Se a história da roupa interior feminina é complicada, a evolução dos chamados “trajes menores” masculinos não fica assim tão atrás. Ultrapassadas apenas pelos famosos onesies (aqueles que começam cá em cima e só acabam lá em baixo, sem serem necessariamente disfarces de animais ou de Minions), as ceroulas têm tanto de aconchegantes como de antigas. Infelizmente, por muito frio que faça, a peça nunca se deu muito bem com a moda da segunda metade do século XX. Já imaginou o que seria vestir umas skinny jeans por cima de uma ceroulas de flanela? Exato.

Os primeiros exemplares de que há registo estão bem lá atrás, mais precisamente na Dinastia Tudor, em Inglaterra. Aliás, se a disfuncionalidade familiar estivesse ao nível do guarda-roupa, a convivência entre os Tudor teria sido bem mais pacífica. A peça viria a evoluir ao longo dos séculos até atingir o seu auge na viragem dos séculos XIX e XX.

David Beckham numa campanha da H&M, em 2012

Mas as ceroulas não desapareceram. Há quem as considere verdadeiros gentleman’s essentials e as tenha resgatado do passado. Por muito apreço que tenhamos por David Backham e mesmo que o algodão orgânico lhes dê um ar mais moderninho (não confundir com “trusses modernos“), as ceroulas vão continuar a ser aquelas calças interiores que o avô (ou o bisavô) usava. Mas lá que são quentinhas, isso são.

A roupa interior dos Tudor

A corte de Henrique VIII foi especialmente rica em invenções e aperfeiçoamentos no vestuário. Há quem defenda que foi durante a dinastia Tudor que as mulheres começaram a usar pequenas peças, muito semelhantes ao soutien do século passado. A relação entre pessoas e roupa interior, como hoje a conhecemos (assim esperamos), começou aqui, nos séculos XV e XVI. “Segundo o conceito de higiene dos Tudor e dos Stuart, a roupa interior limpa era algo importante. O uso de linho limpo junto à pele era considerado essencial nos séculos ‘sujos’. A pessoas achavam perigoso imergir o corpo em água, mas perfeitamente seguro usar linho para absorver os líquidos corporais e depois lavá-lo regularmente. Na verdade, mostrar linho branco e brilhante nas golas e punhos era importante para mostrar a limpeza do corpo e, consequentemente, a pureza da mente”, escreve a historiadora Lucy Worsley no livro If Walls Could Talk: An Intimate History of the Home (Se as Paredes Falassem: Uma História Íntima do Lar).

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As ceroulas (ou as avós delas) fixaram-se pelo joelho, apenas com um botão na parte da frente. Séculos depois, já em plena era vitoriana, era assim a roupa interior masculina, apenas mais justa e quentinha com a introdução da flanela. A Revolução Industrial democratizou a roupa interior em algodão e os cavalheiros deram-se ao luxo, já no século XIX, de usar duas peças sob a roupa exterior: umas ceroulas e uma camisola que foi ficando mais pequena com o passar das décadas.

Long johns ou as ceroulas do campeão

O boxe matou as ceroulas, mas antes disso fê-las renascer. Culpa de John Lawrence Sullivan, o pugilista de Boston que no final do século XIX se tornou campeão mundial de pesos-pesados. Sem saber, Big John (como era conhecido) deixou também a sua marca no mundo da moda. No ringue, lutava apenas com umas ceroulas apertadas e com botões na zona das canelas. A imagem ficou, o campeão tornou-se também trendsetter e a língua inglesa passou a referir-se a ceroulas como “long johns“. A teoria bate certo, mas não é unânime, já que a expressão também poderá derivar da expressão francesa “longues jambes” (pernas longas).

John Lawrence Sullivan, em 1898 © Chickering, Boston, Mass. – Library of Congress Prints and Photographs Division

Sullivan morreu em 1918, mas mesmo que vivesse eternamente, ter-lhe-ia sido difícil evitar que os long johns caíssem em desuso, substituídos pelos primeiros boxers. Ironicamente, estes também nasceram num ringue de boxe. Nos anos 20, um empresário chamado Jacob Golomb, fundador da famosa Everlast, inspirou-se nos calções (na altura, já mais curtos) usados pelos pugilistas durante os combates e aplicou o modelo à roupa interior masculina. Em vez um cinto em pele, os boxers tinham elástico e eram mais leves. O sucesso não foi imediato, faltava-lhes o aconchego das antecessoras. Durante a II Guerra Mundial, as ceroulas fizeram parte do equipamento dos soldados americanos e foram especialmente úteis nos cenários de guerra mais inóspitos. Depois disso, fartaram-se de angariar fãs, até hoje.

Recordar é viver (e aquecer)

O resto do século XX, já se sabe, foi um duelo entre boxers e cuecas e ainda hoje o género masculino anda dividido entre as duas peças. Só uma minoria tradicionalista (ou de homens com uma necessidade de aconchego acima da média) é que continua a usar ceroulas. Como todas as peças do passado, esta também tem sido revisitada por marcas e designers de moda, se bem o conforto e a conveniência continuam a ser os responsáveis pelas poucas ceroulas que se vão vendo por aí.

Em 2012, David Beckham foi a cara (e o corpo) da campanha de roupa interior da H&M. Além dos atributos do futebolista (na altura, ainda no ativo) e de todas as questões sobre a autenticidade do enchimento, saltou à vista uma peça do século passado. Hoje, comprar ceroulas não está fácil (é que já nem na H&M se safa), mas é nas terras mais frias que os bons negócios acontecem. Encontra-as na loja online da Marks & Spencer, na Amazon (óbvio) e na La Redoute. Procurar não é fácil e nem sempre escrever “ceroulas” num motor de busca ajuda. Parece que mais do que a peça, foi mesmo a palavra que caiu em desuso.