Crítica de Livros

Gonçalo M. Tavares em busca do espanto perdido

Ao longo de "Cinco Meninos, Cinco Ratos", o objectivo não parece ser outro que não o de eliminar explicações que normalmente nos cegam e que impedem que sejamos surpreendidos seja pelo que for.

PAULO CORDEIRO/LUSA

Autor
  • João Pedro Vala

Título: “Cinco Meninos, Cinco Ratos”
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Bertrand
Páginas: 224
Preço: 16,60€

Em Cinco Meninos, Cinco Ratos, o segundo volume das mitologias de Gonçalo M. Tavares, encontramos alguns momentos em que imaginamos compreender uma alusão histórica escondida por detrás do universo mitológico que, à parte desses breves instantes, parece estar a ser construído de raiz. Achamos que encontramos uma alusão a Israel na história do Povo-Inteiro ou à Alemanha Nazi no massacre dos Homens-Com-a-Cabeça-Perto-do-Chão às mãos dos Combatentes. Mais tarde, suspeitamos que na peculiaridade do nome de Ber-lim se esconda uma referência ao muro e à Guerra Fria e, já em desespero, desejamos que ao menos os cinco meninos que dão título ao livro possam ser iluminados pela história dos filhos homónimos dos Romanov. No entanto, Gonçalo M. Tavares rapidamente nos retira o conforto da familiaridade e abandona-nos ao mais absoluto espanto (em certo sentido, esperar alguma coisa minimamente parecida com um romance histórico vindo de Gonçalo M. Tavares é tão peculiar como desejar ter Teixeira de Pascoaes a comentar a actualidade na televisão).

Na citação de Walter Benjamin que encerra o primeiro volume das mitologias, lê-se que “todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece na superfície da Terra. E no entanto somos cada vez mais pobres de histórias de espanto. Isso deve-se ao facto de nenhum acontecimento chegar até nós sem estar já impregnado de uma série de explicações.” O objectivo de Gonçalo M. Tavares ao longo de Cinco Meninos, Cinco Ratos não parece ser outro que não o de eliminar essas mesmas explicações que normalmente nos cegam, para nos devolver o espanto perdido.

O trabalho do escritor surge assim, nas mitologias, não como um esforço de criação mas de remoção. Desaparecem as explicações habituais para os comportamentos das personagens, desaparecem as delimitações que estabelecemos entre o que pode ou não constituir uma personagem, desaparecem as consequências das acções, desaparecem os inícios e desaparece o fim da história.

Repetidas vezes ao longo das vinte histórias que constituem o livro, somos informados acerca da violência com que a Velocidade é utilizada para enlouquecer e torturar as personagens. Esta violência é tão extrema que, em alguns casos, loucos, “após serem submetidos à Velocidade do Comboio, chegam a um ponto tal de consciência que perdem a noção de fome, como se ter fome fosse algo semelhante a perder memória — mas é bem mais grave. Esse corpo não esquece apenas datas e nomes, esquece o início, a origem primeira, o que esteve na base de tudo, até do Comboio, esquece o organismo, este animal que sabe bem o que é importante” (p.149). Gonçalo M. Tavares parece, portanto, apostado em obter, com a sua escrita, os mesmos resultados que o Comboio obtém com a Velocidade: fazer-nos esquecer o início, a origem primeira, a base de tudo.

A violência extrema deste universo mitológico é, no entanto, absolutamente impotente. A primeira frase da história introdutória de Cinco Meninos, Cinco Ratos (“Ber-lim leva atrás de si a Avestruz que acabou de comer parte do cérebro da Mulher-Ruiva” (p.10) aponta desde logo para uma violência que se repetirá inúmeras vezes ao longo das restantes histórias. No entanto, desta violência nenhuma consequência advém. Vemos personagens levarem tiros com a arma encostada à sua cabeça a surgirem, sem qualquer informação adicional, pouco depois numa consulta de oftalmologia; vemos personagens que escapam incólumes à alegadamente aterradora Zona-de-Morte; vemos baleados que sobrevivem apenas para serem enforcados algumas páginas mais à frente e que ainda assim não morrem; vemos homens que escapam ilesos ao atropelo da sua própria cabeça pelo temível Comboio; vemos personagens cujo cérebro serve de repasto à Avestruz sem que nenhuma consequência neurológica ou vital daí advenha. Como é dito em A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, “todos tremem, todos são mortos. Pelo menos, é isso que parece” (p.51).

Esta impotência generalizada não acontece, todavia, apenas em relação à morte. O Homem-do-Mau-Olhado é descrito como uma personagem tão temível que, ao olhar de frente o Caçador, sabe “que o tempo, a forma e a intensidade com que já olhou, mesmo só com um olho, é suficiente para que o Caçador tenha já, desde aquele momento, a vida partida em dois. Tudo mudará, aquele olhar não deixa nada atrás: amaldiçoa, faz adoecer, tortura, mata; tudo de mau irá acontecer àquele homem que agora tem uma arma na mão, uma espingarda de caça” (p.25). No entanto, deste olhar, pelo menos neste volume, nada resulta, tal como nada resulta do olhar que o Homem-do-Mau-Olhado lança a Olga e ao Povo-Inteiro, por meio dessa acção rebaptizado de Povo-Já-Amaldiçoado.

Talvez (diante da mitologia de Gonçalo M. Tavares é um erro livrarmo-nos destas marcas de incerteza) a chave de leitura certa para Cinco Meninos, Cinco Ratos esteja na personagem de Anastácia. A mais nova dos cinco meninos está constantemente a desaparecer de ao pé dos irmãos. No entanto, este desaparecimento nunca justificado não deixa em pânico, ao contrário do que seria de supor, os quatro Romanov, já de si também perdidos. Todos estes desaparecimentos são concluídos com o abrupto regresso de Anastácia apenas para que Anastácia (cujo nome talvez não por coincidência significa Ressurreição em grego) se volte novamente a perder.

A dificuldade de analisar um livro de Gonçalo M. Tavares talvez possa ser melhor compreendida se olharmos para “Uma Gota”, o conto de Buzzati onde se narra a história de uma gota que, em vez de descer as escadas obedecendo à gravidade, sobe. Buzzati conclui o conto com dois parágrafos que permitem descrever Cinco Meninos, Cinco Ratos de uma forma muito mais acertada do que foi feito no artigo acima. Escreve Buzzati:

“# então, insistem, será por acaso uma alegoria? Querer-se-á, por assim dizer, simbolizar a morte? Ou algum perigo? Ou os anos que passam? Nada a fazer, senhores: é simplesmente uma gota, só que sobe pelas escadas.

Ou, mais subtilmente, pretende-se figurar os sonhos e as quimeras? As terras imprecisas e longínquas onde se presume a felicidade? Algo poético, em suma? Não, absolutamente não. Ou os lugares mais longínquos ainda, no fim do mundo, aonde nunca chegaremos? Mas não, digo-vos, não é uma brincadeira, não há duplos sentidos, trata-se, felizmente, apenas duma gota de água, tanto quanto é dado entender, que de noite vem pelas escadas acima. Tic, tic, misteriosamente, de degrau em degrau. E é por isso que temos medo.”

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