Se no ano passado alguém arriscasse dizer que alguém seria capaz de quebrar a luta a dois que marcou a última década da Bola de Ouro, poderia estar mais ou menos errado, consoante o nome apontado para a sucessão, mas estaria sempre errado. Mesmo nos anos sem grandes sucessos coletivos, sobressaía sempre o individual. Os recordes batidos. As novas marcas que muitas vezes até a estatística a olho nu desconhecia. Uma para Lionel Messi, outra para Cristiano Ronaldo e assim andávamos sem que se visse no horizonte uma perspetiva de mudança. Este ano, tudo mudou e de forma radical. 2013 ficou como o melhor exemplo do ano em que uma equipa foi superior a todas as outras e em todas as competições mas saiu penalizada por não ter aquele elemento que faz a diferença como Barcelona ou Real Madrid tinham (Bayern, que colocou Ribery no terceiro lugar). Mas é no ano de 2010 que podemos encontrar a origem do galardão conquistado esta segunda-feira por Luka Modric.

Num ano em que José Mourinho conseguiu surpreender a Europa conquistando a Liga dos Campeões frente ao Bayern, Ronaldo ficou “automaticamente” eliminado por não ter ganho qualquer título pelo Real Madrid (e ter ficado nos oitavos da Champions) e sobrava uma das melhores versões do tiki taka do Barcelona. Ganhou o Campeonato, ganhou a Supertaça mas caiu numa batalha épica em Camp Nou, na meia-final, frente a um Inter com fama de defensivo mas que acabou a temporada a rir. Messi teve uma época boa; contudo, longe de ser melhor. O que sobrava? As competições de seleções. E uma Espanha que, depois de ter ganho o Europeu, sagrou-se pela primeira vez campeã mundial com um golo de Andrés Iniesta a quatro minutos do fim do prolongamento com a Holanda. O Ilusionista era, a par de Xavi, aquele craque mais discreto que todos elogiavam mas ninguém arriscava como “o melhor”, mesmo ficando ligado ao momento histórico do ano. No final, foi Messi que ganhou.

Iniesta falhou a conquista da Bola de Ouro em 2010, Modric conseguiu alcançar esse feito em 2018  (JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images)

Em abril deste ano, Pascal Ferré, diretor da France Football, escreveu um editorial com o título “Desculpa Andrés”, considerando que o facto de nunca ter ganho a Bola de Ouro era uma “anomalia democrática”. “É o melhor facilitador de jogo de todos os tempos. A maior parte dos contemporâneos complica o jogo, mas Iniesta divertiu-se durante 15 anos, simplificando tudo. Sem qualquer pensamento de vaidade, só o de viver o jogo. O talento é inventar para os outros. Sem ele, Messi ter-se-ia cansado muito mais rapidamente do Barcelona. Entre as grandes ausências no histórico da Bola de Ouro, a de Iniesta é dolorosa”, confessou. O contexto da despedida do Barcelona ajudava às palavras fáceis mas, mais do que tudo, estava ali um sentimento. O mesmo sentimento que justificou a histórica conquista de Luka Modric que, além de ser o primeiro croata a vencer a Bola de Ouro tornou-se ainda o primeiro a ser considerado o melhor pela UEFA, pela FIFA e pela revista francesa no mesmo ano.

Na imprensa estrangeira, sobretudo a italiana, foi-se falando nas últimas semanas da influência do Real Madrid, em específico do líder Florentino Pérez, nas grandes decisões europeias, Bola de Ouro incluindo. Por inerência, essa foi também a “justificação” para Cristiano Ronaldo, que se mudou para a Juventus no Verão numa saída ainda mal digerida no Santiago Bernabéu. E, por parte dos franceses, para “argumentar” sobre nova ausência de vencedor gaulês, mesmo num ano em que a seleção conseguiu ganhar o Campeonato do Mundo. É certo que, por coincidência, os merengues – uma das delegações mais representadas esta noite em Paris – igualaram o número de troféus do até hoje recordista Barcelona (11), tendo agora mais um jogador do que os blaugrana para essa contabilidade (7-6). No entanto, e no meio de toda essa guerra do poder com mais ou menos frentes de batalha, encontra-se Modric, de 33 anos (feitos em setembro), que ganhou o prémio de um ano em sete meses.

Depois de uma segunda parte de temporada fantástica pelo Real Madrid, que levou à conquista da quarta Liga dos Campeões em cinco anos do clube, o médio fez um Mundial fabuloso na Rússia, levando a Croácia a uma improvável presença na final frente à França. Os balcânicos têm grandes jogadores, aqueles que são muitas vezes considerados os primeiros de uma segunda linha quando na verdade são os segundos de uma primeira linha. Mandzukic, Rakitic, Perisic, todos craques em algumas das melhores equipas europeias. Modric, o pequeno génio de 1,72m que fez a sua melhor época de sempre, ligou todas as pontas de valor individual e produziu um coletivo. Vieram a seguir as férias, o regresso e um verdadeiro eclipse – é certo que o ataque do Real nunca será o mesmo sem Ronaldo e que a defesa começou da pior forma mas foi o sub-rendimento do meio-campo com Casemiro, Toni Kroos e Modric que levou à crise de resultados que levou à demissão de Julen Lopetegui.

