Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a economia portuguesa cresça menos este ano, mas ao mesmo ritmo que o esperado pelo Governo, deixando o alerta que a economia portuguesa está vulnerável à conjuntura externa e recomenda ao Governo que antecipe o ajustamento das contas públicas que está previsto só para depois das eleições. Técnicos defendem que é necessário conter gastos do Estado com salários e pensões.

Num comunicado enviado esta tarde após a análise regular que fez à economia portuguesa, o FMI fez uma ligeira revisão da sua previsão para o crescimento da economia portuguesa este ano, de 2,4% para 2,3%, resultado do abrandamento no primeiro trimestre, determinado em parte por fatores temporários – como a interrupção na produção pela Autoeuropa e por o trimestre ter menos dias úteis -, mas também com uma menor procura da parte dos principais mercados para as exportações portuguesas.

É precisamente a conjuntura que mais preocupa o Fundo, que diz que apesar de as previsões ainda apontarem para um cenário positivo no médio-prazo, os riscos estão a aumentar e estes chegam precisamente de fora.

O abrandamento na zona euro, em especial na Alemanha, e a incerteza política em duas das quatro maiores economias da zona euro – Itália e Espanha – podem vir a causar problemas afetar a economia portuguesa, especialmente no caso de Espanha, o principal mercado para as exportações portuguesas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“A incerteza tem vindo a crescer no mundo nos meses mais recentes, com resultados mais fracos nos indicadores avançados de atividade ou crescimento da incerteza em termos políticos”, diz o FMI, que diz que apesar de os riscos serem “maioritariamente externos”, as suas consequências seriam amplificadas pelas vulnerabilidades próprias da economia portuguesa.

O abrandamento do crescimento na zona euro afetaria significativamente Portugal, uma economia aberta cujas exportações aumentaram com sucesso a sua presença nos mercados internacionais. Dado o ainda elevado endividamento da economia, surpresas nas taxas de juro podem ter impacto na atividade”, diz ainda o Fundo.

Por essa razão, o FMI defende que Portugal deve aproveitar o bom momento da sua economia e o bom desempenho orçamental que tem vindo a conseguir ao longo dos últimos anos para se distanciar de outros países em condições menos favoráveis. Para que tal aconteça, o Fundo defende que Portugal deve aproveitar as poupanças para reduzir a dívida pública e antecipar as poupanças que estão previstas no Programa de Estabilidade, enviado em abril para Bruxelas.

No documento, o Governo português compromete-se com um esforço de redução do défice mais intenso para os anos de 2020 e 2021, ou seja, já depois das eleições legislativas. Apesar de só faltar um orçamento para tal, precisamente o do ano de eleições, o Fundo veria com bons olhos que esse ajustamento fosse antecipado já para 2019, isto numa altura em que os parceiros mais à esquerda têm intensificado a pressão sobre a estratégia orçamental mais rígida de Mário Centeno.

“A missão vê méritos na antecipação do ajustamento previsto no Programa de Estabilidade tanto para evitar o risco de que as políticas se tornem pró-cíclicas, como para garantir que o ajustamento previsto é robusto para contrapor com eventuais surpresas que possam surgir”, diz o FMI no mesmo comunicado.

Nesse sentido, os técnicos defendem o controlo da despesa, tal como o fizeram no passado, através da contenção do crescimento dos custos do Estado com salários e pensões, garantindo ao mesmo tempo a qualidade dos serviços públicos e o investimento.

Esta recomendação surge numa altura em que os partidos mais à esquerda têm insistido na necessidade de voltar a aumentar os salários dos funcionários públicos, cujos salários estão congelados desde 2010. O Governo tem fugido o mais possível à questão, defendendo que as reversões que tem vindo a fazer de várias medidas penalizadoras dos salários dos funcionários públicos – como o congelamento de carreiras e o os cortes salariais que vigoravam desde o Governo de José Sócrates – constituem na prática um aumento salarial para estes trabalhadores.