A companhia de teatro CIA Marginal leva ao Porto “Eles não usam tênis naique”, um espetáculo que coloca em confronto um pai e uma filha, numa favela do Rio de Janeiro. Ele foi traficante nos anos 80, quando “o comércio ilegal de drogas ainda mantinha um vínculo moral com a comunidade”, ela é hoje uma jovem traficante. “Com os processos de pacificação mais recentes, os traficantes de algumas áreas foram migrando para outras, o que levou a um processo de desenraizamento. Eles não têm o menor vínculo com essas comunidades e isso torna as coisas mais violentas“, explicou ao Observador a diretora da companhia.

Que não haja dúvidas: “O tráfico sempre foi perigoso, é hiperviolento”, sublinha Isabel Penoni, que pela primeira vez apresenta “Eles não usam tênis naique” fora do Brasil. O espetáculo sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto, na noite de 22 de setembro, inserido na IV edição do MEXE – Encontro Internacional de Arte Comunitária. A CIA Marginal sabe melhor do que ninguém o quão violento é. Formada em 2005 no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, este premiado projeto de artes performativas integra atores que vivem nas favelas. E que contactam com a realidade da peça todos os dias.

“Demoramos muito para enfrentar esse tema, porque ele já é o tema eleito pela grande media para se referir aos espaços populares, vistos como espaços que produzem criminosos”, diz Isabel Penoni, que prefere levar ao palco temas diferentes. 10 anos depois, pegaram num texto de ficção de Marcia Zanelato sobre o tráfico de droga e adaptaram-no, acrescentando-lhe material autobiográfico. Em cena vão estar quatro atores, que se alternam sucessivamente nos dois papéis – nenhuma posição é fixa, nem é claro quando é que as deixas são ficção ou são relatos de episódios reais vividos por estes homens e mulheres.

© Renato Mangolin / Divulgação

É um tema que atravessa a vida dos atores, eles são todos moradores da Maré e a vida deles está atravessada pela violência que emerge do tráfico e, principalmente, da guerra ao tráfico“, afirma a diretora da companhia, para quem o chamado processo de pacificação das favelas, iniciado antes de o Brasil receber o Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 e ter todos os olhares do mundo sobre si. “Era uma política para fora e não para dentro, para criar uma aparência de paz” critica.

O tráfico, esse, continua. “Ficou claro que essa política fracassou. Mas não podemos olhar só para o tráfico, porque tem a ação da polícia, que é tão ou mais violenta. E é uma ação que não desestrutura o tráfico de droga”. Para Isabel Penoni, é aí que falha o processo de pacificação: ao não atacar o problema na raiz. A raiz é demasiado poderosa. “As armas vêm de onde? Para desestruturar, você vai chegar em quem domina o Brasil. Vai ter de questionar o tráfico de armas, o tráfico de armas internacionais. Os caras que mandam não estão na favela. Isto é a ponta do iceberg, é preciso um interesse político, mas o poder político está todo corrompido“, acusa.

Uma das consequências diretas do processo de “limpeza” das favelas através da ocupação militar — e o tema central de “Eles não usam tênis naique” — é a fuga dos traficantes para outros bairros. Bairros onde não cresceram e onde não têm vínculos familiares. “Há décadas, o tráfico tinha um compromisso maior com a comunidade, um compromisso moral, porque eram moradores da comunidade e, na falta do poder público, os traficantes constituíam uma forma de poder local, de uma certa ordem”, explica. Com a quebra desses vínculos, os moradores não sabem o que esperar. E, ao não conhecerem as regras, podem quebrá-las e correr risco de vida.

© Renato Mangolin / Divulgação

“Eles não usam tênis naique” estreou em setembro de 2015 no Rio de Janeiro e a companhia não tem parado de apresentar a peça. “Teve muita repercussão de público e media, tivemos duas indicações a prémios de melhor elenco e melhor direção. O espetáculo tem circulado muito e esta saída [do Brasil] coroa o processo.” Outro dos prémios que a CIA Marginal conquistou foi de apoio à internacionalização. Agora que está traduzido para inglês, poderá circular por mais países.

Seja no Brasil ou em Portugal, quando as cortinas se fecharem o que atores e diretora esperam é que o público se aproxime de uma realidade “que você acha que não é tão próxima de você, mas que é preciso aproximar porque é uma questão de todos nós”, e que se abra um canal de reflexão. “Tal como toda a gente quer que as pessoas se envolvam na questão dos emigrantes, aqui e igual. É uma questão de todos.

Além do espetáculo, o grupo vai fazer uma oficina com as comunidades do Porto, em Lordelo do Ouro, onde vão trabalhar sobre as possibilidades de inscrição do “real” em cena, com foco em experiências pessoais de fronteira. Os participantes vão produzir material autobiográfico que dialogue com questões atuais, como a tensão em torno de imigrantes e refugiados, o racismo e a xenofobia, pode ler-se no comunicado do festival MEXE, que termina a 24 de setembro.