No sentido oposto, Cristiano Ronaldo, também com 33 anos, mudou. Não está melhor nem pior mas reinventou-se. E trabalhou para isso. Depois dos jogos decisivos nas eliminatórias com PSG e Juventus, um dos quais num pontapé de bicicleta que se tornou o melhor golo dos muitos na sua carreira, esteve na vitória na final frente ao Liverpool e conseguiu um fabuloso hat-trick no arranque do Mundial frente à Espanha, marcando ainda mais um golo frente a Marrocos. Portugal perdeu nos oitavos diante do Uruguai, naquela que foi uma das duas únicas derrotas de Fernando Santos em quatro anos no comando da Seleção, e a surpresa chegou umas semanas depois: a troco de 100 milhões de euros, mais do que o Real pagara ao Manchester United quando se tornou em 2009 na maior transferência de sempre (96 milhões), mudou-se para a Juventus.

Os primeiros encontros, mesmo com todas as atenções em si centradas, serviram de adaptação a um novo modelo de jogo e a um novo tipo de adversário. Uns meses depois, leva dez golos em 14 jogos da Serie A, bateu recordes individuais no clube e continua a ajudar a prolongar outros registos máximos no plano coletivo. Em 2018, Ronaldo marcou 45 golos em 47 jogos. Lionel Messi, com um grande arranque de época depois de ter feito a “dobradinha” na última temporada, chegou aos mesmos 45 mas em 50 jogos. E ainda houve outros como Antoine Griezmann, um autêntico maratonista que, num ano em que ganhou Liga Europa e Mundial de seleções, chegou a um total de 67 encontros oficiais em 2018, com 36 golos apontados. Ganhou Luka Modric.

Após os triunfos de melhor da época para a UEFA e para a FIFA, todas as fugas de informação colocavam o croata no primeiro lugar da Bola de Ouro. A última, esta segunda-feira, confirmava essa mesma decisão e com uma diferença bem maior do que se poderia pensar em relação ao segundo classificado, Cristiano Ronaldo – que não marcou presença na cerimónia em que terminou na vice-liderança pela sexta vez na carreira, somando ainda cinco triunfos no galardão. Já Antoine Griezmann fechava o pódio. Tudo foi confirmado esta noite no Grand Palais, numa cerimónia apresentada por David Ginola.

A ordem final do top-10 da Bola de Ouro de 2018, que contou apenas com um português, foi a seguinte:

1.º Luka Modric (médio, Real Madrid/Croácia), 753 pontos
2.º Cristiano Ronaldo (avançado, Real Madrid e Juventus/Portugal), 478 pontos
3.º Antoine Griezmann (avançado, Atl. Madrid/França), 414 pontos
4.º Kylian Mbappé (avançado, PSG/França), 347 pontos
5.º Lionel Messi (avançado, Barcelona/Argentina), 280 pontos
6.º Mohamed Salah (avançado, Liverpool/Egito), 188 pontos
7.º Raphaël Varane (defesa, Real Madrid/França), 121 pontos
8.º Eden Hazard (avançado, Chelsea/Bélgica), 119 pontos
9.º Kevin De Bruyne (médio, Manchester City/Bélgica), 29 pontos
10.º Harry Kane (avançado, Tottenham/Inglaterra), 25 pontos

Ada Hegerberg ganha prémio de melhor jogadora do ano

A revista France Football decidiu pela primeira vez atribuir também o prémio da melhor jogadora do ano, com a vitória a sorrir à jovem norueguesa Ada Hegerberg, de 23 anos, avançada do Lyon que conquistou a Liga dos Campeões.

Pernille Harder, avançada dinamarquesa do Wolfsburgo (finalista vencido da Champions) foi a segunda classificada, ao passo que Dzsenifer Marozsan, média alemã do Lyon, completou o pódio. Seguiram-se pela ordem da classificação final: Marta (avançada, Orlando Pride/Brasil), Sam Kerr (avançada, Chicago Red Stars/Austrália), Lucy Bronze (defesa, Lyon/Inglaterra), Amandine Henry (média, Lyon/França), Megan Rapinoe (média, Seattle Reign/EUA), Lindsey Horan (avançada, Portland Thorns/EUA), Lieke Martens (média, Barcelona/Holanda), Saki Kumagai (defesa, Lyon/Japão), Amel Majri (lateral/ala, Lyon/França), Fran Kirby (avançada, Chelsea/Inglaterra) e Christine Sinclair (avançada, Portland Thorns/Canadá).

Ada Hegerberg foi decisiva no triunfo do Lyon frente ao Wolfsburgo na final da Champions (SERGEI SUPINSKY/AFP/Getty Images)

Mbappé vence Troféu Kopa que teve Figo e Ronaldo no júri

Kylian Mbappé venceu, como também seria de esperar, o Troféu Kopa, que elegeu pela primeira vez o melhor Sub-21 do ano. De referir a título de curiosidade que os votos deste prémio, que homenageia o antigo avançado francês falecido em 2017, pertenceram a todos os Bolas de Ouro ainda vivos até ao momento, incluindo Luís Figo e Cristiano Ronaldo.

O francês de 19 anos do PSG, que teve uma caminhada fantástica no triunfo da França no Campeonato do Mundo depois de já ter protagonizado a segunda maior transferência de sempre do futebol mundial (180 milhões de euros ao Mónaco), superou a oposição de Trent Alexander-Arnold (defesa, Liverpool/Inglaterra); Houssem Aouar (médio, Lyon/França); Patrick Cutrone (avançado, AC Milan/Itália); Ritsu Doan (médio ofensivo, Groningen/Japão); Gianluigi Donnarumma (guarda-redes, AC Milan/Itália); Amadou Haidara (médio, Red Bull Salzburgo/Mali); Justin Kluivert (ala, Roma/Holanda); Christian Pulisic (avançado, B. Dortmund/EUA) e Rodrygo (avançado, 17 anos, Santos/Brasil).

Mbappé, segundo mais caro da história, foi eleito o melhor jogador jovem no Mundial ganho pela França (ADRIAN DENNIS/AFP/Getty Images)