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Começa agora mais um "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da tristeza na adolescência. Olá, Eduardo. O Eduardo diz que os adolescentes confundem estresse, ansiedade e pânico. É uma confusão com consequências?
Olá, Judite. Judite, eu acho que eles às vezes têm pouca escola da ansiedade, digamos assim. Isto é, de alguma forma, foram um pouco poupados à medida que foram crescendo. E quando têm um primeiro episódio em que a vida choca só de raspão neles, eles reagem de uma forma muito assustada, como se, no fundo, tudo aquilo fosse tão avassalador que os derrubasse, quando não é verdade. E, portanto, nessas circunstâncias, confundem claramente ansiedade e pânico. A ansiedade, os jogadores de alta competição e os outros, quem tem experiência desportiva, para não irmos mais longe, têm uma noção clara. Há sempre aquele friozinho na barriga, na véspera, antes de entrar em campo. Basta olhar para os atletas e eles têm todos um olhar um pouco tenso, um tudo nada assustado. E depois, ao fim de 10 minutos, soltam-se e começam a ser iguais a eles próprios. Ou seja, aprender a conviver com a ansiedade também nos torna competentes para vivermos. E nem sempre eles fizeram isso, os adolescentes, claro. Até porque, se calhar, foram estando habituados, e ainda bem, em muitos aspectos, a ter muito bons resultados, a serem capazes de passar por um ou dois, mas nada demais que não conseguissem resolver sozinhos. E, portanto, têm sempre esta ideia de que com jeito resolvem tudo sozinhos, com jeito controlam-se. E isto de nos resolvermos sozinhos ou de nos controlarmos em relação aos sinais que, vamos dizer assim, de uma forma simplista, o nosso coração nos vai dando para nos chamar a atenção de algumas coisas que nos metem medo, é que às vezes estraga tudo.
O Eduardo diz que os adolescentes foram protegidos demais. Que sinais é que vê disso mesmo?
Judite, vamos lá ver. Eu gosto muito que as pessoas sejam mimadas, que fique claro. E, portanto, as pessoas mimadas são pessoas amadas e não vale a pena nós, em relação às pessoas mimadas, estarmos aqui a fazer um drama. Às vezes eu fico com a sensação de que foram mal mimados, isto é, tiveram mãe, pai, que deram o melhor que foram capazes, que deram colo, que os protegeram, que de alguma forma lhes criaram condições para eles crescerem e aprenderem um conjunto de coisas que manifestamente os pais não tiveram, mas que às vezes não têm tantas exigências, vamos pôr com aspas, Judite, tantas exigências sobre eles como se calhar deviam ter. Isto de serem atentos em relação aos pais, cuidarem deles, serem menos egocêntricos, etc. E, portanto, as pessoas dizem, numa versão minimalista, foram um bocado mimados. E isso quer dizer o quê? Que às vezes essas pessoas escorregaram vida afora para um certo egocentrismo, que quando é mesmo egocentrismo, não as torna as pessoas mais bonitas do mundo. Portanto, às vezes os adolescentes foram bem mimados, às vezes foram mal mimados, mas a verdade é que foram sempre muito protegidos. Isso é um privilégio, Judite, porque se calhar até aos 15, 18 ou às vezes muito mais, nunca tiveram um solavanco significativo, uma perda significativa, etc. Haverá muitos que infelizmente tiveram vidas muito mais difíceis, mas muitas vezes, por compromisso dos pais em relação a eles, foram de facto muito protegidos. Isso não é mau. Agora, chegamos sempre àquele patamar, que eu acho que não pode assustar os pais, que é: as crianças pequenas aleijam-se menos quando caem, partem menos as pernas, porque caem mais vezes e aprendem a cair. E, portanto, significa que protegê-los é bom, protegê-los demais não é bom. E às vezes arranhar o joelho ou às vezes partir a perna, dói, magoa, mas às vezes também ajuda a cair e ajuda a descobrir que não se é tão poderoso, tão onipotente como às vezes, quando se está tão deslumbrado de tanto que se foi recebendo, se imagina que se pode ser.
Muitos jovens procuram estratégias para vencer pensamentos intrusivos sem, no fundo, pensar neles. Isto não resulta?
