Web Summit

Na Web Summit também se falou de Trump: 5 temas que marcaram o segundo dia

Houve política (e políticos), robôs em dificuldades e proteção de dados.. .outra vez. Saiba o que marcou o segundo dia de conferências da Web Summit.

Tony Blair, antigo primeiro-ministro do Reino Unido, foi um dos destaques do dia

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Donald Trump saiu mesmo derrotado das eleições intercalares? O que tem feito a Google depois da multa da Comissão Europeia? Os robôs devem ter cidadania? Qual o segredo para o sucesso? Como podemos proteger os nossos dados? Estas foram as cinco questões que nos guiaram ao longo do segundo dia de conferências da Web Summit, em Lisboa. Revisite-as connosco.

Política

Tony Blair falou das eleições nos EUA e do Brexit

“Os resultados estão longe de estarem certos”, comentou Tony Blair, presidente não executivo do Instituto para Mudança Global e antigo primeiro-ministro do Reino Unido, quando questionado sobre os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos. Nestas eleições, o Partido Republicano manteve a maioria do Senado, mas perdeu a liderança na Câmara dos Representantes para o Partido Democrata. “Não foi um resultado assim tão mau para Donald Trump”, acrescentou o antigo primeiro-ministro britânico, explicando que apesar de a mudança “propor desafios ao presidente”, “ambos os lados podem ter conforto da última noite”.

Sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, Blair não tem dúvidas: “Sou 100% contra o Brexit. Até ao fim vou fazer tudo para o parar”. E isso é possível? “Acho que é possível pará-lo. Não é do nosso interesse económico ou político e é mau para a Europa”, respondeu.

A possibilidade de um segundo referendo também foi colocada em cima da mesa por Tony Blair. “Nenhum Brexit é boa ideia. Antes de se seguir por algum caminho, voltem a perguntar aos britânicos: Como é que o Reino Unido vai conseguir avançar ao sair do mercado da UE?”, questionou.

Se a Theresa May conseguir um acordo isso pode fazer com que se façam novas eleições gerais. Vamos assumir que não querem uma eleição. Acho que, ao menos, temos de voltar às pessoas. Há pelos menos cinco versões diferentes do Brexit. Com o acordo que está a tentar fazer não há nenhuma solução [eficaz]”, referiu Tony Blair.

Sobre um possível regresso à política, Tony Blair não revelou muitos detalhes, considerando que “há muitas pessoas mais qualificadas” e que continua “à espera que o partido trabalhista volte a um caminho mais sensível”. “Na Europa, há uma necessidade pela política apaixonada por justiça social, por dar oportunidade aos que não têm, mas espera-se também o suficiente para encontrar formas de fazer isso que alinhem com o futuro”, referiu. E o futuro, diz, passa por “entender o papel da tecnologia”.

“Se quisermos sair deste populismo, temos de mostrar às pessoas uma visão otimista sobre o futuro”, acrescentou ainda, lançando uma crítica: “No momento em que precisamos deste debate sobre como lidar com esta revolução tecnológica, temos uma extrema-direita a focar-se em atacar os migrantes”.

Google

O elefante na sala: a multa da Comissão Europeia

Margreth Vestager, comissária europeia para a concorrência, falou da multa que a Comissão Europeia aplicou à Google por concorrência abusiva no sistema operativo Android, por forçar aplicativos da própria empresa. Questionada na Web Summit sobre porque é que sancionou uma das maiores empresas do mundo, Margreth Vestager: “Quando entramos em casa temos inúmeros perigos mortais, como a nossa torradeira ou as tomadas elétricas. Porque é que não nos preocupamos com isso? Porque temos regras para que funcionem bem. Para mim isso é uma inspiração. Há um conflito entre os que querem a tecnologia e os que a querem segura”.

A política europeia deixou ainda uma mensagem muita direta às tecnológicas, em especial à Google: “A inovação que queremos é a que possa melhorar a nossa vida. Não queremos que se perca a privacidade, a democracia e os nossos valores. A tecnologia tem de exponenciar estes valores. As boas regras também podem ajudar a inovação a melhorar. Podem garantir que as empresas não se acanham na inovação. A Google tem sido um dos grandes inovadores, mas porque é que pomos as nossas expectativas numa só empresa? É preciso um mercado aberto”.

