Uma reportagem do The Times com André Villas-Boas esta semana tem um início com piada mas que, ao mesmo tempo, consegue sintetizar a participação do treinador no Dakar. “Uma crise de meia idade? Não, nunca”, responde o português que, ao contrário de outros técnicos que após rescindirem ou serem despedidos procuram outro clube ou deixam-se ficar uns meses no sofá, vai arriscar a participação numa corrida onde já morreram 70 pessoas, como recorda o jornal. “Risco de morte? Tu sabes que isso pode acontecer, mas tens de aceitar os riscos e seguir em frente. Enzo Ferrari disse uma vez que tens de sacrificar tudo sem hesitar para satisfazer esse vídeo”.

Desde miúdo e dos tempos em que frequentava o Colégio do Rosário, no Porto, que Villas-Boas é louco por automóveis. E já nessa altura ia ver com o pai as corridas ao Circuito da Boavista, tendo participado anos depois em algumas provas no país. Agora chega o grande desafio de uma vida, que coincide não só com os seus 40 anos mas também com a idade com que o tio, Pedro Villas-Boas, participou pela primeira vez na prova, em 1982. “Tudo na 40.ª edição do Ráli, é curioso”, comentou ao La Vanguardia. O português que tinha mau perder como jogador amador e que trabalhou nas Ilhas Virgens Britânicas é mais do que um técnico. E tanto assim é que, após esta aventura, espera regressar ao futebol… mas apenas por mais cinco ou seis anos.

O bisneto do Visconde de Guilhomil que também tem sangue inglês

Luís André de Pina Cabral e Villas-Boas (é este o nome completo do treinador) é bisneto do 1.º Visconde de Guilhomil, José Gerardo Coelho Vieira Pinto do Vale Peixoto de Vilas-Boas e neto de Dom Gonçalo Manuel Coelho Vieira Pinto do Vale Peixoto e Sousa de Villas-Boas, que se casou com a inglesa Margaret Neville Kendall, que vivia em Portugal depois da mudança da mãe para o nosso país para começar um negócio de vinhos. Foi com a avó, que teve um tio (Douglas) que combateu pela Força Aérea Real na Segunda Guerra Mundial, que começou a aprender inglês desde miúdo, o que lhe seria muito útil no início e nos cursos que tirou na Escócia.

O “Cenourinha” jogador chegou a ser guarda-redes e tinha mau perder

André Villas-Boas optou muito cedo pelo trabalho de observador e técnico, mas nem por isso deixou de ter uma curta carreira como futebolista. E foi um pouco de tudo nos dois únicos clubes que representou, o Ramaldense (onde chegou por influência dos amigos mais próximos na altura) e o Marechal Gomes da Costa, incluindo guarda-redes, embora fosse sobretudo um médio. Conhecido como o “Cenourinha” pelo cabelo ruivo, destacava-se pela entrega, pela pontualidade, pelo mau perder e, como não poderia deixar de ser, pela vontade de aprender o porquê de fazer as coisas nos treinos e nos jogos. Já aí acabava por ser uma espécie de treinador nas quatro linhas.

A influência do vizinho Bobby Robson e a utilização de Domingos

Há um pormenor muito engraçado no Museu do FC Porto que às vezes até pode passar ao lado mas tem um enorme simbolismo: uma carta escrita à mão por Bobby Robson para André Villas-Boas em abril de 1997, altura em que o inglês comandava o Barcelona e António Oliveira liderava a equipa azul e branca. Motivo? O final do primeiro curso do jovem técnico que tinha conhecido no prédio onde vivia na Invicta, após passagem pelo Sporting.

Villas-Boas, então com 16 anos, era um miúdo que adorava futebol, passava horas a jogar “Championship Manager” e tinha livros onde ia escrevinhando nomes, táticas e jogadas. Ao cruzar-se com o britânico, e aproveitando o inglês fluente, perguntou o porquê de Domingos Paciência, o seu grande ídolo, não jogar mais e argumentou com dados estatísticos. Robson gostou do que ouviu e, pouco depois, ajudou o miúdo a tirar o primeiro curso de treinador quando ainda não tinha idade, na Escócia, onde acompanhou o Ipswich. Foi depois para as camadas jovens dos dragões, sem nunca deixar de fazer relatórios de treinos e jogos para o técnico inglês.

O anúncio numa revista e a aventura nas Ilhas Virgens Britânicas

Depois de fazer um curso de treinador na Escócia, André Villas-Boas passou a receber a revista trimestral da Associação de Treinadores da Federação Inglesa de Futebol. Um dia, quando tinha apenas 21 anos, viu um artigo onde se pedia uma pessoa para a Federação de Futebol das Ilhas Virgens Britânicas. Concorreu, teve conversas por telefone ao longo de duas semanas e ganhou mesmo o cargo: deixou os Sub-14 do FC Porto e tornou-se coordenador técnico para o desenvolvimento do futebol jovem no modesto país sem a mínima tradição na modalidade. Mais tarde, subiria a diretor técnico da federação. No entanto, o trabalho numa pequena ilha onde o basquetebol e o basebol são os principais desportos e onde a economia se concentra sobretudo no turismo acabou por se ficar pelo desenvolvimento de algumas bases para crianças no futebol.

