Rádio Observador

Crítica de Música

Ver Hollywood arder na intimidade

"Bandana" é o novo disco da dupla formada pelo rapper Freddie Gibbs e pelo produtor Madlib. Um desabafo melancólico anti-elites, contra aquela conversa do “és melhor do que isto, tu consegues”.

O Freddie Gibbs (na fotografia) voltou a juntar-se ao produtor Madlib para criar "Bandana"

Getty Images

Autor
  • Miguel Branco

É preciso ter tomates. Perdoem a violência, mas há momentos na vida em que só uma linguagem viril nos serve os intuitos. E preferimos isto do que optar por omissões como “é preciso tê-los no sítio” — os tomates, no fundo, não têm culpa. Horta fora para dizer que depois de Piñata (2014), primeiro longa-duração criado pelo rapper Freddie Gibbs e pelo produtor Madlib, um disco-eterno, genial, praticamente perfeito, é quase estúpido tentar novamente. Isto na lógica da saída em grande, levados em braços, sob o vento criado pelas folhas de palmeira abanadas por escudeiros fiéis. Mas será que essa pose é coisa que agrade a esta dupla? Pois, provavelmente não.

A imagem de triunfo final sustentada por Piñata foi talvez algo que nunca quiseram. Não, não é hipocrisia. Claro que toda a gente gosta de um elogio, uma palmada nas costas, um continuem-o-bom-trabalho, mas esse lugar do Olimpo, esse pedestal, não é para eles, que provavelmente, se lá estivessem, estariam a escrever sobre a escadaria até lá chegar, a paisagem e envolvência, os servos sofredores dos deuses. E assim se esquece – mentira, brincadeirinha, isso é impossível — Piñata. Não, assim se vai parar a Bandana, segundo disco de estúdio da dupla também conhecida por MadGibbs.

A justificação anti-herói aparece logo na capa. Ora contemple-se, como faz Quasimoto – alter-ego criado em animação por Madlib – que monta uma zebra (referência animal que se liga com a capa de Piñata) enquanto vê Hollywood a arder, atrás do letreiro já meio tombado. Holofotes é que não, eles são mais cimo da colina a ver os ricos a ficarem sem casa e o sistema que sempre os empurra para as ruas e para a marginalidade a ruir. A introdução, de 29 segundos, chama-se “Obrigado”, ainda que seja uma voz em sotaque inglês do Japão, nada de Portugal.

Seguem-se três canções que provam que Freddie Gibbs nunca vai sair da esquina dos dealers, nunca vai largar o alcatrão que o faz gangster. “Freestyle Shit” é também a certeza de que o rapper de Gary, Indiana, consegue chutar rimas por cima de todo o instrumental, que neste caso podia ser coisa de Big Band mais polida, Small Band, vá. Prosseguimos na droga de “Half Manne Half Cocaine”, que é das canções mais brutas do disco, o loop da adição – estou bem melhor vs. preciso de lá voltar –, uma sobrevivência e realidade maior do que quem canta isto. E a quarta e brilhante canção “Crime Pays”, um genial instrumental de Madlib, que parece estar entre música de sala de espera e um genérico de série de enredo familiar ou esperança-é-a-última-a-morrer. Ainda que aquilo que Freddie Gibbs nos cante seja outra coisa — que essa conversa condescendente que diz toda a gente consegue sair do bairro e mudar para uma vida melhor, que toda a gente consegue dar a volta, é treta, sobretudo em contextos de pobreza enormes e bastante fáceis de encontrar por todos os EUA. E mesmo quando se muda e se arrisca, não se fica bem. Ou seja, é-se escravo no bairro e é-se escravo fora dele.

O génio de Madlib – que já agora, diga-se, produziu todos estes quinze beats no seu iPad,só para provar que o objeto com que se cria é meio relativo – guia-nos, com raras paragens em realidades e sugestões mais agitadas, para um universo profundamente mais melancólico, talvez fatalista, do que aquele que era oferecido por Piñata. “Palmolive” (feat. Pusha T & Killer Mike), uma das mais incríveis canções aqui presentes, é quase soul com azedume de rapper irónico. É belo. É duro. Um falsete presente lá ao fundo da canção para nos relembrar que a harmonia tem este efeito agridoce: tão bonito quanto triste.

Há uma intimidade impossível de esconder, um ambiente quase confessional, que sempre foi uma das armas de Freddie Gibbs, sobretudo no que às letras diz respeito, sempre deixou ver os seus erros, sempre levantou o véu sobre as suas feridas, algumas auto-infligidas, que cura com discos abertos, de discurso livre. Mas essa melancolia do erro nem sempre significava flows de baixa cadência, pelo contrário, assumiram várias vezes o vestido da raiva, só que aqui em Bandana, Madlib parece ter empurrado Gibbs para essa zona menos alta e intensa, como se lhe dissesse qual é o tom em que ele tem que desabafar. Ainda que depois, claro, o doutor Madlib também dê o outro lado. Também ele quer que o tratamento se lixe, também ele quer mais ritmo, como na incrível “Flat Tummy Tea” ou em “Giannis” (feat. Anderson .Paak).

Ou seja, ainda bem que houve tomates. Ainda bem que a vontade de ver Hollywood arder foi maior que o medo de falhar. Piñata, Bandana, que venham mais.

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