Os dois surfistas portugueses que disputaram esta sexta-feira a final do campeonato de ondas gigantes na Nazaré, Alex Botelho e João de Macedo, destacaram as ótimas condições existentes e a sensação única de competir na Praia do Norte.

“Foi incrível estar hoje dentro de água e alcançar a final. Foi muito bom estar em casa, com condições ótimas, uma grande ‘vibe’ [vibração] na água e um apoio espetacular do público”, disse à Lusa Alex Botelho, quarto classificado nesta etapa do circuito mundial de ondas grandes da World Surf League.

Já João de Macedo, que obteve o quinto posto, salientou à Lusa a “sensação incrível” de disputar a final desta prova. “As coisas têm que se alinhar e isso hoje aconteceu. Para que tal seja possível, além da natureza, há muita gente a ajudar”, sublinhou, acrescentando: “Para que tudo corra bem é preciso desfrutar o momento. Tentei divertir-me e não pôr demasiada pressão. E resultou!”.

O experiente big rider português considerou que a prova da Nazaré decorreu sob “condições clássicas”, destacando os tubos que permitiram “altas performances” por parte dos atletas. João de Macedo vincou ainda que ficou “feliz” por ver o compatriota Alex Botelho disputar com ele a final.

“O Alex é da nova geração, ficou à minha frente, conseguiu um resultado importante e é fantástico vê-lo a progredir”, sublinhou, deixando ainda uma palavra de conforto pelo bom desempenho dos outros três surfistas portugueses que esta sexta-feira estiveram na água (António Silva, João Guedes e Nic von Rupp), mas foram eliminados na primeira ronda.

João de Macedo deixou uma última palavra para os milhares de pessoas que invadiram a Praia do Norte: “Foi brutal o apoio do público. Estávamos dentro de água e conseguíamos ouvir os gritos de apoio. Não há palavras”.

O surfista sul-africano Grant Baker venceu a prova da Nazaré do circuito mundial de ondas gigantes, superiorizando-se aos adversários na grande final, entre os quais os dois praticantes portugueses. Baker revelou, enquanto recebia o troféu de vencedor, que veio para a Nazaré há um mês e que fez questão de surfar “todos os dias”, desde as ondas mais pequenas e ordenadas às maiores e mais desafiantes, de forma a preparar-se para o evento desta sexta-feira.

Sobre a onda que lhe valeu a vitória, uma das maiores do dia, Grant Twiggy Baker, disse apenas que quando viu a onda a ir direita a si sentiu que “tinha de ir” com tudo. “Aqui na Praia do Norte nunca se sabe onde é que a onda vai quebrar. Esperei, esperei, e, quando tive oportunidade, virei-me e fui. Foi incrível”, resumiu, depois de já ter agradecido o apoio da família, mas também dos adversários na competição. “Foi um dia perfeito. Fantástico. Já me sinto em casa na Nazaré”, rematou.

Grant Baker esteve numa forma incrível na bateria decisiva e conseguiu uma pontuação total de 25,04 pontos, deixando o brasileiro Lucas Chianca (que tinha vencido a última edição da prova) no segundo posto (23,31 pontos) e o basco Natxo Gonzalez – que obteve nas meias-finais a única nota perfeita da prova (10 pontos) – no terceiro e último lugar do pódio (22,71 pontos).

Os portugueses Alex Botelho (22,06 pontos) e João de Macedo (20,87 pontos) terminaram no quarto e quinto lugares, respetivamente, ficando à frente do australiano Russell Bierke (18,89 pontos), sexto classificado. Numa final com condições de sonho e com as maiores ondas a aproximarem-se dos 15 metros, os competidores levaram ao delírio a multidão que se deslocou à Praia do Norte para ver o “canhão” a funcionar.

Milhares de pessoas vibraram com show de surf na Nazaré

A multidão de todas as idades e nacionalidades que encheu esta sexta-feira a Praia do Norte, na Nazaré, para assistir à prova de ondas gigantes do circuito mundial de surf, vibrou com o evento que decorreu sob condições perfeitas.

