Estávamos no verão de 2001 quando, em Itália, se preparava uma transferência que viria a ficar na história. Parma e Juventus conversavam, negociavam e acordavam um negócio de milhões, com Gianluigi Buffon a trocar a ex-equipa de Fernando Couto pelo emblema de Turim a troco de quase 53 milhões de euros, um valor já elevado para o início do milénio. Durante 17 anos, o histórico guardião italiano ocupou o número um da baliza da Juventus e da lista de guarda-redes mais caros de sempre. Recentemente, Ederson, que trocou o Benfica pelo Manchester City, tentou morder-lhe os calcanhares, mas a venda do brasileiro deu-se por cerca de 40 milhões de euros, ficando aquém do topo.  Quis o destino que Buffon perdesse a liderança da lista no mesmo verão em que abandonou a Juventus, trocando-a pelo PSG, ao fim de quase duas décadas na Vecchia Signora. Tudo porque, também vindo de Itália, Alisson Becker prepara-se para protagonizar uma transferência milionária que o levará da Roma para o Liverpoool por um valor de 72,5 milhões de euros. Aos 25 anos, o titular da seleção brasileira no Mundial deu nas vistas na última temporada e parece ter convencido os responsáveis reds a abrirem os cordões à bolsa para o levar para a cidade dos Beatles.

A história de Alisson começa a ser contada através da sua família: o avô era guarda-redes da equipa da cidade natal de Alisson, Novo Hamburgo; a mãe era guarda-redes de andebol; o irmão é o atual guarda-redes do Belenenses, Muriel Becker; o pai, esse, ia à baliza em tudo o que eram peladinhas de rua ou jogos da empresa onde trabalhava. E Alisson, que outra hipótese tinha? “Algumas pessoas dizem que eu sempre fui obrigado a ser guarda redes, e talvez isso também esteja correto. Talvez tenha sido parte do plano de Deus para mim, sabe?”, partilha o guardião numa carta escrita ao site The Players’ Tribune

Alisson Becker chegou à titularidade da baliza do Internacional depois de uma luta contra o seu físico, na juventude, e frente ao seu irmão Muriel, na equipa principal (Créditos: Getty Images)

Desde cedo, Alisson despertou para o futebol e para as balizas. O seu pai fazia moldes de sapatos e era o avô quem, à mão, lhe fazia as chuteiras com que daria os primeiros passos entre os postes. “Eram de couro, mas eram muito confortáveis”, confessa Alisson numa entrevista na Globo.

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Foi com o Campeonato do Mundo de 2002 que o brasileiro decidiu o seu futuro. O Brasil ganhou, a criança Alisson vibrou e a decisão tomou forma: “É isso que vou fazer. Vou jogar pela seleção brasileira e vou a um Campeonato do Mundo… e daí vou ser campeão“, pensa o guarda-redes, aos dez anos. E, até agora, só falta mesmo ser campeão.

Em 2006 entrou nos escalões jovens do Internacional, mas as coisas não se adivinhavam fáceis: Alisson era o terceiro guarda-redes e a (falta de) altura parecia um problema incontornável, já que o guardião era “baixinho” e os responsáveis brasileiros pareciam reticentes em apostar em si. De repente, tudo mudou e, no espaço de um ano, Alisson passou de 1,70m para 1,87 metros e, aos 16 anos, é convocado pela primeira vez para a seleção Sub-17 do Brasil, para disputar o Mundial do escalão. Nessa mesma seleção, constavam ainda dois nomes bem conhecidos atualmente: Neymar e Coutinho.

Na seleção brasileira, Alisson tem como treinador de guarda-redes o campeão do mundo em 1994, Claudio Taffarel. Também ele defendeu a baliza do Internacional, entre 1985 e 1990 (Créditos: Getty Images)

“Tudo aconteceu muito rápido depois disso. Em 2013, aos 20, fiz minha estreia na equipa titular do Internacional, e dois anos mais tarde fiz a minha estreia pela seleção brasileira principal. Aquele jogo mudou a minha vida. Na verdade, às vezes eu paro e penso ‘uau, cara, estou aqui. Na seleção brasileira. Eu vou para a Copa do Mundo. Isso é um milagre de Deus’“, confessa Alisson, na sua carta ao The Players Tribune. 

Daí para a frente, Alisson começou a disputar o lugar de titular do Internacional com Muriel Becker, o seu irmão. “Eu sempre quis ser melhor do que ele, mas ele também é super competitivo, então, ele nunca quis perder para mim. Daí que nesse período nós treinamos juntos todos os dias – e eu quero reforçar, todos os dias mesmo – e nenhum de nós queria perder para o outro. E deixa eu te contar uma coisa, aquilo era uma grande fonte de motivação para nós”, confessa o brasileiro. Alisson acabou por aproveitar uma lesão de Muriel para saltar para a titularidade do Internacional e não mais a perdeu. Muriel Becker acabou por se mudar para Portugal, onde representa o Belenenses desde 2017. 

Muriel Becker, irmão de Alisson, joga no Belenenses depois de se ter transferido para Portugal vindo do Internacional, onde jogou com o seu irmão (Foto: Agência Lusa)

Em 2016, transferiu-se para a Roma. No seu último jogo com a camisola do Internacional, Alisson conquistou o Campeonato Gaúcho, o 43.º da história do clube, mas esse nem foi o momento mais emocionante da noite do guardião: após o apito final, e já depois da equipa de Porto Alegre celebrar a conquista de mais um título em pleno relvado, Alisson esperou que todos saíssem de campo e, já com o Estádio Beira-Rio vazio, sentou-se na baliza que durante anos defendeu. Ali, encostado ao poste, pensou em todo o caminho que percorreu. Emocionado, teve o apoio do irmão Muriel e dos sobrinhos, que junto a ele se sentaram. Dias depois, partiria para a Europa, Roma mais concretamente, para dar continuidade a uma carreira que se adivinhava brilhante.

Brilhou na Serie A e na Liga dos Campeões, aproveitando a saída do polaco Szczesny para a Juventus para agarrar a titularidade da baliza romana. Alisson, que aos 15 anos foi considerado o rapaz mais giro da sua escola, tendo mesmo feito books fotográficos e quase enveredado por uma carreira de modelo (fugindo ao historial familiar de guarda-redes), prepara-se agora para abraçar uma nova aventura, em Liverpool, com o estatuto de guarda-redes mais caro da história do futebol. Um título que nem aquele rapaz de dez anos, deslumbrado com o Mundial de 2002, poderia imaginar.