Perante as notícias deste sábado que davam como atrasadas as medidas de combate aos fogos, o primeiro-ministro preferiu dar enfoque à prevenção nas declarações que fez aos jornalistas em Torres Vedras, depois de ter participado numa iniciativa de limpeza de matas. “É necessário preparar os meios de combate”, admitiu, adiantando que essa preparação “está a desenrolar-se de acordo com o planeado”. O Expresso fez manchete esta manhã com o atraso da preparação da época de fogos — como a reforma da Proteção Civil ou a contratação dos meios aéreos –, embora António Costa tivesse dito ao jornal que “três quartos das medidas” estão em curso. Para o primeiro-ministro, “a prioridade é fazer o esforço de prevenção“. É por isso que Costa se encontra este sábado, com todo o Governo mobilizado, em iniciativas de limpeza de floresta.

Prevenir é melhor do que remediar. Neste momento é prioritário que cada um faça no momento certo aquilo que deve ser feito. Até dia 31 maio devemos fazer o esforço para eliminação das condições de risco porque quanto menor for o risco menor é a probabilidade de virmos a ter uma tragédia”, disse António Costa aos jornalistas, em Torres Vedras.

O primeiro-ministro disse que a participação de membros do Governo em ações de limpeza da floresta é “uma campanha de comunicação” para alertar o país para essa prioridade nacional. “É uma ação de comunicação de alertar o país e incentivar o país a prosseguir esta ação [afirmando]que é absolutamente fundamental cumprir a lei em redor das casas e das comunicações, das vias de comunicação ou de eletricidade, e ter matas limpas sem material combustível acumulado, porque quando mais limparmos agora mais eliminamos o risco”, afirmou António Costa aos jornalistas.

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O primeiro-ministro respondeu assim às questões dos jornalistas sobre as declarações do presidente do PSD, Rui Rio, na sexta-feira. Apesar de admitir que a presença de membros do Governo “na limpeza tem algum mérito, na sensibilização das pessoas”, o social-democrata classificou-a também como “uma fuga para a frente”, explicando que “perante um relatório que o responsabiliza e muito, [o Governo] faz uma ação de marketing para desviar as atenções”.

O primeiro-ministro chamou a atenção para “o trabalho gigantesco” que é necessário realizar e admitiu que, “ao longo deste ano, se desaproveitou o tempo“. Costa deu o exemplo da ferrovia onde “nunca se tinha feito este esforço de limpeza” e explicou: “Estamos a tentar, numa luta contra o relógio, recuperar  o combustível [matagal] que se acumulou do ano passado para este ano, mas também o combustível que se acumulou ao longo de décadas”, explicou o primeiro-ministro.

António Costa adiantou que a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais — que só vai funcionar em 2019 — “está em fase de instalação”. O primeiro-ministro mencionou também dois programas “importantes” que “estão a ser lançados”: o ‘Aldeias Seguras’ e o ‘Populações Seguras’.

É muito importante que haja um esforço de dotar as aldeias de kits de primeira intervenção, de planos de evacuação, de planos de emergência e a Proteção Civil”, disse referindo-se ao programa ‘Aldeias Seguras’.

António Costa explicou ainda que o programa ‘Populações Seguras’ visa uma parceria com empresas e comunicações para criar “sistemas de alertas eficazes”. Questionado sobre se existia a hipótese de futuras falhas nas comunicações, o primeiro-ministro não descartou essa possibilidade: “Podem voltar a falhar se assentarem exclusivamente num cabo. Isso é inevitável”.

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O primeiro-ministro revelou ainda, quando questionado pelos jornalistas, que ainda não leu a “totalidade do relatório” dos incêndios de outubro. “É um relatório que merecer ser lido com calma para serem tiradas todas as ilações”, explicou Costa adiantando que o relatório “é certamente um contributo muito importante”.

António Costa contou também que um morador lhe perguntou se estas iniciativas só iriam acontecer este ano. O primeiro-ministro negou e deixou um conselho: “Este trabalho tem de ser repetido e feito anualmente“. Na lógica de Costa, se este ano for feito “muito”, no próximo ano não será necessário fazer-se “o mesmo”. “O que cresce num ano é menos do que cresce em décadas”, apontou.

