É apropriadamente irónico que um filme com o título de uma figura geométrica perfeita e de uma obra de arte conceptual com a mesma forma e nome, cuja autora pretende incutir boas intenções humanitárias e exemplares comportamentos cívicos nas pessoas, se dedique a transformar num caos a vida do protagonista, Christian (Claes Bang), curador de um museu de arte contemporânea de Estocolmo, e a expor a contradição entre as suas convicções idealistas e o seu comportamento no real quotidiano. Por uma conjugação de imponderáveis (o roubo da sua carteira e telemóvel em plena luz do dia, e a consequente reacção de “guerrilha”), de decisões desastrosas (a campanha de promoção da obra feita pelos consultores de comunicação jovens e “cool” do museu) e de falhas de carácter pessoais, Christian começa “O Quadrado” num poleiro de elite, para duas horas depois ter a vida irremediavelmente virada do avesso.

[Veja o “trailer” de “O Quadrado”]

Ao logo dessas duas horas, e em simultâneo com a narração do calvário de Christian, o sueco Ruben Östlund satiriza, com sentido de humor venenoso e picadinhas de “nonsense”, as mistificações e os ridículos da arte contemporânea e os ignorantes obscenamente ricos que a subsidiam, a ditadura perversa dos responsáveis pela comunicação e pelo “marketing”, os absurdos inenarráveis do politicamente correcto, as piedades do humanitarismo utópico e a tensão constante entre as nossas pulsões e instintos irracionais e as nossas inibições sociais e culturais. E fá-lo em sequências brilhantes e desopilantes, que tornam “O Quadrado” num marco do cinema do embaraço e do desconforto levado ao limite – para os protagonistas como para os espectadores.

[Veja a entrevista com o realizador Ruben Östlund]

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É o caso daquela em que um sujeito com a Síndrome de Tourette interrompe com palmas e palavrões uma sessão pública com um artista, e ninguém lhe pede para sair ou chama quem o tire da sala; da passada num jantar de gala do museu, onde um “performer” (o actor de “motion capture” Terry Notary, que já entrou em filmes da série “Planeta dos Macacos”) finge ser um símio e humilha e aterroriza os presentes, até estes finalmente reagirem em manada: ou ainda outra em que Christian dialoga com a jornalista americana (Elisabeth Moss, de “Mad Men”) com quem foi para a cama há uns dias, junto de uma instalação com cadeiras empilhadas que tremem e fazem um som obnóxio a intervalos regulares. (Há também um episódio surrealista envolvendo um chimpanzé, onde podemos detectar as simpatias buñuelescas do realizador.)

[Veja a entrevista com a actriz Elizabeth Moss]

Formalmente diferente do filme anterior de Östlund, “Force Majeure”, que era de recorte mais clássico, “O Quadrado” privilegia um estilo visual que ora é pausado e feito de planos fixos e prolongados dentro dos quais por vezes há várias coisas a acontecer ao mesmo tempo, ora opta pelo nervoso miudinho da câmara e pelo dinamismo da montagem. Uma estratégia cinematográfica que encontra correlativos nos estados de espírito extremos por que passa a personagem de Christian, e nas variações das atmosferas e da temperatura emocional da história. Ruben Östlund não faz de Christian num objecto de troça unidimensional ou um saco de pancada existencial ambulante, e ele é mais humanizado aos nossos olhos pelos seus defeitos, falhas e passos em falso, do que pelo seu discurso hemofílico de humanitarismo e preocupação social.

[Veja uma sequência do filme]

“O Quadrado” ganhou, para surpresa de alguns, a Palma de Ouro do Festival de Cannes e está a valer a Ruben Östlund comparações (pela positiva e pela negativa) com Michael Haneke e Lars von Trier. Comparações essas que não colhem, se lhe olharmos para os filmes com olhos de ver e não com os óculos embaciados da cinefilia de funcionalismo público. A seguir, Östlund vai rodar uma comédia passada no mundo da moda e da indústria da beleza, que, esperamos, será devidamente terraplanado.