Super Bock Super Rock

A casa de Slow J não para de crescer. O rescaldo de uma consagração no Super Bock Super Rock

Há um ano, Slow J era uma promessa no Super Bock Super Rock. Este ano, subiu ao palco principal e deu um espetáculo exemplar. "Finalmente", disse.

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

Na antevisão do concerto, escrevemos que ele responderia a uma dúvida: “Terá Slow J entrado na primeira divisão da música nacional?” A missão foi cumprida e a entrada foi de rompante. Um início com pouco público no Super Bock Super Rock, fez temer uma noite pouco memorável para o jovem rapper, músico e cantor português, mas o avolumar da plateia em poucos minutos e uma atuação de grande nível, num espetáculo preparado ao detalhe, virou o jogo. O hype está mais do que justificado.

Tudo começou com “Arte”, tema que também abre o primeiro álbum de Slow J, The Art of Slowing Down, editado no ano passado. Depois de uma longa introdução instrumental de Fred Ferreira, na bateria, e Francis Dale, nos teclados — músicos que ao longo do concerto deram numerosas provas de virtuosismo –, Slow J (João Batista Coelho) encarnou o papel de frontman de banda rock e, de t-shirt branca e calças de ganga, cantou, puxou pela voz, fez antever uma grande noite. “Fod*-se Super Bock, finalmente! Como é que vocês estão?”, atirou, depois da primeira canção, apresentada (como quase todas as seguintes) numa versão diferente da que ficou no disco. “Ma nigga, diz-me se isso é arte ou é ar de duro.” É arte, está confirmado.

Já sem a guitarra nos braços, Slow J avançou para uma nova versão de “Casa”, celebração da lusofonia (“Casa em todo o lado pode entrar quem quer / é misturado, casa é o mundo inteiro”) que, no Super Bock Super Rock, começou a capella. A plateia em pé começava a compor-se (as bancadas ainda demoraram alguns minutos a ficar preenchidas) e Slow J chamou o primeiro convidado ao palco: o rapper Nerve, que participa no tema “Às Vezes”, no qual os dois expõem vulnerabilidades (“Se o dia ’tá de sol porque é que hoje eu ’tou tão cinzento? (…) Às vezes dói mas eu escondo”, rima Slow J).

Naquela altura, o concerto estava encaminhado. Slow J, com pose de miúdo gingão mas também tranquilo e pensativo, surpreendia o público com novas tonalidades preparadas para as suas canções mais antigas (algumas têm apenas um ano, mas o crescimento do músico e tudo o que lançou posteriormente mostram que um ano pode ser muito tempo) e prosseguiu com as rimas de “Comida”, proferidas já junto do público.  Slow J não é apenas um rapper e quer figurar no mais genérico campo da “música portuguesa”. Tem temas mais rock, baladas delicadas, refrões orelhudos. Mas as rimas de “Comida” mostram que se sente peixe na água a disparar versos no microfone, com a respiração e o fôlego exemplarmente controlados.

ANDRÉ CARRILHO/OBSERVADOR

“Quero que vocês hoje se sintam em casa”, atirou o músico, com o entusiasmo no público a crescer. Um entusiasmo a que Slow J respondeu com uma “Biza” apresentada em formato diferente, com o teclado de Francis Dale a substituir o saxofone que se ouve na versão de disco e com este a dar um verdadeiro show numa jam a dois com o baterista. De sorriso rasgado, o músico pediu: “Liguem-me as luzes, deixem-me ver esta gente”. Luzes ligadas, reação imediata: “F*da-se… É um prazer estar aqui hoje com vocês. Obrigadão por terem vindo”.

Até aqui, o concerto merecia um “bom”. Mais maduro, conduzindo melhor o espetáculo, também pelo crescimento musical que o trio que lidera teve no último ano (a química entre baterista, teclista e cantor/rapper/guitarrista é hoje muito mais notória), Slow J estava a cumprir o prometido. Mas as grandes novidades face à atuação do ano anterior ainda estavam por chegar. A primeira foi “Water”, sucesso que gravou recentemente com Richie Campbell. Campbell foi a palco e o público cantou o tema em peso. A segunda novidade apareceu logo a seguir, com mais um convidado, este mais inesperado.

O momento, percebeu-se logo, era importante. “Hoje vou cumprir um sonho, Super Bock. Vocês não se importam, pois não?” À pergunta retórica, seguiu-se uma revelação também anunciada há poucas semanas no Rock in Rio por Pacman: “Pude fazer uma música para o álbum do Carlão”. O antigo membro dos Da Weasel, que fazia anos esta sexta-feira, apareceu em palco, apresentou o tema novo (um rap-rock que adapta a tempos modernos a melhor fase da “doninha”), chamou ao mais jovem “Slow motherfucking J” e disse estar “muito contente” por estar ali, no dia do seu aniversário, “a fazer uma coisa de que gosto com um gajo tão talentoso da tuga”.

Carlão ainda está no ativo mas já tem descendentes à altura. Slow J provou-o com “Fome”, tema posterior ao seu álbum que tem como objetivo motivar ouvintes mas cujos versos “Vais ser gigante” poderiam ser autobiográficos. Enquanto ao nosso lado um rapaz de camisa cantava as letras todas mas dizia que era “o tipo mais beto daqui”, Slow J convidava os rappers e cantores Papillon e Plutonio para apresentarem ao vivo um tema cujo instrumental é de sua autoria. “Iminente” pôs a plateia da Altice Arena a saltar e dançar uma festa afro e levantou as bancadas.

“É o suficiente? Podemos ficar por aqui?”, perguntou o músico. “É uma brincadeira, esse momento vai chegar mas não é já”, apressou-se logo a esclarecer, antes de voltar a pedir que ligassem as luzes para poder “ver até lá ao fundo”. Afinal, estavam ainda por chegar o single “Vida Boa” (cantado em saltos pela plateia), o tema “Sado” (com nova jam dos seus músicos merecedora dos maiores elogios), a balada “Serenata” (que o público acompanhou com a voz) e mais um tema que Slow J não apresentou no ano passado neste festival: o recém-lançado “Nunca Pares”, gravado com Stereossauro, com Papillon e Plutónio. Os dois últimos voltaram ao palco para o cantar.

As últimas palavras de Slow J foram um agradecimento: “Muito obrigado, do fundo do coração. Foi um prazer poder estar aqui com vocês”. A última música, que ficou a tocar já sem ninguém no palco, foi “Mun’Dança”, que encerra o único álbum do músico e que, esta sexta-feira, terminou um concerto memorável. Memorável não apenas pela comunhão com o público — a Altice Arena não esteve cheia, nem de perto, mas esteve bem composta para um concerto de abertura — mas também pela capacidade que Slow J evidenciou de continuar a crescer passado um ano. Mais maduro, mais competente na relação que estabelece com os seus músico, surpreendendo pelas novas versões das canções e sem quaisquer erros técnicos, o espetáculo do segundo dia do Super Bock Super Rock foi preparado ao pormenor e correu exemplarmente bem. Perfeito, só quando Slow J somar mais canções de grande nível às atuais, o que lhe permitirá um alinhamento ainda mais forte. Para já, a casa de “J” não para de crescer e a entrada na primeira divisão da música portuguesa está mais do que confirmada.

[A crítica ao concerto de Slow J no ano passado, neste mesmo festival:]

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