Desde que assumiu a presidência do Sporting e o clube lançou o seu canal, Bruno de Carvalho instituiu como regra passar em direto a sua intervenção inicial nas Assembleias Gerais. Nesta reunião magna, isso não foi exceção. Ao contrário do que se passava no rival ali por perto, havia poucas pessoas (144) e ainda menos sinais da mínima contestação que fosse. Ainda assim, o líder dos leões consulta regularmente o Facebook e os blogues ligados ao clube de Alvalade, onde vai lendo algumas críticas que lhe vão sendo feitas. À exceção dos últimos dez minutos, guardados para o Relatório e Contas, tudo girou à volta das “pessoas que se escondem atrás do teclado”.

“Os sportinguistas não têm noção dos tempos que estamos a atravessar, com um presidente fortemente atacado e sancionado com castigos. Já tenho um ano e meio de castigos… Era mais fácil ser um presidente menos interventivo, só tinha a ganhar no plano pessoal. Mas sou assim, o que incomoda muitas pessoas fora e dentro do Sporting. Somos um clube autofágico, que arranja problemas onde não há, que às vezes caminha em vários sentidos em vez de ter um só rumo”, começou por referir Bruno de Carvalho numa primeira fase do discurso.

“Já passou do plano do agente desportivo para o pessoal. Acham que podem fazer o que querem nas redes sociais, a polícia foi três vezes a minha casa no último mês, acordando a minha família uma vez às quatro da manhã, outra às duas e outra à meia-noite… Não pensem que não está tudo interligado. Andam a correr coisas nas redes sociais, e que ninguém desvalorize o que são as redes sociais porque, para quem não percebe, foram elas que fizeram com que tivesse o resultado que tive em 2011, que vir às Assembleias Gerais era um problema porque corriam até o risco físico se falassem contra. Enquanto for presidente, digam o que disserem, nunca ninguém vai sofrer nada nem que eu próprio tenha de intervir. E se houver discursos definidos e bem estruturados, até podem falar uma hora. Portanto, aqueles que me chamam ditador e coreano, que são expressões bonitas, espero que venham mais vezes”, desafiou o líder leonino, antes de passar para alguns casos concretos “dos que andam escondidos em blogues a dizer tudo e mais alguma coisa”.

Nas últimas semanas a história era que a KPMG tinha feito a auditoria e que ganhava 50 mil euros por mês. Por acaso, a nossa auditora é a PWC… E continua a história que tenho uma casa na Quinta do Patiño ou Patinho, e eu continuo a pedir a quem tiver a escritura e as chaves para ir entregar à minha casa. E com a história das offshores é a mesma coisa, que me façam chegar os números para poder ir buscar o dinheiro”, ironizou, prosseguindo: “Mas parece que isto não é relevante, só o vídeo e a entrevista do presidente é que têm importância. Vou dar conhecimento de mais um caso: um sócio que diz que existe um empresário de futebol de seu nome Nélson Caldas que lhe mostrou uns emails que alegadamente mostravam três transferências para uma conta minha e de um empresário espanhol: uma de 400 mil euros, as outras duas de 200 mil, para essa tal conta em Espanha que ainda por cima é de uma pessoa que me pagou o casamento. Nesse caso, agradecia a essa pessoa que ao menos me pudesse dar esse valor do casamento… Isto é inacreditável”, contou.

Em paralelo, Bruno de Carvalho falou também de um pedido de suspensão de funções como presidente que chegou esta sexta-feira ao Conselho Fiscal e Disciplinar do clube, enviado por João Pedro Paiva dos Santos, sócio e acionista da SAD, e Paulo Pereira Cristóvão, antigo vice e candidato à liderança dos leões, em 2009.

“Para vermos onde chegámos, as pessoas quando falam de mim na carta chamam-me Azevedo, que tenho muito orgulho porque é o nome da minha mãe. A primeira vez referem-se ao sr. Bruno Miguel Azevedo, a segunda ao sr. Bruno Miguel Azevedo, a terceira ao sr. Bruno Miguel, depois outra vez ao sr. Bruno Miguel, a seguir ao sr. Bruno Miguel Azevedo. Esta é a forma de dois ainda associados se dirigirem ao presidente do Sporting. É o meu nome, claro, mas é utilizado para me tentarem ligar a um antigo presidente de um clube rival. A eles, não se esqueçam que existe um processo a decorrer: a Pereira Cristóvão, por ter sido arguido e condenado em processos; a João Pedro Paiva dos Santos, que não se esqueça da troca de emails com Pedro Guerra, um dos maiores pontas-de-lança dos nossos rivais na campanha baixa e reles que fazem”, argumentou.

“Está a valer tudo, vale mesmo tudo. Isto já não é guerra nem guerrilha, é terrorismo. E é triste ver quando alguns sportinguistas fazem também isso. O objetivo de apenas existir e sobreviver era quando cá cheguei, agora estamos num patamar de lutar por todos os títulos”, concluiu antes de abordar a necessidade de se chegar aos 175 mil sócios para poder manter o nível qualitativo das mais de 50 modalidades do clube.

Desligaram-se as câmaras, prosseguiu o discurso. Bruno de Carvalho terá voltado a bater nas críticas que leu nas redes sociais à entrevista que deu à Sporting TV e ao vídeo que passou nos ecrãs gigantes de Alvalade antes do apito inicial do jogo com o Marítimo, onde anunciava que iria ser pai na resposta a um desafio que deixara dois dias antes no Facebook e que envolvia também Cristiano Ronaldo. Vieram as intervenções de alguns sócios e a votação do Relatório e Contas, que passou com a aprovação de 97,6% dos votos. Mas ficou a mensagem: o presidente verde e branco continua a querer chamar quem o critica via internet para ir a jogo numa Assembleia Geral, mas quem critica o presidente verde e branco via internet continua a recusar esse convite.