Rui Rio não quer fazer “demagogia” nem “criticar o Governo só por criticar”, mas pega no relatório da comissão técnica independente sobre os fogos de outubro, divulgado esta terça-feira, para pedir responsabilidades políticas: Governo falhou porque “tinha a experiência de Pedrógão, em junho, e mesmo assim não emendou as coisas”; falhou porque “o Instituto Português do Mar e da Atmosfera alertou três dias antes para o dia mais perigoso do ano” e o Governo “não decretou estado de calamidade pública preventiva” como tinha feito noutras alturas em agosto; e falhou porque não disponibilizou os meios necessários.

O líder do PSD quer “pressionar” o Governo a fazer diferente e, para isso, anunciou não só que vai esta segunda-feira ao terreno, com deputados, para ouvir bombeiros e associações de vítimas, como também vai chamar ao Parlamento os técnicos responsáveis pelo relatório, o ex-responsável da Proteção Civil, as associações de vítimas e o ministro da Administração Interna.

“Sou presidente do PSD há poucas semanas mas já se percebeu que não faço demagogia, não procuro tirar dividendos políticos para lá daquilo que é normal, não critico o governo por tudo e por nada, e na governação em certas medidas até o apoio, mas este assunto é muito sério, morreram muitas pessoas, portanto têm de ser apuradas as responsabilidades políticas”, começou por dizer aos jornalistas numa conferência de imprensa na sede do PSD do Porto. A ideia é, “mais do que apontar o dedo”, “pressionar” o Governo para fazer diferente. “Mais importante do que as responsabilidades políticas é preciso pressionar o governo para que mude e passe a fazer direito o que até aqui fez torto — isto é o principal papel da oposição: pressionar”, disse.

Rui Rio anunciou que o PSD vai chamar ao Parlamento várias entidades, como a comissão técnica independente que elaborou o relatório sobre os fogos de outubro, o antigo responsável da Proteção Civil, as associações das vítimas e o ministro da Administração Interna. A ideia é “ouvir de viva voz” os principais responsáveis e, a partir daí, o PSD ter fundamentos para “apurar as responsabilidades e pressionar o governo no bom sentido”. Essa é, disse, a “forma mais séria” de estar na oposição: “sem demagogia, e com elevado sentido de responsabilidade”. 

Aos jornalistas, Rio negou estar a chegar tarde à discussão, uma vez que o relatório foi entregue na Assembleia na terça-feira: “Não trabalho nos jornais online em que tenho de responder passado meio hora, tenho de responder sem demagogia e no tempo próprio. O grupo parlamentar viu o relatório, apurou o que é mais grave e depois carece de vermos as coisas com pormenor, de falarmos com as pessoas, e não dizer mal do Governo só por dizer. Criticamos o Governo mas temos de o fazer com conhecimento de causa”, acrescentou.

Além das audiências àquelas entidades e ao ministro, o presidente do PSD anunciou também que irá para o terreno na próxima segunda-feira juntamente com o líder parlamentar e deputados que vão estar nessas audições parlamentares. “Vamos para o litoral de Coimbra falar com as associações de vítimas, com a associação de produtores florestais e com os bombeiros de Arganil, só assim o PSD fica em condições de perceber na totalidade o que se passou, e se estiver bem informado pode pressionar melhor o Governo no sentido certo”, disse.

Afirmando que perante a reação do ex-secretário de Estado Jorge Gomes sobre as conclusões do relatório, se a “CTI o reafirmar na AR, terá de haver uma acareação entre o [então] principal responsável do Governo no terreno, o ex-secretário de Estado, mais até que a ministra, e a CTI”.

Limpeza das matas é “ação de marketing”

Questionado sobre o que pensava da ação de limpeza das matas que o Governo e o Presidente da República agendaram para este sábado, em vários pontos do país, Rui Rio afirmou que fazia uma “leitura mista”. Por um lado, admite que “tem algum mérito porque sensibiliza as pessoas para a limpeza”, mas, por outro, “não somos ingénuos e sabemos que o Governo está a fazer uma ação de marketing para desviar as atenções”.

Já sobre se considerava haver responsabilidades criminais, o líder do PSD demarcou-se de tirar essas conclusões. “Não sou juiz, nem sou do Ministério Público, acho que se deve investigar se há ou não responsabilidades criminais, mas sou sempre muito cuidadoso nisso, na diferença entre responsabilidade políticas e responsabilidades criminais”, disse.

Diferente é dizer que o Governo está a agir da melhor forma para evitar que a tragédia não volte a acontecer. “A atuação do Governo tem sido frouxa, mas quero acreditar que alguma cosia foi feita e que um pouco melhor teremos de estar, porque não se pode repetir uma calamidade deste tamanho”, afirmou, admitindo que “preparado completamente [para o próximo verão] o país não estará”. Mas uma coisa é certa: “Não se pode dizer que não ha incêndios, ou que vai deixar de haver incêndios, o que queremos é que o Governo ataque cedo para os incêndios não atingirem aquelas proporções”, disse.