Os mercados não dão tréguas à Altice. O grupo francês voltou a derrapar esta quarta-feira em bolsa, 8,4%, com os analistas a avisarem que os planos para desalavancar a empresa dona da PT são insuficientes.

No contexto de uma queda até agora imparável, um grupo de acionistas vai apresentar uma queixa em Paris contra a empresa por difusão de informações “falsas ou enganadoras”, na sequência do afundamento da cotação da empresa de telecomunicações e media. A informação está a ser avançada pela France Press que cita o advogado, Frédérik-Karel Canoy. Esta é a primeira queixa apresentada neste caso, mas haverá outras, disse o jurista que representa cerca de 50 acionistas.

A queixa citada pela France Press diz que entre 2015 e 2017, período em que a Altice fez grandes aquisições incluindo a Portugal Telecom, a gestão da emmpresa desvalorizou a dimensão sua dívida, tendo afirmando várias vezes que tinha um controlo absoluto sobre o passivo. O endividamento atual, da ordem dos 50 mil milhões de euros, resultou de uma “política de aquisições de grande envergadura” e os resultados anunciados são inferiores às expetativas e só a operadora francesa SFR perdeu 1,5 milhões de clientes desde 2014. Números que levam o advogado a classificar a atitude de Patrick Drahi, o presidente e maior acionista da Altice, para com os acionistas de “totalmente irresponsável”.

“Patrick Drahi pensa que pode salvar a Altice com audácia. Faz-me lembrar Jean-Marie Messier quando assegurou aos acionistas em 2002 que as coisas estavam melhor do que bem, quando a dívida da Vivendi atingiu 35 mil milhões de euros”. A declaração foi feita pouco antes de Messier sido dispensado da liderança do grupo francês de entretenimento e media após a divulgação de prejuízos recorde.

Em reação a esta queixa, a Altice denunciou o que apelida de “manipulação” e “tentativa de destabilização mediática”. O grupo publica as suas informações financeiras com a maior transparência, afirma um porta-voz da Altice citado pela AFP.

Numa mensagem aos trabalhadores da Portugal Telecom no dia em que anunciou a nova administração, o fundador da Altice, Patrick Drahi, assegurou que o grupo tem liquidez e uma dívida protegida e que está preparado para enfrentar o “período irracional dos mercados”.

Desde que começou a descida ao inferno bolsista, a Altice já anunciou várias medidas para tranquilizar os investidores. Mudou a estrutura organizativa, com o regresso de Drahi e outros responsáveis a cargos de topo, colocou a venda ativos não estratégicos e avisou que ia parar de fazer novas aquisições, uma intenção que, garantem os responsáveis do grupo em Portugal, não irá afetar o acordo para compra da Media Capital.

Mas o plano de venda de ativos não está a convencer os mercados. Apesar dos contactos avançados, revelados esta terça-feira, para a venda das torres de telecomunicações na Europa, os analistas consideram que o encaixe que resultará desta operação não chegará para atacar o elevado nível de alavancagem da empresa e retirar a pressão sobre as ações. A venda de ativos estratégicos nos Estados Unidos e de negócios secundários em outros mercados, seria a única opção consistente, sublinha Saeed Baradar, responsável pela área das tecnologias e media na Louis Capital, numa nota citada pela agência Bloomberg.