O concerto de Anitta neste segundo dia do Rock in Rio nunca seria só mais um concerto. Foi a estreia da cantora brasileira em Portugal e na Europa e o primeiro de três espetáculos em solo europeu (seguem-se Paris e Londres). À luz de um contexto tão especial, produtores, cenógrafos, coreógrafos, músicos e a própria Anitta deram tudo em palco. A comitiva chegou dentro de um contentor com o selo “Made in Brazil”, como se de uma importação vinda diretamente do Rio de Janeiro se tratasse. A cantora de 25 anos pisou o palco em modo Carmen Miranda, cantarolando um arranjo de “Tico-Tico no Fubá”. O verso “disseram que eu voltei americanizada” serviu de deixa para aquele que viria a ser o concerto mais vibrante desta edição do Rock in Rio — pelo menos até àquele momento.

Anitta chutou êxito atrás de êxito, sem dó nem piedade. “Bang”, “Sim ou Não”, colaboração com Maluma, “Romance com Safadeza”, “Loka” — o público não descansou um segundo, nem a princesa da pop brasileira. Pelo meio, ainda se ouviu uma versão de “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim, cantada em inglês e com as ondas do calçadão como pano de fundo. Deu para descansar mas não por muito tempo. Nem mesmo os intervalos no alinhamento, estrategicamente pensados para trocas de guarda-roupa, deram tréguas. Nestes momentos, a batida ficou tão ou mais contagiante do que quando a diva esteve palco. A dupla italiana Dolce & Gabbana desenhou cada figurino a pensar no espetáculo.

“Gordo, preto, branco, bicha, lésbica, whatever. Todo o mundo tem o direito de dançar”

Justiça seja feito ao corpo de bailarinos, mais de 20. Entre eles, duas dançarinas plus size arrancaram do público as maiores ovações deste final de tarde. “Ela pensa que o sentimento é comum a todo o ser humano, independente de ser gordo, preto, branco, bicha, lésbica, whatever. Todo o mundo tem o direito de dançar, todo o mundo tem o direito de se sentir bonito, de se sentir empoderado, de sentir ótimo do jeito que é”, explicou ao Observador Rodrigo Pitta, diretor artístico do espetáculo, minutos após o concerto. “Apesar da Anitta ser uma mulher linda e maravilhosa, ela entende que outras mulheres também são bonitas e maravilhosas do jeito delas. É uma coisa que ela faz questão de trazer para o show, faz parte do pensamento dela como artistas, a diversidade.”

Ao longo do concerto, foi comum ver a cantora utilizar refrãos de outros cantores. Aconteceu com temas de Rihanna, de J Balvin, de MC Kevinho e com o “Faz Gostoso” de Blaya, que deu o mote para “Indecente”, single lançado este ano, cantado em espanhol do princípio ao fim. O espetáculo foi trilíngue, cheio de energia e de jogo de anca. Houve tempo de sobra para Anitta dar largas às suas conhecidas habilidades corporais. Afinal, a maioria dos sucessos da cantora são colaborações com outros artistas e a ausência de qualquer remistura nas canções fez com que a artista pudesse dançar quando não estava a cantar. Aconteceu em “Downtown”, que conta com a participação de J Balvin, “Você Partiu Meu Coração”, com Nego do Borel, e em “Sua Cara”, onde nem Pabllo Vittar, que atuou no Terreiro do Paço na noite anterior, deu um ar da sua graça.

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“É um dia histórico na minha vida. Obrigado pelo carinho. Nunca me senti tão bem recebida num lugar em toda a minha vida”, disse Anitta ao microfone, com o concerto a aproximar-se do fim. “Quando comecei a cantar, ninguém acreditou que eu podia chegar onde cheguei e ser essa cantora.” O sentimento de ter feito o funk brasileiro chegar mais longe não é exclusivo da artista. Nos bastidores, a emoção contagiou os vários membros da equipa. “Já fiz muitos eventos internacionais em outros países, mas com essa emoção jamais”, contou Rodrigo Pitta. “Chorei, a equipa inteira chorou, a mãe dela [chorou]. É uma vitória de muitas pessoas, dos bailarinos, que também são da periferia do Rio [de Janeiro]”, completou o também músico e produtor.

Ao minuto 45, o funk baixou (e de que maneira) na Bela Vista. Se até então Lisboa tinha estado a ouvir uma batida essencialmente pop, o bloco de dança que se seguiu levou o ritmo genuíno da favela. “Vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?”, questionou a cantora. A pergunta era obviamente retórica e, a partir daí, foi ver como se faz e tentar reproduzir na medida do possível. Anitta tem, no mínimo, 20 pequenos músculos em cada nádega e usou-os todos. Segura, Ivete, que tem um novo furacão brasileiro na área.

No final, o encore foi impiedoso de tão impróprio, de tão pouco saudável e de tão forte do ponto de vista das emoções. Anitta chegou de mota, como se o Palco Mundo fosse uma rua da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Nem foi preciso música para perceber o que aí vinha — ela vinha malandra. O fim estava próximo e por isso foi a desbunda. “Show das Poderosas”, o êxito de 2013 que catapultou a brasileira para a ribalta, encerrou o concerto onde tudo esteve em linha com as produções das grandes divas internacionais. Afinal, já faltou mais a Anitta para atingir esse estatuto.

