14 de julho. O ano era 2015. E o clube estava afundando em dívidas. Às finanças. Também à segurança social. A fornecedores. O passivo ascendia a um milhão e meio de euros. Nestas condições, o Desportivo das Aves, então na Segunda Liga, não poderia inscrever-se e competir, correndo o sério de risco de cair para os campeonatos amadores e, quem sabe, terminar. É então que uma empresa, de capitais chineses mas sediada em Cascais, fundada em 2014 e voltada para o marketing desportivo, se chega à frente e apresenta uma proposta para a aquisição de 70% da SAD do Desportivo das Aves, proposta essa no valor de 750 mil euros. Mais: a empresa saldaria as dívidas urgentes [cerca de 300.000 euros] do emblema, permitindo a inscrição dos avenses. A empresa é a Galaxy Believers. E os sócios avenses aprovaram a venda em Assembleia Geral. O brasileiro Luiz Andrade tornar-se-ia presidente da SAD.

Andrade não tem qualquer ligação ao futebol. É administrador da empresa brasileira Plenamerica, sediada em Rondônia e dedicada à extração e exportação de pedras preciosas, tendo igualmente negócios em Portugal, mas nas áreas da compra e venda de bens imobiliários e da restauração e hotelaria. Também não tem qualquer posição na Galaxy Believers — embora a mulher, Ionela, detenha uma percentagem de 10% na participação da empresa. Os proprietários da empresa são chineses, Wei Zhao (administrador da SAD do Desportivo das Aves) e Hongmin Wang, estes sim com ligações ao futebol, nomeadamente ao clube chinês Shanghai Shenhua.

Tornando-se a Galaxy Believers acionista maioritária da SAD do Desportivo das Aves, o projeto que definiu para o clube da vila era ambicioso. Não só no futebol “jogado”.

Mas comecemos pelo futebol jogado e as promessas que Luiz Andrade fez logo em 2015. Prometeu que no prazo de três anos o clube retornaria à Primeira Liga — prova onde só havia participado três vezes (1985, 2000 e 2006), sempre promovido com o emblemático treinador “Professor” Neca, sempre descendo à Segunda Liga após a promoção. Andrade prometeu e cumpriria.

Dois anos depois, em maio de 2017, o Desportivo das Aves garantia a subida à Primeira Liga. E o presidente da SAD ambicionava mais. E explicava: “Quando assumimos os destinos do Desportivo das Aves, traçámos um plano com quatro fases. No primeiro ano, a prioridade passava por garantir a estabilidade do clube, pagar as contas e evitar a descida. Depois, abordámos a candidatura à subida em dois anos: trabalhámos muito para isso e conseguimos o feito logo no primeiro ano. O terceiro passo visa criar uma equipa forte na Primeira Liga, apontando à permanência. Por fim, esperamos entrar na discussão pela Liga Europa”.

O projeto do Galaxy Futebol Campus, avaliado em 3,5 milhões de euros. A inauguração sofreu um atraso mas está prevista para 2018

Faltava enunciar um quatro projeto: a construção de um centro de estágio luxuoso, o Galaxy Futebol Campus, um investimento estimado em 3,5 milhões de euros, sendo a construção financiada pela Galaxy Believers mas igualmente pela Federação Chinesa de Futebol. A primeira pedra seria lançada (com a presença de Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa de Futebol) em setembro de 2016, isto numa altura em que a empresa de capitais chineses havia comprado mais 20% da SAD do Desportivo das Aves por 50.000 euros, procedendo em seguida a um aumento de capital da SAD para um milhão de euros. A inauguração do Galaxy Futebol Campus estava prevista para fevereiro mas a construção, a decorrer, sofreu alguns atrasos.

O local escolhido é a Quinta dos Pinheiros, um terreno de quatro hectares que é pertença da Junta de Freguesia e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila das Aves. Pelos direitos de superfície sobre os terrenos (por um prazo de 25 anos) a Galaxy Believers pagou cerca de 200.000 euros. O Galaxy Futebol Campus terá três campos de futebol — dois são de relva sintética e um de relva natural, este último com bancada –, seis balneários, 50 quatros (com capacidade para 80 pessoas), salas de apoio médico, salas de convívio, um ginásio, escritórios, um refeitório e salas destinadas a conferências.

“Estabelecemos um protocolo com a Federação Chinesa [de Futebol] e, todos os anos, vamos ter duas equipas chinesas no nosso centro de estágio. Vamos também apostar na formação dos jovens que, a longo prazo, podem ajudar o Desportivo Aves. Este projeto destina-se às equipas A e B. Queremos ser conhecidos como academia formadora. Trata-se de um complexo muito importante para a Vila das Aves e penso que é um dos maiores investimentos feitos em Portugal por uma pequena equipa de futebol”, explicou Luiz Andrade aquando da apresentação do projeto.

O avultado investimento (e sobretudo José Mota) permitiu a subida e a Europa. Mas não haverá Europa

Luiz Andrade sempre garantiu que não há “petróleo” na Vila das Aves. Em agosto no ano passado, e projetando a temporada que estava prestes a começar, o presidente da SAD garantiria que tudo estava “espremido” ao limite. E o objetivo era só um: permanecer na Primeira Liga. “Conseguimos boas publicidades, temos um bom contrato de televisão e um grupo de um clube chinês de Xangai [Shanghai Shenhua] que nos apoia muito. É dentro destes patrocínios que vivemos”, explicaria.

