A final dos 100 metros dos Campeonatos do Mundo de 2017, em Londres, foi um dos eventos desportivos mais vistos do ano. Alguém conseguiria quebrar Usain Bolt na sua última prova ou o rei da velocidade sairia com a coroa dos grandes palcos? Pela primeira vez em grandes competições, o veterano Justin Gatlin levou a melhor. Ao cortar a meta, tal como tinha acontecido ao chegar à pista, foi vaiado e cometeu mesmo a “imprudência” de mandar calar o público; poucos segundos depois, procurou o jamaicano e ajoelhou-se perante ele em sinal de respeito. Essa foi a imagem que ficou. A imagem que, muito provavelmente, ficará. Mas entre o primeiro e o terceiro classificado houve mais alguém. E é nesse meio que está a virtude.

O rei Bolt abdica sem coroa mas deixa um legado: Gatlin vence final dos 100 metros dos Mundiais

Christian Coleman, o jovem americano de 21 anos que ganhou a prata não só nos 100 metros mas também na estafeta dos 4×100 dos Mundiais (a vitória caiu para a Grã-Bretanha), já tinha conseguido este mês fazer 6.37 nos 60 metros em Pista Coberta, numa prova realizada em Clemson onde o tempo não foi homologado pela inexistência de blocos eletrónicos na saída que pudessem “ratificar” a partida regulamentar. Por causa disso, o recorde de 6.39 conseguido pelo compatriota Maurice Green em 1998 aguentou-se. Mas foi uma questão de dias: nos Campeonatos Nacionais de Pista Coberta, em Albuquerque, o velocista fulminou o anterior registo e fez o tempo de 6.34, quebrando assim uma marca com duas décadas.

A minha anca estava a chatear-me um bocado mas gosto de grandes corridas como esta. Mas eram os 60 metros e queria muito ganhar. Consegui, graças a Deus. Adoro este desporto e adoro estas grandes corridas que toda a gente está a ver. Não tenho uma personalidade de grandes celebrações, mas quando as luzes estão em cima de mim, as coisas saem. Foi um dia especial mas vou ter de melhorar a minha saída. Nunca estou satisfeito”, comentou no final da prova.

Christian Coleman é uma espécie de antítese de Usain Bolt e até da figura apontada como o atleta tipo para um dia sonhar em bater a marca de 9.58 conseguida pelo jamaicano nos Mundiais de 2009, em Berlim. Porque ele, ou Ele, como é visto no mundo do atletismo, é alto (1,95m) e o americano tem menos 21 centímetros. Porque ele, ou Ele, destacava-se na ponta final, ao passo que o americano brilha sobretudo na fase inicial das corridas. Mas, antítese ou não, está a marcar um novo tempo.

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Recuperando o que tínhamos escrito por altura dos Mundiais de Londres, em agosto de 2017, há uma aquela história que acabou por colocar Coleman na ribalta: John Ross, um antigo elemento da Universidade de Washington, bateu o recorde de velocidade em 40 jardas nos testes de entrada para a NFL (Liga de Futebol Americano), fazendo 4,22 segundos. Foi então que, com muita bazófia à mistura, comentou que era mais rápido do que Bolt. Seria mesmo assim? O aluno da Universidade de Tennessee aceitou o repto de uma revista de desporto americana e desafiou a marca. Resultado: 4,12 segundos. E a prova que, apesar de sonhar desde miúdo com a NFL, Coleman estava mesmo talhado para brilhar como velocista.

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Após uma participação discreta nos Jogos Olímpicos de 2016, onde correu apenas na fase de qualificação das estafetas 4×100 metros (na final foi preterido e acabou por ficar sem medalha porque a equipa dos Estados Unidos foi desqualificada, o jovem de 21 anos nascido em Atlanta teve um ano de afirmação e começou a gerar grande interesse junto dos meios internacionais, sobretudo depois de ter quebrado recorde universitário que estava na posse de Ngonidzashe Makusha desde 2011 (9,82). As duas pratas nos Mundiais de Londres vieram aumentar ainda mais essa atenção em torno do “discípulo” de Gatlin.

Apanha-me se puderes: alguém agarra o Relâmpago Bolt antes da despedida?

“O Justin [Gatlin] veio das corridas universitárias e passou pelo mesmo tipo de coisas que estou agora a viver, em relação ao que devo fazer com a minha carreira e à pressão de ser um dos melhores velocistas da universidade. Tem-me dado muitos conselhos”, contou ao The Independent na antecâmara dos últimos Campeonatos do Mundo. Aí, apesar de ter terminado a final dos 100 metros, acabou por ser ultrapassado em termos mediáticos pelo ouro da principal referência; agora, parece estar sozinho na corrida pela coroa deixada pelo jamaicano. Até onde chegará Christian Coleman? Essa é a principal dúvida. Uma dúvida que os Mundiais de Pista Coberta do próximo mês, em Birmingham, ajudarão a responder.