O pedido surgiu perto da hora do almoço, quando a jornada eleitoral ia a meio. “Prezados, em caso de problemas com a urna filmem, de preferência gravem lives e falem o Estado e zona e secção onde está ocorrendo o problema.” O apelo foi feito no Twitter por Eduardo Bolsonaro, terceiro dos cinco filhos do candidato à presidência da extrema-direita Jair Bolsonaro — e também ele candidato à reeleição como deputado federal pelo estado de São Paulo. À altura, pouco importava para Eduardo o facto de estar a apelar aos brasileiros para que cometessem a ilegalidade de filmar o voto dentro da cabine eleitoral, ato punido pela Lei Eleitoral 4737/65. O mais importante, pensava, era denunciar a “fraude” eleitoral que poderia estar a ser preparada para prejudicar o seu pai.

Foi uma das muitas declarações polémicas de Eduardo, nenhuma das quais o prejudicou nesta eleição. Bem pelo contrário: Eduardo Bolsonaro não só foi reeleito em São Paulo, como bateu o recorde que antes pertencia ao candidato nacionalista Enéas Carneiro de deputado federal mais votado da História do Brasil — os seus 1,81 milhões de votos deixaram bem longe os 1,57 milhões alcançados por Carneiro em 2002.

Menino do Rio, Eduardo sempre foi um bon vivant de quase metro e noventa, adepto de desporto e até modelo da agência Elite. A sua postura pública, contudo, não destoa em nada da do pai: afirma nunca ter consumido drogas, admite que não vai regularmente à Igreja mas define-se como crente e, embora solteiro, destaca a sua heterossexualidade como sendo um ponto positivo.

Eduardo Bolsonaro numa ação de campanha (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Eleito deputado federal em 2014, por São Paulo, Eduardo tem vindo a defender na Câmara dos Deputados uma série de projetos à direita: diminuição da maioridade penal, proibição do aborto e a criminalização do comunismo. Nos mesmos quatro anos em que exerceu pela primeira vez o poder, o deputado conseguiu um aumento de mais de 400% no seu património, que justificou com a subida do salário e a compra de um apartamento.

Polícia Militar de profissão, defende frequentemente as forças de segurança e o porte de arma. Em 2014 deu nas vistas ao subir a um carro de som durante uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff com uma arma à cintura. E, durante esta campanha eleitoral, chegou a reagir a um vídeo de campanha de Geraldo Alckmin prometendo “mudar o sistema corrupto, nem que seja na bala” — acabando, no entanto, por se arrepender e apagar o tweet em questão.

À semelhança do pai, Eduardo não tem papas na língua. Na manifestação de apoio a Jair Bolsonaro, no mesmo dia dos protestos contrário que pediam #elenão, o filho discursou na Avenida Paulista e atacou as mulheres que saíram à rua contra o pai recorrendo a linguagem muito colorida: “As mulheres de direita são mais bonitas que as da esquerda. Elas não mostram os peitos nas ruas e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene”, sentenciou.

Flávio, o primogénito que apoia sempre o pai

O irmão mais velho de Eduardo, Flávio Bolsonaro, não vai tão longe nos insultos aos adversários, mas também tem a sua quota parte de polémica. O advogado e deputado estadual desde 2003 não teve pejo, por exemplo, em defender os candidatos a deputado que tiraram uma fotografia a rasgar uma placa de homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada a tiro este ano.

Eles restauraram a ordem na placa que era de homenagem ao Marechal Floriano. O PSOL [partido de Marielle, de extrema-esquerda] acha que está acima da lei e pode mudar nome de rua na marra. Eles só tiraram a placa que estava lá ilegalmente”, declarou.

Muitas vezes definido como o mais moderado dos três irmãos Bolsonaro que enveredaram pela política — Carlos, o segundo mais velho, é vereador —, Flávio faz muitas vezes declarações onde tenta clarificar as posições do pai. Referindo-se, por exemplo, às declarações polémicas de Jair Bolsonaro sobre a homossexualidade, que no passado classificou como motivo de vergonha a possibilidade de ter um filho gay, Flávio explicou numa entrevista que “não se trata de homofobia”, mas sim de um contraponto à “apologia” da homossexualidade: “O normal é ser heterossexual. Duvido que algum pai tenha orgulho em ter um filho gay, tentou explicar.

Na mesma entrevista, o primogénito apoiou ainda o pai no que diz respeito à defesa da ditadura militar brasileira: “Naquele tempo havia segurança, havia saúde, educação de qualidade, havia respeito. Hoje em dia a pessoa só tem o direito de quê? De votar. E ainda assim vota mal”, concluiu.

Neste dia de eleição, o irmão mais velho do clã Bolsonaro voltou a não ter papas na língua: no Twitter, publicou um vídeo de uma alegada urna com problemas eletrónicos, que estaria a dar votos a Fernando Haddad mesmo quando se votava em Bolsonaro. “Está acontecendo diante dos nossos olhos”, escreveu. O Tribunal Superior Eleitoral, contudo, acabaria por classificar o vídeo como falso — e Flávio, tal como o irmão quando falou de mudar o sistema “na bala”, apagou o tweet original.

Outra semelhança com Eduardo surgiu no final da noite eleitoral. Afinal de contas, a acusação de fraude eleitoral não prejudicou em nada a eleição de Flávio, que conseguiu sair vencedor na sua primeira corrida ao Senado: ao todo, obteve mais de quatro milhões de votos no Rio de Janeiro, o que corresponde a 31%. É caso para dizer que, no mar agitado que é a política brasileira atual, estes filhos de peixe sabem nadar.

[Veja o vídeo: A eleição da contrainformação]