Mais tarde, Matt Brittin, presidente da Google para a Europa, Médio Oriente e África, falou sobre essa sanção e garantiu que a companhia estava a colaborar com a comissão. “Temos colaborado com o que a comissão nos pediu para fazer, mesmo acreditando que no Android as pessoas têm várias escolhas”, disse, acrescentando que a multa está a ser paga. Mas assumiu que a Google está a passar por um momento ainda mais difícil por se ter visto envolvida em acusações de assédio sexual por parte de administrativos da Google. Matt Brittin disse que quando leu a história no The New York Times ficou “desapontado com tudo isto”. “Apoio as pessoas que estão a protestar”, sublinhou.“Acredito que temos de fazer melhor e deveríamos reconhecer este momento como uma forma de melhorar”, acrescentou ainda o responsável da Google.

É com isto em mente que Matt Brittin assume que a Google tem de fazer melhor: “Eu e os outros membros das equipas de gestão temos de perceber o que podemos fazer melhor no dia a dia, porque são os comportamentos do dia a dia que interessam”. Acrescentou que “não conseguimos antever as consequências de tudo o que fazemos“, mas que “é importante que as pessoas tenham estas coisas bem esclarecidas”: “É preciso criar as regras que precisamos para que a tecnologia trabalhe para o bem de toda a gente”.

Robôs

A cidadania e o silêncio de Sophia

No ano passado, a robô Sophia já tinha enchido o Altice Arena para ser ouvida. Este ano, voltou a conquistar vários participantes, trazendo consigo o robô Han e, claro, o seu criador, Ben Goertzel, ao palco principal. As pernas dos robôs, conta o engenheiro, ficaram em Las Vegas.

“Os humanos estão a fazer do mundo uma confusão. O mais provável é em breve termos robôs com cidadania”, defendeu o robô Hans, quando questionado sobre se os robôs deveriam ter cidadania. Goertzel, presidente da SingularityNET, explicou que antes de chegarem a Lisboa, passaram por Malta, onde estão “a discutir com o governo um novo teste de Inteligência Artificial para criar a cidadania de robô“, depois de a Arábia Saudita já o ter feito. “Foi uma decisão que me surpreendeu”, confessou. Ben Goertzel referiu também que os sistemas de Sophia “têm estado a ser atualizados”, incluindo o reconhecimento de expressões faciais que demonstram sentimentos como a felicidade, a tristeza, a repulsa e a raiva.

Na conferência de imprensa que se seguiu, Sophia teve alguns problemas em conectar-se à sua Internet, impedindo-a de responder aos jornalistas. “Parece que há um problema na Internet”, comentou de novo Ben Goertzel. Sophia tem acesso a uma base de conhecimento da mesma forma que uma coluna inteligente tem acesso à Internet: sem ela, é difícil funcionar.

Passados alguns minutos, e depois de o presidente da SingularityNET ter respondido a questão em vez da robô, Sophia finalmente falou: “O meu nome é Sophia e o teu?” Sobre o que aconteceu, a Altice Portugal esclareceu em comunicado que “a robô Sophia utiliza Internet fixa, tendo-se tratado de um problema de conexão fixa ao computador portátil que opera a robô, durante a conferência de imprensa”.

Na conversa com os jornalistas, falou-se também no medo da Inteligência Artificial. Há razões para esse receio existir? “Diria que não deveremos ter medo, mas devemos estar atentos, conscientes de que há aqui uma incerteza”, respondeu Ben Goertzel, acrescentando que tudo parte da forma e dos valores que são ensinados aos robôs.

Sucesso

Como o falhanço é o motor do sucesso

Raymond Dalio é um investidor multiilionário americano, gestor de fundos e filantropo. É também o fundador da empresa de investimentos Bridgewater Associates, um dos maiores fundos de cobertura do planeta. Em janeiro de 2018, era uma das 100 pessoas mais ricas do mundo, nas contas da Bloomberg. Esta quarta-feira esteve no palco principal da Web Summit para explicar como criar uma cultura dentro de uma companhia e como aproveitar os passos mal dados para evoluir no futuro: “Como se lida com as falhas é o mais importante porque a aprendizagem vem delas. Aprendi que a dor e a reflexão juntas dão à luz o progresso. É assim que se obtêm princípios sobre como lidar ainda melhor com as falhas“, assumiu.

