Os cumprimentos foram muitos, todos parecidos, todos diferentes. “Esta é para o Zé”, “Esta é a minha despedida para um grande amigo”, “Meu querido amigo Zé Pedro, até sempre”, “Viva o Zé”, “Vamos levantar o copo pelo Zé Pedro”, “O Zé Pedro está vivo aqui, fod*-se”. Tó Trips, Rui Reininho, João Pedro Pais, Tomás Wallenstein, Carlão (Pacman), Manel Cruz, Manuela Azevedo, Paulo Gonzo, Paulo Franco e os Ladrões do Tempo (banda também de Tó Trips e de Zé Pedro) e Jorge Palma (autor da última citação) e o seu grupo Palma’s Gang não pouparam nos cumprimentos. No final da homenagem ao antigo guitarrista dos Xutos & Pontapés, no Super Bock Super Rock, a sua banda de sempre subiu a palco, Tim agradeceu ao festival ter-se lembrado do tributo e dirigiu-se ao público: “Como o Zé Pedro dizia, vocês são a razão para nós estarmos todos aqui”.

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O concerto de tributo começou pontual, às 21h, depois de um atraso de uma hora tardiamente anunciado pela organização. E começou com “London Calling”, dos The Clash, os mesmos The Clash que Zé Pedro foi ver a um festival francês em 1977, depois de uma longa viagem de comboio, ainda os Xutos & Pontapés não existiam e “Zé” era “o punk dos Olivais” num país que tinha poucos. A banda que abriu o espetáculo era a banda que, com algumas (pequenas) variações e trocas, se manteve quase até ao final. Em grande medida composto por familiares de membros dos Xutos & Pontapés, o grupo acompanhou convidados ilustres ao longo do concerto. Eis a totalidade dos integrantes da banda: Fred Ferreira (filho de Kalú e responsável pela conceção do espetáculo), Sebastião e Vicente Santos (filhos de Tim), Joel Cabeleira (filho de João Cabeleira), João Nascimento (filho de Gui), Marco Nunes (sobrinho de Kalú), António Reis Colaço e Nuno Espírito Santo.

O primeiro convidado foi Tó Trips. Vestindo — tal como muitos dos que se seguiram — uma t-shirt com a cara do músico, que morreu há menos de um ano, Tó Trips atirou-se com fúria a “Submissão” e a esses versos de rebeldia que, enumerando apenas o passado de um alinhado, eram já indício de recusas futuras: “Quando era pequeno o meu pai dizia / Olha p’ra isto que tu fizeste / É só asneiras quando tu apareces / Torna-te um homem, vê lá se cresces” ou “Eu já vi tudo / Submissão / Já comi de tudo / Submissão / Eu já fiz tudo / Submissão / Já me fizeram tudo / Submissão”. Versos escritos por Zé Pedro, cantados com emoção e garra por Tó Trips como se o guitarrista dos Dead Combo fosse um frontman natural: “Esta é para o Zé”.

[Veja no vídeo o tributo de Jorge Palma a Zé Pedro]

A homenagem prosseguiu com contemporâneos de Zé Pedro e outros músicos mais jovens. Rui Reininho foi o segundo a subir a palco, levando um sino para assinalar a “despedida”, que seria ao som de “Morremos a rir”, que compôs para Convidado: Zé Pedro, disco do guitarrista. O terceiro foi João Pedro Pais, que optou por interpretar uma canção original em vez de evocar um clássico dos Xutos & Pontapés. Explicando que se tratava de uma canção que escreveu no ano passado ao piano, a pensar no “querido amigo Zé Pedro”, o cantor de “Mentira”, “Nada de Nada” e “Ninguém é de Ninguém” apresentou a balada épica, em que canta “és do mundo, queres viver para sempre” e “és do mundo. E que mundo é este? / Os tempos hoje estão bastante diferentes”. A participação de João Pedro Pais, a primeira a fugir ao registo do rock and roll, provou que Zé Pedro não era apenas o eterno apaixonado por Keith Richards a querer conquistar o mundo com a guitarra, era um músico acarinhado por todos, que extravasava géneros musicais, idades ou ideias.

