O último dia do Festival Literário da Madeira (FLM) começou com uma conversa sobre religião. Frei Bento Rodrigues, Esther Mucznik e Sheik David Munir reuniram-se este sábado à volta da mesa, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, para falarem sobre Jerusalém — “terra de desencontros” — o conflito israelo-palestiniano e a necessidade de as religiões aceitarem a diferença. Ao longo de cerca de hora e meia, os três oradores, conduzidos pelo jornalista João Ceú e Silva, defenderam a necessidade de haver um maior e melhor diálogo interreligioso e um maior respeito entre seres-humanos, independentemente do seu credo ou religião. É que “religiões há muitas”, como afirmou Bento Rodrigues. E a única coisa sagrada é o homem.

Esther Mucznik, questionada sobre o porquê de Jerusalém, cidade “destinada a ser um ponto de encontro”, se ter transformado num “ponto de desencontro”, começou por explicar que, “ao longo da História, nunca houve nenhuma cidade que tenha vivido tantos desencontros”. “Jerusalém foi destruída, saqueada, queimada, os judeus, e não só, foram várias vezes expulsos”, vítima de um passado “terrível”, mas também “glorioso”. “É a cidade divina, de alguma forma. As três religiões monoteístas revêem-se nela de alguma forma. A minha visão é de que só deixará de ser uma terra de desencontro quando os homens deixarem de querer morrer por ela, quando se entender que todos têm um lugar lá. Mas só quando se responder à pergunta ‘a quem pertence Jerusalém?’ com ‘todos os que lá vivem, trabalham ou que têm uma relação profunda de Jerusalém’ [é que deixará de ser uma cidade de desencontros].”

Para a fundadora e presidente da Associação Memória e Ensino do Holocausto, o principal problema está na “promiscuidade” que existe “entre a política e religião”. “Enquanto não houve uma separação clara e nítida entre o poder político e a religião, a mensagem universal que é transmitida pelas religiões é, de alguma forma, perversa porque não é uma mensagem de paz. A promiscuidade entre a realidade política e a realidade religiosa leva a que essa mensagem seja pervertida. A própria liberdade religiosa não se pode exprimir com clareza enquanto isso não existir”, afirmou Esther Mucznik, dando como exemplo os partidos políticos israelitas, que são também religiosos.

“Na minha opinião, é um grave erro. As religiões não se deviam organizar em partidos. As religiões são livres, deviam estar em todo lado. Para mim, essa é uma questão fundamental.” Além disso, a ex vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa defendeu que, mais do que tentar provar quem é que historicamente tem mais direito à cidade, é importante existir “coragem” e “confiança política uns nos outros”. A paz “não se faz de sonhos nem de mitos — faz-se de homens e mulheres, sentados à mesa”. “É importante evocar os passados de cada um mas, mais importante ainda, é ver como é que podemos construir Jerusalém para as pessoas que lá vivem.”

Para Sheik David Munir — que explicou que Jerusalém é importante para os muçulmanos por se tratar do lugar onde o profeta Maomé ascendeu aos céus —, a cidade pode ser “um lugar de encontro, onde é possível respeitar o outro”. “Nós queremos que isso aconteça”, admitiu o imã da Mesquita de Lisboa, acrescentando que “os muçulmanos não querem expulsar ninguém mas que também não querem ser expulsos”. Os muçulmanos querem que Jerusalém seja espaço para todos.

“Não seria uma beleza se Jerusalém se transformasse num símbolo?”

Frei Bento Domingues, que admitiu ir nunca ter ido a Jerusalém e não saber se algum dia lá irá, disse que, na sua opinião, não existem lugares sagrados. “O único lugar sagrado é o ser-humano, que é também o menos respeitado”, afirmou. “Agora, é um facto que os seres-humanos vivem em tempo e lugar, e também em Jerusalém. Para mim, é ou deveria ser sobretudo um lugar de referência para o fenómeno religioso porque, pelas notícias que estamos sempre a receber, as religiões só servem para estragar o mundo. Andam sempre à bulha umas com as outras”, disse Bento Domingues. “Não seria uma beleza se Jerusalém se transformasse num foco e num símbolo de que é possível às pessoas viverem umas com as outras sem se agredirem? Religiões há muitas! Não são só as ditas do monoteísmo. O mundo está cheio de religiões, estão sempre a aparecer novas.” Até porque, “os verdadeiros adoradores adoram em espírito e verdade”.

Lembrando que foi no Concílio Vaticano II, realizado em 1962 e 1965, que foi aprovada a Declaração Sobre a Liberdade Religiosa, Bento Rodrigues frisou que “a liberdade religiosa nunca poderá substituir por si mesma”. “Tem de haver a liberdade das pessoas. Essa questão é acirrada a partir de Jerusalém, mas ela é muito mais universal. Na Europa, já não vivemos em sociedades sacrais. A organização deste mundo era feita a partir do transcendente, de Deus. Com a modernidade, isso acabou. [Agora,] os seres humanos procuram formas democráticas de resolver os seus problemas e fazem-no de uma forma, meu Deus, miserável! As democracias que temos são mais ou menos democracias, mas estas coisas históricas não são repentinas, são processos.” Para Frei Bento Rodrigues, o mais importante é encontrar uma forma de vivermos juntos “na diversidade, na divergência”.

Durante a conversa deste sábado, Sheik Munir considerou ainda que o conflito que “vive à volta de Jerusalém é um conflito político entre palestinianos e o Estado de Israel”. “Duvido que ja um judeu que tente impedir um muçulmano de visitar um lugar sagrado ou um muçulmano que tente impedir um judeu de visitar um lugar sagrado. Os ensinamentos das religiões [dizem para fazer] o que estamos aqui a fazer — a dialogar, a conversar. O homem — o ser-humano — é o mais sagrado. Algumas pessoas, alguns religiosos, tentam monopolizar a religião e fazer dela algo completamente diferente daquilo que David nos disse para fazer. Entre estas pessoas há muçulmanos, mas também não muçulmanos.”

Para o imã da Mesquita de Lisboa, independentemente da crença religiosa, cada pessoa pode ter “um impacto cultural”. É possível fazer mais e melhor. “Um ser humano respeita-se por ser um ser humano. Queria que muitos muçulmanos fizessem isso. Nós, muçulmanos, temos esse défice”, afirmou, acrescentando que é importante fazer de Jerusalém “um lugar de paz” e que não sirva de “pretexto para que haja um clima de tensão, de transgressão”.

Questionado sobre a mudança da embaixada norte-americana em Israel para Jerusalém, Sheik Munir defendeu que a alteração “não vai ajudar na convivência” entre israelitas e palestinianos. “O diálogo interreligioso é muito importante”, afirmou, frisando que é importante que cada responsável religioso diga à sua congregação que é importante respeitar os outros. “Irão existir pessoas que não vão querer ver a cara de um judeu, mas temos de sensibilizá-las e dizer-lhes que também são seres humanos. Este é o desafio que temos quando falamos do diálogo religioso”, disse, acrescentando que “os religiosos têm um papel muito importante” dentro das suas congregações, “mais do que os políticos”. Esther Mucznik também defendeu que as religiões têm um papel “fundamental na pacificação”. “Deveriam ter esse papel na pacificação das relações humanas e políticas, e nem sempre é assim. “ Contudo, para que isso aconteça, têm de mudar a visão que têm do mundo e parar de dizer “eu é que detenho a verdade”.

O Observador viajou até ao Funchal a convite do Festival Literário da Madeira (FLM)