Com ou sem “petróleo”, o clube da Vila das Aves foi, no entanto, aquele que mais se reforçou no defeso. Em quantidade e qualidade. Ao todo, 22 reforços, muitos com “tarimba” de Primeira Liga, como Adriano Facchini, Diego Galo, Vítor Gomes, Braga, Sami ou Petrolina, outros com experiência em competições europeias (Gonçalo Santos) e até um experiente internacional português: Paulo Machado. Não era tudo. Durante o Verão chegou até a circular uma contratação “bombástica” na imprensa desportiva: Demba Ba, internacional senegalês que chegou a ser treinado por Mourinho no Chelsea. Ba recebe perto de quatro milhões de euros anuais. E seria o Shanghai Shenhua (parceiro da Galaxy Believers e clube detentor do passe do avançado) a suportar este volumoso ordenado, digno só de um clube “grande”. O negócio não passaria da estampa da imprensa para o contrato assinado.

Demba Ba (à direita) chegou a estar, dizia-se no Verão, com um pé na Vila das Aves. Mas o negócio com o Shanghai Shenhua acabaria por cair.

Apesar do investimento, a temporada corria mal. E à oitava jornada, Ricardo Soares, o treinador, seria despedido, deixando os avenses no penúltimo lugar, com apenas uma vitória na prova. Seguiu-se LitoVidigal. Os resultados não melhorariam. E Vidigal seria despedido em janeiro, a contas com um processo disciplinar devido a “decisões tomadas que não agradaram à SAD”, explicariam os avenses num comunicado.

José Mota seria o terceiro a sentar-se no banco. Ele que na temporada anterior havia conseguido levar o clube à subida de divisão, sendo dispensado no final da época. Regressou para garantir a permanência na penúltima jornada e o 13.º lugar final na classificação. Mas garantiria igualmente a presença no Jamor, onde o Desportivo das Aves defrontaria o Sporting na final da Taça de Portugal. Venceriam, garantindo a presença inédita na Liga Europa.

O problema é que o Desportivo das Aves se atrasou na entrega do processo de candidatura à UEFA. Luiz Andrade negaria depois qualquer atraso: “Fizemos o licenciamento, ficamos pendentes em algumas coisas, mas está tudo bem encaminhado. Só não sabemos se podemos jogar na Vila das Aves. A Taça é nossa, temos a Liga Europa garantida e vamos disputar essa competição”. Mas não vão. O dossier de candidatura deveria ter sido entregue à UEFA até final de dezembro e não foi.

Mas a vitória na Taça de Portugal tem uma história curiosa que importa recordar. Em dezembro de 2015, tinha a Galaxy Believers (e Luiz Andrade, portanto) acabado de investir na Vila das Aves, e o clube da terra recebia o Nacional na 5.ª Eliminatória da competição. Acabaria eliminado nas grandes penalidades depois de um empate, 1-1, no tempo regulamentar. Ao intervalo, e vendo a equipa a perder 0-1, o presidente da SAD do Desportivo das Aves ordenou aos jogadores que não regressassem ao relvado, insatisfeito com a arbitragem de Artur Soares Dias — que anulou um golo aos avenses por alegado fora-de-jogo. Regressariam. E no final o presidente da SAD explicaria o sucedido: “A questão não é se foi ou não fora-de-jogo mas, sim, a forma como as coisas foram feitas. Quando todos corriam para o meio-campo a festejar, foi o quarto árbitro quem alterou a decisão do árbitro principal [invalidado o golo]. Nunca vi isso no futebol. Só recuei na decisão porque os nossos atletas me pediram. Eles achavam que deviam voltar ao campo e que eu estaria a precipitar-me”.

E agora? O chineses (e o dinheiro chinês) podem estar de saída

Os chineses da Galaxy Believers não investiram só no plantel e em infraestruturas como o Galaxy Futebol Campus. Investiram igualmente nos “bastidores”. Na experiência de quem há muito se movimenta nos bastidores do desporto português. Aquando da chegada da empresa à Vila das Aves e à SAD, circulou uma notícia, prontamente desmentida: Luís Duque, antigo presidente da SAD do Sporting e ex-presidente da Liga Portuguesa de Futebol, seria o novo diretor desportivo do clube. Não seria. Mas enquanto advogado de Wei Zhao tornar-se-ia delegado dos acionistas e um dos administradores da SAD. Ainda assim, Duque é presença assídua na tribuna do estádio dos avenses, como o foram algumas vezes Wei Zhao e Hongmin Wang. Sim, foram.

Luís Duque, delegado dos acionistas da Galaxy Believers, e Luiz Andrade, presidente da SAD do Desportivo das Aves

Alegadamente podem estar de saída. Ou os chineses ou Luiz Andrade, que segundo notícias dos últimos dias (antes mesmo da final do Jamor) estarão de costas voltadas e o afastamento pode ser definitivo. O presidente da SAD está descontente com o modelo de negócio que o grupo chinês pretende implementar nos avenses, uma vez que vai alterar o que Andrade projetou no começo. Este acusará os investidores chineses de ingerência, razão que o levou a ponderar adquirir as ações que são da Galaxy Believers, indemnizando Zhao e Wang pelo investimento já realizado. O problema é que o o grupo chinês também pretende adquirir a parte de Luiz Andrade e afastá-lo.

Aquando da subida de divisão, Luiz Andrade garantia que outros investidores queriam apostar também nos avenses, havendo até propostas para os adquirir. Recusou sempre vender. E explicou porquê: “Vivemos um momento único [subida de divisão], não há dinheiro que pague esta comunhão com as pessoas da Vila das Aves. O sonho de colocar o Desportivo Aves bem alto é mais forte… Só se algum maluco fizer uma oferta tipo a do Neymar. Queremos parceiros bons, empresas credíveis e fortes, que acreditem no nosso trabalho”.

Por enquanto, é ainda tempo de festejos na Vila das Aves. Daqui por alguns dias se verá quem vai ao certo mandar no clube. Dinheiro não faltará.