Não. Eles fazem qualquer coisa que é da natureza humana, que é quando sentem que estão a ficar ansiosos, para não irmos mais longe. Quando sentem que, de alguma forma, andam nalguma luta dentro de si em relação pensamentos que eles acham que são permitidos e outros que deveriam ser proscritos. Eles vão tentando ser mais racionais, mais contidos, mais controlados. E portanto, é nessas circunstâncias que era muito bom que não perdêssemos de vista. E depois eles são tão espertos, porque eles pegam de uma forma milimétrica, intuitiva, os termos que vão circulando por aí e começam a aplicá-los e a banalizá-los de uma forma muito enfática. E, portanto, quando eles falam de pensamentos intrusivos, o que eles estão a querer dizer? Que é um conjunto de coisas que eles sentem, que às vezes gostariam até de não sentir ou de não pensar, e que tentam censurar de todas as formas, que às vezes conseguem, mas depois, quando estão mais sozinhos, às vezes mais embaixo, às vezes à frente de um manual a precisar de estudar uma matéria qualquer, são pensamentos que fazem: "Olá, cá estou eu", e se impõem. E depois quanto mais eles lutam com eles, mais funciona como contar cardeais pra adormecer. E, portanto, é isso que eles chamam pensamentos intrusivos. O que eu acho que é importante é que nós possamos perceber, em primeiro lugar, que esses pensamentos têm a ver com coisas deles, como é óbvio, coisas que eles gostariam de não sentir, de não imaginar, têm a ver com coisas deles. E segundo, que eles, como todos nós, falamos de uma forma muito metafórica e, portanto, nem sempre um pensamento vale por si, daquela forma descritiva. É como quem está a interpretar uma metáfora. E eles às vezes ainda são pequeninos pra perceber essa dimensão metafórica, simbólica, se preferir. E não se perde nada, se houver uma mãe, um pai, um irmão mais velho, um professor, que seja capaz de pôr uma legenda, porque devidamente legendados, deixam de assustar, deixam de ser intrusivos a seguir.
Tristeza e depressão não são a mesma coisa, mas onde é que a tristeza deixa de ser saudável e deve preocupar os pais?
A tristeza, aliás, como a ansiedade, é sempre uma relação saudável, é uma reação que se faz perante qualquer coisa que nos magoa, que nos desilude. A tristeza é a consequência de uma dor. Ponto final. E, portanto, funciona como a febre. Quando nós nos sentimos magoados com alguma coisa que nos aconteceu, que nem precisa de ser muito significativa, nós ficamos um bocadinho tristes. E é saudável ficar triste. Há ali um indicador que eu acho que faz muita diferença, que é quando nós somos capazes de ficar tristes. Isso é muito saudável, por quê? Porque, em primeiro lugar, nós percebemos que aquela tristeza chateia, magoa, mas não nos parte em pequenas peças. Portanto, dá-nos a dimensão de que somos, afinal, mais robustos do que nalgumas circunstâncias imaginávamos. Depois também nos ajuda a perceber que não temos que nos armar em heróis e que pegarmos numa tristeza e confiá-la ao cuidado das pessoas que gostam de nós, ajuda-nos a perceber que as nossas dores, em vez de afastarem as pessoas, as aproximam. Portanto, sempre a faturar. E depois, terceiro aspecto, não menos importante, antes pelo contrário, quando nós somos capazes de trabalhar uma tristeza como quem trabalha um vírus, consegue transformá-la e consegue pegar naquela dor e investir, transformá-la num texto, numa música, num gesto bonito, numa decisão redentora que se consegue ter. E, portanto, a tristeza ajuda-nos a renascer pra vida. Tudo isso é bom. Quando nós fugimos dela, não nos permite uma coisa dessas. Quando ela deixa a nu que, afinal, as pessoas ao nosso lado adoram-nos, mas às vezes não percebem nada das nossas dores. Este não perceberem nada das nossas dores é a linha que separa uma tristeza saudável de uma tristeza que depois se encaminha pra uma depressão, porque no fundo, aquilo que depois mais dói não é propriamente aquilo que nos magoou, é o desamparo que deixa a descoberto.
Eduardo, vamos pra fim de semana.
Vamos, sim, senhor.
Voltamos na segunda-feira com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até segunda.
Também pra si. Bom fim de semana.
Obrigada.