As emoções tomaram conta do Rock in Rio e até houve um pedido de casamento

Mais um dia de Rock in Rio, mais um português a abrir o palco principal. Depois de Diogo Piçarra ter feito as honras da casa no sábado, este domingo foi a Agir que coube inaugurar o Palco Mundo na única data esgotada do festival de música. Foi um “sonho” tornado realidade como o próprio admitiu, primeiro no Instagram e depois durante o concerto: “Ainda nem acredito que estou no Palco Mundo aqui no Rock in Rio”, afirmou o cantor. Apesar de ter lançado recentemente um novo álbum de originais, No Fame, Agir decidiu apresentar um alinhamento mais diversificado, com a primeira parte do concerto a ser dedicada ao álbum de 2015, “Leva-me a Sério”, que o tornou num verdadeiro fenómeno. “Estou Bem”, “Toda a Gente Olha” e “Bola de Cristal” foram os temas escolhidos, ali com uma “Mountains” pelo meio que trouxe a palco a primeira convidada da tarde — Carolina Deslandes.

“Hoje vamos ter uma noite em grande, mas nos próximos 45 minutos vão ter de se contentar comigo. Hoje vamos ter convidados. Alguém conhece a Carolina Deslandes?” A resposta era um óbvio “sim”, com vários fãs a desatarem numa correria desenfreada colina abaixo. “Mountains” foi cantado em coro no Parque da Bela Vista, e Deslandes despediu-se com uma ovação. Depois de “Manto de Água”, do novo No Fame, foi a vez de “Até ao Fim”. O tema, que também integra o mais recente disco de Agir, conta originalmente com Diogo Piçarra (que no sábado também o escolheu para integrar o seu alinhamento no Rock in Rio) na voz mas, desta vez, o cantor escolheu interpretá-lo sozinho.

Já perto da reta final, Agir cantou “Ninguém Vai Saber”, o novo single que contou com a participação de Manu Gavassi, um fenómeno no Brasil. “Make Up” fechou a primeira parte do espetáculo, à qual se seguiu um encore tirado a ferros (foi preciso explicar ao público que deviam chamar por Agir para que ele regressasse). Depois de “Minha Flor”, Agir chamou ao palco um “rapaz chamado Diogo”. Diogo apareceu com a namorada e toda a gente percebeu o que é que vinha ali: ajoelhado no grande palco do Rock in Rio Lisboa, o rapaz tentou pedi-la em casamento. Ela nem lhe deu tempo — saltou-lhe para os braços e disse que “sim”. “Estes são os gestos que importam”, disse Agir. “Nunca se esqueçam disso.” O concerto terminou com “Como Ela é Bela”, “Parte-me o Pescoço” e “Tempo é Dinheiro”, num ótimo aquecimento para o segundo dia do festival da Bela Vista.

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Demi Lovato não teve a vida facilitada. A norte-americana teve a difícil tarefa de subir ao palco principal do Rock in Rio depois de Anitta, o furacão brasileiro que deixou o público português rendido e “no chão”. Com um espetáculo planeado ao pormenor e um alinhamento escolhido a dedo para a estreia em solo português, Lovato deu tudo para manter os ânimos animados na Bela Vista. Ou pelo menos era isso que parecia até ter tocado o último tema da noite, uma balada triste que deixou a multidão (e ela própria) de lágrimas nos olhos. Mas aí já lá vamos.

Apesar de a tour em que se inseriu o concerto deste domingo servir de apresentação ao último álbum de originais, Tell Me You Love Me, Demi Lovato escolheu começar o concerto com um tema mais antigo, “Confident”, do álbum homónimo de 2015. Mudando radicalmente a ordem das canções em relação aos últimos concertos na Europa, Lovato prosseguiu com a ainda mais antiga “Heart Attack”, do já algo longínquo Demi, de 2013. Dançando sem parar, na companhia de um grupo de bailarinos vestidos de preto que se iam roçando uns nos outros, foi só à quarta música que a cantora norte-americana se atreveu a entrar no último registo. “Sexy Dirty Love”, “Daddy Issues”, “Games” e “Concentrate” foram algumas das músicas escolhidas.

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Os fãs, contentes por poderem finalmente ver ao vivo a antiga estrela da Disney, cantaram e pularam sem parar, deixando a cantora impressionada: “Vocês são incríveis”, disse Lovato, depois de admitir que nunca tinha estado em Portugal ou no Rock in Rio. “Obrigada por terem vindo!” Lovato, cujos problemas de saúde obrigaram ao cancelamento de um concerto em Londres, no passado dia 13, mostrou estar em boa forma neste domingo. A cantora mostrou estar completamente recuperada da doença em “Stone Cold”, atingindo sem dificuldade as notas mais agudas. O momento foi bonito, mas o que se seguiu foi ainda mais — “Skyscraper”. Depois de um momento mais calmo — onde coube uma versão acústica de “Catch Me” –, Lovato voltou aos grandes hits pop, como “Échame la culpa”, o tema que canta com Luis Fonsi (o conhecido cantor de “Despacito”).

Para terminar o concerto, Demi Lovato escolheu um tema pouco provável, “Sober”. A balada, lançada há apenas dois dias, nunca tinha sido apresentada ao vivo. O tema fala da luta da cantora com o alcoolismo, um problema de que sempre procurou falar abertamente para ajudar a acabar com o estigma. Numa interpretação emocionada ao piano, Lovato pediu desculpa por “já não estar sóbria” e levou às lágrimas os fãs na plateia. Foi um final estranho para um concerto que devia ter deixado um sorriso rasgado na cara de quem estava na plateia da Bela Vista.

Fotografias de Agenciazero.pt e Vasco Silva