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Ministro da Administração Interna destaca “tomada de consciência coletiva”

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, destacou este sábado em Constância, a “tomada de consciência coletiva da sociedade portuguesa” na limpeza das florestas, falando num “reerguer da esperança” para este desígnio nacional.

Este é um dos grandes exercícios de cidadania em quatro décadas de democracia e, num balanço, esta é já uma grande vitória do povo, esta consciência coletiva de prevenção na sociedade portuguesa”, disse o governante, no distrito de Santarém, considerando fundamental a cooperação no terreno entre todos os setores da função pública.

Eduardo Cabrita – que esteve de manhã em Penela, no distrito de Coimbra, no âmbito das ações de prevenção contra incêndios desenvolvidas este sábado por Governo e municípios – falava no refeitório do centro escolar da aldeia de Santa Margarida da Coutada, onde almoçou.

O governante deixou palavras de estímulo, para um “esforço que não deve cessar até ao final de maio“, às forças que estavam no terreno em ações de limpeza, desde autarcas, militares paraquedistas, bombeiros, sapadores, GNR e Força Especial de Bombeiros, entre outros.

“Assisti hoje a um magnífico exemplo de um projeto de autoproteção na aldeia de Ferraria de São João, em Penela, e aqui [em Constância] está outro exemplo notável de cooperação entre todos os setores da função pública”, afirmou, sublinhando que “nunca tinha sido feito em Portugal tanto pela prevenção”.

Forças Armadas terão papel “mais institucionalizado” na defesa da floresta

O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, disse que as Forças Armadas vão passar a ter um papel “mais sistemático” e “mais institucionalizado” na defesa da floresta, que considera ser uma causa nacional.

Na sequência da resolução do Conselho de Ministros de 21 de outubro, a ideia é que, “tanto quanto possível, o envolvimento das Forças Armadas neste processo, que é nacional, se deve consolidar e se deve continuar a desenvolver, tanto na dimensão do apoio à decisão, como na dimensão preventiva”, disse o ministro no final de uma visita à Serra do Crasto, no concelho de Viseu, onde acompanhou o Presidente da República numa ação de limpeza de mato.

Em declarações aos jornalistas, o ministro referiu ainda que, para além do Exército, “também os restantes ramos das Forças Armadas, e sobretudo a Força Aérea, estarão convocados, doravante, a ter um papel mais institucionalizado, mais sistemático naquilo que é uma causa absolutamente nacional”.

Azeredo Lopes lembrou que “o Exército já tem estado, nos últimos anos, mais envolvido nestas ações”. “E, portanto, aquilo que hoje viemos testemunhar não é algo que seja uma novidade, é algo que já corresponde a um padrão que desde, pelo menos, o ano passado, sofreu um reforço muitíssimo significativo”, acrescentou. O governante lembrou que, “já em 2016, tinha acontecido um reforço claro do número de pelotões envolvidos no combate” aos incêndios florestais, tendo-se no ano passado atingido “um nível de empenhamento máximo”.

Questionado sobre se já possui o resultado do relatório do grupo de trabalho para passagem dos meios aéreos de combate a incêndios florestais para a Força Aérea, respondeu:

Já tenho, mas ainda não foi assinado. E, portanto, vamos esperar que ele seja assinado para podermos falar sobre o assunto”.

Azeredo Lopes reafirmou que o comando e gestão do combate aos incêndios florestais “será transferido para a Força Aérea”, sendo “mais razoável pensar que isso ocorrerá sobretudo a partir de 2019”. O ministro destacou que a Força Aérea esteve envolvida, desde o início, “na redefinição do modelo” e que “o grupo de trabalho sobre os meios aéreos concluiu no prazo aquilo que se tinha proposto fazer”. “Agora, do que se trata é verificar qual é o conjunto de propostas que constam desse documento e depois extrair daí as devidas ilações, prever investimentos, prever, no fundo, a reorganização do modelo de gestão, justamente à luz daquele que passará a ser o papel protagonista da Força Aérea na dimensão de comando e na dimensão de gestão”, acrescentou.