Os olhos e os ouvidos de Mourinho a quem ninguém conhecia a cara

Quando substituiu Octávio Machado no comando do FC Porto, no início de 2002, José Mourinho preocupou-se com a questão da análise aos adversários e lembrou-se de Villas-Boas, que estava nas camadas jovens dos azuis e brancos. O miúdo começou a trabalhar para a equipa A e com relatórios completos que tinham como mais-valia o que se passava nos treinos durante a semana: como não era conhecido, passava por sessões de trabalho e tirava notas sobre os momentos dos jogadores. Foi por isso que, em 2004, o Special One não abdicou dele quando foi para o Chelsea, tendo descrito Villas-Boas como os seus olhos e ouvidos. A partir de 2008, o miúdo quis mais e, após a recusa de Mourinho para ir trabalhar com ele para o campo, ficou acordado que, caso tivesse uma proposta, poderia sair. Com o tempo, foi-se percebendo que a relação entre ambos nunca mais voltou a ser a mesma…

O dia em que ficou no hospital enquanto um jogador era operado

A 18 de outubro de 2009, André Villas-Boas fez o primeiro jogo pela Académica. E a herança era pesada: nos primeiros oito jogos oficiais da temporada, a Briosa tinha empatado quatro e perdido outros tantos. Por isso, a vitória nesse encontro da Taça de Portugal frente ao Portimonense, por 2-1, acabou por dar o mote para uma época bem conseguida que lhe abriu outras portas: além do 11.º lugar no Campeonato, foi às meias-finais da Taça da Liga. Dos jogadores, esses, sobravam elogios à sua capacidade de trabalho, à metodologia de treino e à forma como preparava os jogos à luz dos adversários. O Maisfutebol recuperou duas histórias que mostravam como tinha conquistado o balneário: uma vez, um jogador esqueceu-se no Norte do Bilhete de Identidade, o pai enviou-lhe o cartão de táxi e o técnico pagou a conta (e foram mais de 300 quilómetros); outra, fez questão de dormir no hospital quando um atleta seu foi operado, sendo a primeira pessoa que viu quando saiu do recobro.

O namoro com o Sporting que falhou o casamento por duas ocasiões

Numa entrevista recente ao jornal O Jogo, André Villas-Boas foi linear em relação a um eventual regresso a Portugal: no Benfica e no Sporting “nunca”. Mas nem sempre foi assim. E quando estava na Académica esteve muito perto, por duas vezes, de comandar os leões então liderados por José Eduardo Bettencourt: em novembro de 2009, após uma traumática saída de Paulo Bento mais de quatro anos depois, foi ponderado como uma das mais fortes hipóteses mas sem nada assinado; em fevereiro de 2010, numa fase onde o clube já procurava um sucessor para Carlos Carvalhal, teve um acordo com o conjunto verde e branco, chegou à fase em que se discutem possíveis reforços mas tudo acabou por abortar quando Costinha já era o diretor desportivo dos leões. Uns meses depois saiu mesmo de Coimbra mas para o Dragão, onde ganhou tudo o que havia para ganhar pelo FC Porto…

A cadeira de sonho, as vitórias na Luz e a SMS de Jorge Jesus

A chegada de André Villas-Boas ao FC Porto, clube de que era sócio desde os três anos, começou por ser vista de forma cética, mas, contas feitas, é ainda hoje uma das melhores temporadas de sempre dos azuis e brancos. Na sua cadeira de sonho, como um dia Pinto da Costa apelidou, o jovem treinador começou por conquistar a Supertaça, tornou-se campeão sem derrotas, venceu a Liga Europa e acabou a ganhar a Taça de Portugal. Os duelos com o rival Benfica acabaram por ser os encontros mais marcantes: 2-0 na Supertaça; 5-0 em casa no Campeonato; 2-1 fora no Campeonato (o jogo que valeu o título comemorado sem luz e com a rega ligada); 3-1 fora na Taça de Portugal, anulando o desaire caseiro por 2-0. No final, Jorge Jesus enviou-lhe um SMS a dar os parabéns.

Seis anos, quatro clubes, três países, três títulos (todos na Rússia)

Roman Abramovich via em André Villas-Boas uma espécie de “Mourinho 2” e não teve dúvidas em pagar os 15 milhões da cláusula de rescisão. Oito meses depois, despediu-o. A relação com os pesos pesados não foi a mais fácil a os resultados acabaram por não aparecer. Na temporada seguinte, nova aventura na Premier League pelo Tottenham, onde bateu então o recorde de pontos do clube numa edição do Campeonato; no entanto, uns meses depois, saiu. Próxima paragem? Rússia. Mais concretamente São Petersburgo, onde ganhou a Liga, a Taça e a Supertaça da Rússia nas duas temporadas em que esteve no comando do Zenit. Estava então a cumprir uma espécie de período sabático quando acabou por ser convencido pelo Shangai SIPG. Acabou o Campeonato no segundo lugar, apenas atrás do Guangzhou Evergrande de Luiz Felipe Scolari.

Não estudou Educação Física, não foi jornalista mas nunca esqueceu os carros

Conhecido pelo sentido de humor apurado e pelo gosto em estar entre amigos a comer bem e a beber um bom vinho tinto, André Villas-Boas abdicou de uma licenciatura em Educação Física ou em Jornalismo, outra das suas paixões, pelo futebol e respetivos cursos que foi tirando. No entanto, houve sempre um amor que nunca esmoreceu e que terá agora o seu ponto alto com a participação no Dakar: os carros e os desportos motorizados. Sobrinho de Pedro Villas-Boas, uma figura dos primórdios do TT em Portugal, desde miúdo que foi com o pai ver corridas ao Circuito da Boavista e, entre mais de dez carros antigos na sua coleção particular, conta também com uma KTM usada por Cyril Despres quando ganhou o Dakar. Aos 40 anos, segue-se uma nova aventura.