Genética

Edição genética. Babuíno sobreviveu mais de seis meses com coração de porco

Um babuíno sobreviveu 195 dias com um coração de leitão. O órgão foi geneticamente modificado com a mesma ferramenta usada pelo cientista chinês em duas bebés. Podem os humanos herdar órgãos de porco?

AFP/Getty Images

Um babuíno sobreviveu durante mais de seis meses com um coração de leitão geneticamente modificado com a ferramenta CRISPR-Cas9, a mesma que um cientista chinês usou para editar o genoma de duas bebés na tentativa de as tornar imunes a infeções pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH). Este é um passo em frente na possibilidade de transplantar órgãos de porcos para humanos, uma técnica chamada xenotransplante.

Os órgãos dos porcos têm a mesma anatomia e o mesmo tamanho que os órgãos humanos. No entanto, não é possível usá-los para transplante por dois motivos. Primeiro, porque os porcos podem estar infetados com vírus que nós não conseguimos atacar com eficácia, como o da hepatite E. E, segundo, porque eles têm informação genética de vírus incorporada no ADN, uma estratégia para identificar e combater mais rapidamente esse vírus se ele voltar a atacar o animal.

Para resolver o primeiro problema, já existem vacinas eficazes no mercado. Para resolver o segundo problema, há o CRISPR-Cas9, que, quando introduzido nas células do órgão de um porco, pode cortar ou inibir a informação genética vírica que estava incorporada no genoma do animal. Com essa estratégia, os cientistas podem desligar as características genéticas do porco que desencadeiam uma resposta imunitária agressiva pelo organismo do humano.

Foi este o procedimento que os investigadores da Universidade de Munique usaram para transplantar os corações de leitões para os corpos de babuínos. Um deles ficou doente e morreu ao fim de dois meses. Dois sobreviveram durante três meses antes de serem submetidos a eutanásia pela equipa. Outro viveu precisamente seis meses — 182 dias — antes de ser morto. E um quinto babuíno foi acompanhado durante 195 dias e manteve-se completamente saudável até ser eutanasiado.

Esta não foi a primeira vez que o coração de um porco foi transplantado para o corpo de primatas, mas nunca antes eles tinham sobrevivido durante tanto tempo. Já houve experiências em que um coração de porco sobreviveu durante dois anos e meio dentro do abdómen de um babuíno, mas a saúde do primata não estava em causa: continuava a ser o coração original do animal o responsável por bombear o sangue ao longo do corpo.  No entanto, em situações em que a vida do babuíno dependia desse transplante, os resultados eram menos entusiasmantes.

O segredo do sucesso esconde-se em três passos que nunca tinha sido usados. O coração foi mantido a 8ºC (temperatura mais baixa do que a usada em experiências anteriores) dentro de uma sopa com oxigénio, hormonas, glóbulos vermelhos e nutrientes. Enquanto isso, o babuíno recebeu medicamentos ao longo de todo procedimento para baixar a pressão sanguínea do babuíno para se igualar à de um porco. E, além disso, recebeu medicação para que o coração de leitão não crescesse demais dentro do corpo dele.

Até agora, o máximo de tempo que um primata tinha sobrevivido com um coração transplantado de um porco foi 57 dias. Agora, esse prazo foi alargado para mais do triplo. E isso é notável: a Sociedade Internacional de Transplante de Coração e Pulmão diz que o xenotransplante pode ser seguro o suficiente para ser testado em pessoas, se um primata não-humano sobreviver a um procedimento igual durante mais de 90 dias. Mas essa possibilidade ainda não está em cima da mesa por motivos éticos.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mlferreira@observador.pt
Clima

As crianças que lutam por um mundo pior /premium

Alberto Gonçalves
1.252

Na idade da menina Alice e do menino Gil, fiz diversas greves à escola a pretexto do clima: mal o sol aquecia, trocava as aulas pela praia. Faltou-me ser entrevistado pelos “media”.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)