Depois dessa interpretação de João Pedro Pais, musicalmente nos antípodas do que fazia Zé Pedro e do que fazem ainda os Xutos & Pontapés, chegou um dos melhores momentos da noite. Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, subiu a palco com o sobrinho de Zé Pedro, António Colaço. Juntos, com a banda “residente” atrás, voltaram a subir o volume das guitarras com uma excelente cover de “Morte Lenta”, uma das músicas mais rock and roll dos Xutos & Pontapés, do disco 78/82. Sem grandes paragens, Carlão (ou Pacman, ex-Da Weasel) entrou em palco para dividir protagonismo com Tomás Wallenstein e os dois interpretaram “Este Mundo é Teu”, com espaço para umas rimas do rapper e cantor. “Esta letra é do Zé, portanto eu vou responder”, apontou Carlão, antes de proferir as tais rimas que pareceram evocar a dificuldade que um e outro tiveram de resistir aos vícios que enfrentaram (as drogas). Recorde-se que os Da Weasel tiveram no Johnny Guitar, antigo bar de Zé Pedro, um espaço privilegiado para começar a apresentar a sua mistura de rock, punk e hip hop. Carlão cantou ainda “Esquadrão da Morte”, da banda rock nacional, tema que, revelou, ouviu muitas vezes durante a adolescência, com o seu irmão.

Continuando no melhor dos anos 1990, musicalmente falando, o antigo membro dos Da Weasel deu lugar a Manel Cruz (vocalista dos extintos Ornatos Violeta), para aquele que foi um dos grandes momentos da noite. “Circo de Feras” foi cantada por Manel Cruz e por quase todos os que estavam, por volta das 21h40, na Altice Arena, o palco principal do Super Bock Super Rock. Isto é, por cerca de metade da sala, que esteve sempre muito despida de público. Sintomático de um dia de muito pouca afluência no festival.

Houve ainda espaço para interpretações de Manuela Azevedo, dos Clã (com “Amor com Paixão” e “Conta-me Histórias”, esta um dueto com Tim), de Paulo Gonzo, com “Aperta um Pouco Mais”, para o rock dos Ladrões do Tempo, banda recente em que Zé Pedro esteve envolvido (Paulo Franco, o vocalista, fez um brinde ao guitarrista e saiu de cena com um “Viva o Zé Pedro”) e para Jorge Palma e o seu Palma’s Gang. Lembrando que nos anos 1990 juntou-se a “dois membros dos Xutos” — Zé Pedro e Kalú — e dois elementos dos Rádio Macau — Flak e Alex Cortez –, Palma recordou o repertório da banda e cantou “Picado pelas Abelhas” e “Portugal, Portugal” para gáudio do público. Impressionante, já agora, a performance de Flak na guitarra, de um virtuosismo notável.

O grande momento, contudo, ainda não tinha chegado. Nenhum concerto de homenagem a Zé Pedro seria um concerto de homenagem a Zé Pedro sem os Xutos & Pontapés todos juntos em palco. “E agora os grandes Xutos”, foi assim que foram apresentados, e lá estiveram eles, com “Dados Viciados”, “Remar, Remar” (um dos primeiros clássicos da banda), com Cabeleira a confirmar o que já todos sabiam — que é um guitarrista absolutamente espantoso — e com Xutos & Pontapés, familiares e convidados a terminarem todos juntos em palco, com “Não Sou o Único”.

Não, Zé Pedro não era o único a olhar o céu. Não fosse o rock e as confissões dos Xutos & Pontapés ressoarem em tanta gente e nunca o falecido guitarrista seria “uma figura transversal e uma grande figura do rock and roll”, como descreveu Paulo Franco, vocalista dos Ladrões do Tempo. Mas Zé Pedro era mesmo único. Atrás do palco, a figura esguia surgia em fotografias memoráveis, algumas (pareceu-nos) ainda pouco conhecidas. Quase sempre a sorrir. Que quem esteve no palco e na plateia da Altice Arena esta noite lhe tenha tentado fazer justiça, só merece elogios. As ausências, essas, seriam sempre naturais: como disse Carlão, “houve gente que ficou chateada por não estar aqui. Se estivessem todos dava para fazer três dias de festival”.