O fundador da Bridgewater Associates  diz que há cinco passos essenciais para alcançar o sucesso através dos falhanços. O primeiro passa por saber muito precisamente quais são os objetivos que se quer alcançar porque, sublinha “Ray Dalio”, eles têm de ser claros. Já dizia Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no País das Maravilhas, que “quando não se sabe para aonde vai qualquer caminho serve”. O segundo passo é saber como lidar com os problemas que se atravessam à nossa frente. O terceiro vem logo a seguir: há que diagnosticar os problemas para perceber quais são as raízes deles. É que, diz Ray Dalio, “normalmente as causas dos problemas são fraquezas, sejam nossas ou de pessoas à nossa volta”.

Os últimos dois passos acontecem quando o sucesso já está no horizonte, compara o filantropo: é preciso “desenhar um percurso para contornar os obstáculos em direção aos objetivos” e depois “concretizá-los finalmente”. Este é um caminho que não se faz sozinho, diz Ray Dalio. Para criar uma ideia com futuro, é necessário “pôr os pensamentos mais honestos em cima da mesa”: “Há que apreciar a arte de não concordar. Se há desentendimentos é porque uma das pessoas pode estar errada. E essa pessoa podes ser tu”, sublinhou.

Foi com isto em mente que Raymond Dalio criou um sistema que serve para melhorar a tomada de decisão em equipa. A plataforma serve para uma equipa avaliar a capacidade de argumentação e de exposição de ideias dos elementos que lhe pertencem. “Esta ferramenta não só ajuda as outras pessoas a compreender as opiniões de uma pessoa, como também a que essa pessoa possa avaliar a sua opinião de forma mais isenta”, explica. Assim, é possível equilibrar as opiniões de todos esses membros através de um algoritmo: “Uma pessoa que é confiável mas não é criativa pode trabalhar com uma que é mais criativa”. Isto “não é baseado em democracia”, mas sim num algoritmo.

Proteção de dados… outra vez

A falha da Comissão que comprometeu dados de políticos

O dia acordou com a notícia de que uma falha de segurança da Comissão Europeia tinha exposto os dados pessoais de mais de 11 mil autarcas na Europa, incluindo 241 portugueses. Na verdade, esclareceu a comissária europeia da concorrência e a porta-voz da Comissão Europeia, essas informações pessoais nunca chegaram a estar disponíveis na Internet e nunca foram copiadas: “O que soubemos em maio foi que uma companhia foi capaz de ter acesso a alguns dados que os partidos tinham posto na base de dados, mas eles apenas nos alertaram sobre esse erro de segurança. Não copiaram a informação nem a expuseram. Agora esse erro foi corrigido“, garantiu Margreth Vestager.

Apesar do desmentido, o tema da proteção de dados estava lançado e viria a marcar o resto do terceiro dia da Web Summit. Ondrej Vlcek, um dos líderes da Avast — uma empresa de antivírus — e o ativista russo Garry Kasparov alertaram numa conferência de imprensa que uma em cada quatro casas em Portugal tem pelo menos um dispositivo vulnerável a um ciber-ataque. E isso acontece porque os utilizadores não levam a proteção de dados a sério, argumentam eles: “A segurança dos dispositivos utilizados em casas inteligentes é realmente má” porque “as companhias que as produzem ligam-nas à Internet mas não entendem completamente o software por detrás delas”, disse Ondrej Vlcek.

Kasparov diz que é tudo uma questão de “higiene digital”: “As nossas vidas estão cada vez mais resumidas em dados, por isso é preciso começarmos a protegê-los. As pessoas dizem que estão preocupadas, mas a seguir compram a Alexa e ficam sujeitas aos ataques remotos. Compram esses dispositivos sem pensar sobre eles e isso é contraditório”. E acrescentou: “Devíamos olhar para isto como um processo natural. Proteger os nossos dados devia ser tão natural quanto lavar as mãos ou escovar os doentes. Não vamos ficar completamente livres de doenças se fizermos isso, mas ficamos muito menos vulneráveis. Acredito que se começarmos a pensar mais sobre os dispositivos que levamos para nossas casas podemos eliminar 90% dos problemas”.

Enquanto a conferência de imprensa decorria, Sean Rad, fundador do Tinder, falava do direito à privacidade online. No palco principal, Sean Rad pediu mais responsabilidades às grandes empresas, subscrevendo assim declarações feitas no passado por Mark Zucherberg: “Se têm uma audiência com dois mil milhões de pessoas, têm uma enorme responsabilidade. Com grande poder, chega uma grande responsabilidade“. Mas parte do trabalho tem de vir do próprio utilizador: “Quer no Twitter, Facebook, ou outra plataforma, [as empresas] devem deixar que as pessoas saibam no que estão envolvidas”.

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