Há sempre estações de serviço a intervalar as auto-estradas. São precisas. Uma água, dois pacotes de pastilha pelo preço de um, um café para não adormecer ao volante, uma sandes horrível de pão-de-forma. FM!, o novo disco de Vince Staples, é uma espécie de paragem do rapper de Long Beach, Califórnia, uma pausa a caminho de mais destinos, outras gravações. É que FM!, ainda que seja a terceira ediçao do artista – depois de Summertime ’06 e Big Fish Theory – soa mais a EP que outra coisa.

Vamos a contas: 11 faixas, apenas 22 minutos de música, três interlúdios e oito canções, cuja mais extensa chega apenas aos três minutos e oito segundos. São factos. Factos que nos forçam a dizer que isto é mais um projeto especial, a tal paragem para café, do que um disco. E um post no Instagram de Staples explica tudo muito bem.

Este é um objeto feito para “o seu maior fã”: ele mesmo. A isto acrescente-se que o título também o comprova. É quase como uma emissão de rádio, que conta até com a participação de Big Boy, radialista do famoso programa de Los Angeles “Big Boy’s Neighborhood” no lançamento de alguns momentos do disco, como aquele onde se anuncia que vem aí nova fruta de Earl Sweatshirt.

O conceito é o do “faço-o-que-quero-e-bem-me-apetece”, que além de cimentar a pluralidade do rap (já se fazem promoções de artistas em discos de outros artistas), dá-nos a conhecer outro lado da pirâmide que é Staples. Mas atenção, que se lixe o conceito, a música continua lá, em formato de faixa, temos de continuar a carregar no play, a escutar as letras, a dançar os instrumentais. E FM! é mais um objeto maravilha que proporciona esses belos momentos clássicos de consumo musical.

E se contextualizarmos estas novidades no trajeto de Staples depressa percebemos que FM! é a sua saída da discoteca, já de manhã, depois de um Big Fish Theory embebido em pista de dança, um rap de club, com o baixo no máximo. É, no limite, o final da festa, a que se segue, pelo menos olhando para a capa do disco, uma ida à praia, onde – oiça-se “Feels Like Summer”, com Ty Dolla $ign e “Outside!” – ainda há resquícios da eletrónica, da noite passada, apontamentos que nestes instrumentais dão a volta à ideia de cave com gente drogada a curtir, a ideia de caverna, e estão mais próximos de um jogo de vólei com uma rede meio frouxa ao largo da Califórnia.

A capa de “Fun!”, de Vince Staples

Mas a manhã, como sempre, não é manhã para sempre. Vira almoço entretanto, programas da tarde, histórias dramáticas, depois. Quase como “Don’t Get Chipped”, terceira canção do disco a meias com Jay Rock, onde Staples versa sobre as origens, o tal “vim lá de baixo e agora estou aqui”. E de como essa aproximação, essa subida, pode não ser das digestões mais fáceis de gerir: “Everybody say it’s lonely at the top”.

“Relay” é um dos melhores temas do disco, com um instrumental desconcertante, quase um piano digital e sinistro onde se depreende, através das palavras de Staples, que a vida de rua pode ser perigosa. Uma espécie de conselho, não fiques muito tempo sentado nessa esquina que ainda acabas mal. Isto vindo de quem sabe. De quem as viveu.

“Run the Bands” é outro belo momento. É uma faixa com um espírito quase funk, mas um funk menos dançante e mais filosófico, menos James Brown, mais Jesse Owens, atleta olímpico norte-americano, considerado um dos maiores velocistas de sempre, que Staples faz questão de mencionar, para a ele se equiparar. As ruas não param, melhor: nas ruas não há folgas, há turnos. Canção onde ainda aproveita para voltar à condição de artista consagrado, com a conta bancária cheia, para comparar a sua casa ao ego de Kanye West: ambas precisam de uma lipoaspiração, diz.

Depois chegamos a “FUN!”, sétimo capítulo deste episódio especial radiofónico. E aqui o instrumental é um convite para uma dança de ancas, bem sensual, a pedir suor, empenho e muita diversão. É aliás aqui que temos que dizer que Staples abandonou a discoteca, mas não o gosto pela diversão. Fala-nos de Christian Dior e de peixo-gato num Ritz japonês, palavra de quem dá muitos concertos pelo mundo. E o refrão é curto e grosso:

“We just wanna have fun
We don’t wanna fuck up nothin’”

Vince Staples já tinha afirmado não beber nem fumar, que o seu desejo de curtição, que a sua forma de festa não é bem o que estamos habituados a ver neste meio, dispensa álcool e drogas, pode ser apenas um grupo de gente a dançar livremente. E isso não deixa de ser “FUN!”.

Até os interlúdios que nos fazem desaguar na canção-desfecho — “Tweakin’” — são fun, são divertidos. Com mais um anúncio deste programa de rádio, mais umas frases soltas do rapper Tyga, que devem poder ser ouvidos em greve. A faixa seguinte é um daqueles jogos de rádio para queijinho, ou direito a disco-pedido, ou duas raspadinhas. E em “Tweakin’”, com a participação da voz-sonho de Kehlani, Vince conta amigos mortos, quantos amigos já caíram sobre as ruas. Perdas que nenhum disco, nenhum sucesso, nenhum dinheiro pode reparar. O momento mais triste do disco, seguramente. De resto, já se sabe, é fazer a festa. Melhor: saber fazer a festa. E Vince Staples, na farra, é um campeão.