A nova presidente do Conselho Nacional de Educação, Maria Emília Brederode Santos, defende um currículo escolar rico, em que as artes e a educação para a cidadania não sejam penalizadas por outras áreas.

Defendo um currículo rico. Tenho a sensação de que o currículo escolar está um bocadinho espartilhado, centrado em certas disciplinas que ainda bem que estão a ser trabalhadas, mas que não pode ser à custa de outras áreas como a educação para a cidadania ou a educação para as artes”, explicou em entrevista à agência Lusa.

Maria Emília Brederode Santos considera que não existe qualquer contradição nesta aposta nas áreas transversais, até porque, defende, “não há melhor maneira de aprender português do que através do teatro e da expressão dramática, por exemplo”.

“Tanto quanto possível defenderei um currículo mais alargado e mais rico, sobretudo porque a maior parte dos meninos terá pouco acesso a essas áreas”, frisou. Do Conselho Nacional de Educação (CNE) gostaria que tivesse uma visão mais prospetiva, mais ligada ao que pode ser o futuro.

Estamos a viver uma mudança de era que ainda vai acelerar mais na nossa própria relação com o trabalho. Será que faz sentido ter uma época de formação mais prolongada, depois uma época de trabalho e depois uma época de descanso? Não faz mais sentido uma educação permanente?”, questionou, considerando que estas são questões sobre as quais o CNE deve pensar.

Na primeira reunião plenária sob a sua presidência, explicou, houve uma reorganização das comissões permanentes que estudam matérias relacionadas com a educação com a intenção clara de não estarem tão presas ao sistema escolar e mais ligadas “à pessoa que está por detrás dos alunos”. Assim, adiantou, a intenção é ter uma comissão que tratará das crianças e jovens dos 0 aos 15 anos, outra dos 15 aos 24 anos e outra dos 24 em diante, dando assim a perspetiva de educação permanente “porque todos nos desenvolvemos ao longo da vida”.

Uma das questões que a nova presidente afirma que gostaria de o CNE fosse chamado a acompanhar prende-se com a iniciativa governamental de autonomia e flexibilidade curricular das escolas em que se dá às escolas um tempo para usar como entendem. “Tenho muita curiosidade de ver como é que as escolas vão agarrar nesta possibilidade de gerir, como entenderem, 25% do tempo. Gostava que o CNE acompanhasse isto, de ir para o terreno, de ver como as escolas estão a trabalhar, de falar com os vários parceiros da educação. Gostava de o fazer, de começar a preparar desde já”, disse.

A necessidade de uma aposta na educação de adultos será também um dos pontos que gostaria de ver analisada pelo Conselho Nacional de Educação. “Gostava que a oferta de educação de adultos fosse o mais diversificada possível. Desde os analfabetos que ainda existem, aos imigrantes que precisam de aprender melhor português, à reconversão profissional, as atualizações tecnológicas. Uma oferta diversificada que respondesse as todas as expectativas dos adultos”, disse.

Questionada sobre os resultados do último relatório do Conselho Nacional de Educação “O estado da Educação 2016”, a responsável destacou a questão da retenção escolar. Segundo o estudo, os alunos portugueses continuam a ser dos que mais chumbam na Europa

Embora Portugal tenha feito avanços extraordinários em educação, ainda tem um nível de retenção muito elevado que começa muito cedo. No 2.º ano de escolaridade já há 5% de meninos reprovados e quando chegam aos 15 anos 40% já não estão no ano de escolaridade correspondente ao ano da sua idade e isto é demasiado e revelador de uma certa cultura”, disse.

Maria Emilia Broderode Santos destaca a importância desta análise anual feita pelo CNE, por permitir relacionar as coisas, como por exemplo a ligação que se pode fazer para analisar a retenção das crianças e os métodos de ensino.

Professores cada vez mais velhos e aulas pouco práticas numa escola ainda dominada pela “cultura da retenção” e com um aumento de casos de abandono precoce caracterizaram o “Estado da Educação” em 2016. As aulas expositivas são o método seguido por todos os docentes e não apenas pelos mais velhos: esta opção “não se correlaciona com a idade dos professores, mas sim com práticas enraizadas nos diferentes países”, sublinha o relatório.

Maria Emília Brederode Santos, nomeada para o cargo em outubro substituindo David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação desde 2013, desempenhou as funções de presidente do Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação entre 1997 a 2002, tendo ainda sido representante do Ministério da Educação na Comissão Nacional para a Educação em matéria de Direitos Humanos entre 1998 e 2004 e diretora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo (da RTP).