“Hoje devem ter passado por aqui, à vontade, 15 mil ou 20 mil pessoas, ainda não temos os números oficiais, mas dá para ter uma ideia”, adiantou à agência Lusa Francisco Spínola, diretor geral da World Surf League (WSL) Portugal, a organizadora do campeonato.

Ainda o sol não tinha nascido e já se sentia o corropio de gente, mais novos ou mais velhos, famílias inteiras, e muitos até acompanhados pelos seus cães, todos seguiam na direção para os penhascos que rodeiam a Praia do Norte, que ficou conhecida mundialmente por ter as maiores ondas de todo o planeta.

“É uma sensação muito boa estar na Nazaré. Está um dia tão bonito, que tenho até vontade me jogar na água”, disse à Lusa a carioca Luciana, que estava acompanhada por uma amiga, também brasileira. “Nasci no Rio de Janeiro, mas moro na Póvoa de Varzim, e estou a adorar. A praia é muito bonita e almoçámos um arroz de marisco excelente”, revelou, entre sorrisos.

Já Artur e Anastasia, casal da Rússia com cerca de 30 anos, admitiram que não sabiam que era esta sexta-feira que se realizava na Nazaré a etapa do circuito de ondas gigantes da World Surf League, mas aproveitaram o passeio e não quiseram perder pitada: “Viemos conhecer a Nazaré, mas não viemos de propósito para a prova. Foi uma coincidência muito fixe e estamos a adorar o ambiente”, realçou Artur. Já Anastasia apontou para a “beleza” da vila piscatória da Nazaré, revelando que já estiveram em Lisboa e que também se renderam aos encantos da capital portuguesa.

Por seu turno, Patrick Shaughnisse, surfista californiano que se atira a ondas grandes, admitiu à Lusa que passou todo o dia a acompanhar o campeonato, mas que estava desejoso que terminasse para que ele próprio pudesse experimentar as “bombas” da Nazaré. E foi apanhado precisamente quando saiu da água, com a prancha debaixo do braço. “Vivo em Santa Cruz [Califórnia, Estados Unidos] e vim passar uma semana de férias à Nazaré para surfar ondas grandes. Estão altos tubos e está a valer a pena”, afirmou, deixando elogios ao desempenho dos big riders (surfistas de ondas gigantes) que estiveram em competição. “Foi muito louco. Aproveitei para aprender com eles”, rematou.

Claro que no meio desta autêntica multidão que esta sexta-feira se deslocou à Nazaré havia também muitos portugueses. Um deles, José Dias, 76 anos, contou à Lusa a sua experiência neste dia que vai ficar na memória de todos os que estiveram na Praia do Norte. “Sou um curioso. Moro em Alcobaça e, como sabia que ia haver campeonato na Nazaré, quis ver espreitar. Está um dia bom e digo-lhe, nunca vi isto assim, com tanta gente e tantos turistas como agora”, lançou. E acrescentou: “O americano [Garrett McNamara] que deu alma a isto merecia uma estátua em ouro no meio da vila. Antes, ninguém vinha para cá e agora a Nazaré é conhecida no mundo inteiro. Isto é excelente.”

De resto, segundo Francisco Spínola, as ondas do canhão da Nazaré, “algumas com mais de 15 metros”, não atraíram apenas os visitantes que se conseguiram deslocar a um dia de semana para assistir ao vivo ao campeonato na Praia do Norte. “Tenho indicação da WSL de que hoje o fluxo de tráfico no nosso site foi um dos maiores do ano. Em termos de comparação, posso dizer que o campeonato de Peniche [do Championship Tour (CT)] contou com 65 milhões de pageviews“, indicou o responsável, destacando que o evento desta sexta-feira foi um dos “mais desafiantes para organização”, mas que pode ser considerado como um “verdadeiro sucesso”.

E para o ano há mais.