tipo honesto. E foi essa honestidade que contou a verdade sobre o combate. Quis ser honesto e passou mais tempo a olhar para o árbitro a ver se estava a infringir alguma regra (e atenção: trabalhou vários dias no ginásio com um juiz profissional para se ir adaptando a esse novo mundo) do que em arriscar enquanto podia. Quis ser honesto na forma como abordou o treino e o combate. Quis ser honesto com tudo aquilo que andara meses a mandar cá para fora, que fazia e acontecia (foi ele que desafiou Mayweather mas depois teve de sujeitar-se às regras impostas para tal). Mas chocou com a verdade por ser honesto: o irlandês é um “animal” de luta, que gosta de atirar-se à presa logo que possa para “matar”. E sem regras. Ali, eram só regras. Demasiadas regras.

No quarto round, e pela primeira vez, tivemos aquela imagem que todos gostam nos combates de boxe quando os dois pugilistas aplicam direitas ou esquerdas ao mesmo tempo mesmo em cheio na cara do adversário; no quinto, Mayweather chegou mesmo a dar um empurrão no opositor já depois do final dos três minutos; no sexto, a coisa virou de vez.

Ao contrário do que costumava fazer nos últimos combates, o americano passou a atacar. Tinha andado 12 minutos a encaixar murros mantendo o sorriso nos lábios para passar ao irlandês aquela sensação de que nada nem ninguém conseguia afetar o seu caminho. E quanto mais McGregor se começava a agarrar para disfarçar um adversário tão grande ou maior que tinha pela frente, que era o cansaço, mais se chegava o opositor à frente.

Quase como um telemóvel que carrega um minuto só para não ficar de vez sem bateria, o irlandês saía do seu canto direitinho ao adversário mas cedo esse cenário se invertia. Mayweather sabe tudo sobre boxe. Ele cresceu entre ginásios, ele passou a vida em ginásios, ele combate em ginásios, ele tem ginásios. O ringue é dele e quem lá entrar é um mero convidado da festa; depois o que pode mudar é o argumento. Neste caso, ao invés do que acontecera por exemplo com Pacquiao, a solução era acabar antes do último round. E percebia-se isso pela reação do próprio público: quem era pró-Mayweather, levantava-se quando o americano estava por cima para bater palmas; quem era pró-McGregor, andava sempre levantado, estivesse em maré alta ou baixa, a gritar ‘Conor! Conor! Conor!‘.

O TKO (KO técnico) ao décimo assalto trouxe o final esperado. Mas de uma forma que ninguém esperava. Porque se é verdade que Floyd Mayweather ganhou (e fez história, batendo o recorde de invencibilidade de Rocky Marciano), Conor McGregor não perdeu. E o futuro, que dificilmente voltará a ter a breve prazo um lutador de MMA a arriscar o boxe, vai provar isso mesmo. Se o americano foi corajoso por ter arriscado o seu registo de 49-0, o irlandês foi um herói por aceitar aquilo que sabia não poder ganhar. Nessa perspetiva, é mais sensato apelidar o que se passou na T-Mobile Arena de ‘Combate do Século’ do que ‘Duelo dos Milhões’. Porque a honra e o orgulho não têm preço.

https://www.youtube.com/watch?v=D6rzEYD3Q_o