Pedro Nuno Santos fez uma das poucas intervenções políticas de fundo desde que deixou a liderança do PS e acertou contas com vários socialistas, desde o antecessor António Costa ao sucessor José Luís Carneiro, passando pelos antigos ministros das Finanças Mário Centeno e Fernando Medina. Num debate com João Cotrim de Figueiredo na quinta-feira, promovido por uma associação de estudantes do ISEG e ao qual o Observador assistiu, o ex-secretário-geral atirou ao imobilismo da governação Costa e ao centrismo da liderança Carneiro. Já os titulares da pasta das Finanças, lamenta, só criam “dificuldades” aos ministros setoriais.

O antigo ministro das Infraestruturas começou por criticar os Executivos de que fez parte, atirando diretamente à forma como António Costa governou: “O que me preocupa quando olho para a política — hoje, mas também para o período em que nós [Pedro Nuno e Cotrim] estivemos… — é que houve muita coisa que não se fez porque os políticos muito hábeis na gestão de conflitos, na procura de consensos, levam, infelizmente e frequentemente, Portugal à paralisia.”

Pedro Nuno não quis que restassem dúvidas a quem (e a que período) se referia e acrescentou que um dos “exemplos maiores” da paralisia política se verificou com o adiamento da decisão relativa à localização do aeroporto de Lisboa, que o levou a apresentar a demissão a António Costa em 2022. O ex-governante falou também sobre a experiência de tutelar grandes empresas públicas como a TAP ou a CP. Pelo caminho, criticou os entraves que lhe foram colocados pela pasta das Finanças, que durante os seus anos no Governo foram Mário Centeno, João Leão e Fernando Medina. “As finanças aquilo que se dedicam é a complicar a vida das empresas públicas, enquanto os ministros setoriais têm de lutar contra as dificuldades que os ministérios das Finanças colocam ao bom funcionamento das empresas públicas”, atirou. Centeno e Medina também tiveram, assim, direito às suas farpas.

Mas as críticas assumiram mesmo a forma de recado à atual liderança do PS. “À direita ou à esquerda, vemos a certeza que é preciso fazer reformas. Depois olhamos e não os vemos a conseguir fazer. Não conseguem, nem querem”, continuou Pedro Nuno. “Acho que os principais responsáveis por não sairmos da cepa torta é o extremo-centro. Gostamos de chamar extrema-direita e extrema-esquerda como se estar no centro fosse hoje uma coisa moderada. Ora, para mim hoje, manter o status quo é, sim, ser extremista”, atirou, numa altura em que José Luís Carneiro segue, precisamente, essa estratégia. Foi um tiro à atual liderança.

Pedro Nuno quer políticos a “meter as mãos no mercado” e acusa PS de ter “privatizado” com intensidade

Apesar de continuar como deputado, Pedro Nuno quis dar voz a coisas “que os políticos não têm coragem de dizer”, nomeadamente que “têm muito menos instrumentos para mudar a vida das pessoas do que já tiveram no passado”, numa crítica à perda de soberania para as instituições europeias. “A tese que venceu em Portugal é que vivemos em socialismo e que esse é o problema e o atraso do país. E se há coisa que nós andamos, durante 40 anos, a fazer, reparem comigo, foi dedicar instrumentos de intervenção. Nós andamos a acrescentar, o país andou a acrescentar a intervenção? O Estado está em todo o lado? Nós, em quatro décadas, perdemos a política comercial, que é decidida em Bruxelas da forma que lhes interessa, a política monetária, [e] a política orçamental, que está fortemente condicionada pelas regras do programa de estabilidade.”

“A acrescentar a isto, o Partido Socialista — esse perigoso Partido Socialista [ironizou] — o que fez nos últimos 40 anos, além de muitas coisas boas e importantes, foi privatizar. O que nós, PS a meias com o PSD, andámos a fazer foi privatizar com grande intensidade, ao longo dos 40 anos. Porque se há coisa que nós fizemos no decurso de integração europeia foi liberalizar mercados, foi desregular, foi privatizar e foi abdicar de instrumentos de política económica”, afirmou o deputado socialista no evento da Youth Association for Politics do ISEG.

Pedro Nuno defendeu ainda que é preciso que os políticos aceitem “meter as mãos” no mercado. “Mesmo no quadro de elevada restrição que os governos nacionais enfrentam, há reformas que podem ser feitas. Só que os políticos têm de aceitar fazer uma coisa que não têm querido fazer nos últimos anos: intervir.”

O antigo ministro socialista também discutiu setores concretos onde entende ser necessária maior intervenção estatal, nomeadamente uma área que tutelou, a habitação. “Aquilo que vão dizer o extremo-centro e grande parte da direita, é que temos é de construir, que isto é um problema de procura e oferta e que temos de aumentar a oferta para o preço baixar. Parece óbvio. Agora vocês pensem que a procura de casas em Portugal, e em Lisboa em particular, é uma procura mundial, global. Não há nem haveria capacidade de construir ao ritmo que o dinheiro do casino financeiro internacional anda à procura de sítios para rentabilizar os seus investimentos. Portanto, vocês estão a competir com milionários, com fundos, que têm a capacidade de comprar e investir na habitação aquilo que os jovens não têm.”

Por outro lado, defendeu que, no setor do turismo, o Estado deve deixar de “jorrar dinheiro para um setor que já tem uma dimensão gigante” na economia portuguesa. “Nós temos uma economia que é dependente, em quase um quinto, de um setor em que os políticos não têm a coragem de dizer nada, mas que é um setor que paga mal, que dá contratos precários e cujo valor acrescentado é reduzido e aliás, até com poucos portugueses empregados em Lisboa”, disse no debate com Cotrim.

Pedro Nuno recuperou ainda outro tema fraturante entre socialistas, a imigração, assinalando que os seus desafios são ainda “ignorados” por vários dos seus colegas de partido. “Quando entram 1 milhão de pessoas em seis anos, isso tem consequências no SNS, tem consequências na Habitação, tem consequências no Estado Social”, sublinhou.

Pedro Nuno não está arrependido de moção de censura e deixa conselho a jovens: “Se querem dizer ‘o pai ganhou’, não corram riscos”

Pedro Nuno Santos garantiu não estar arrependido com o voto contra do PS na moção de confiança do Governo de Luís Montenegro em março de 2025, mesmo reconhecendo que essa decisão pôs um fim precoce à sua liderança do Partido Socialista. O socialista foi desafiado a dizer se os políticos deviam correr mais ou menos riscos e respondeu que “depende da história que queremos contar aos nossos filhos”.

“Se a história que querem contar é que nós ganhámos, o pai ganhou e continuará a ganhar, não correm riscos. Se o que quiserem dizer aos vossos filhos é que fizeram o que era a vossa interpretação de serviço público, então correm riscos. Se há coisa para mim clara, até à minha última decisão como secretário-geral, é que eu não dou confiança a quem lidera o país hoje. E é uma questão de risco, que me pôs lá para fora, mas eu repetia. Porque aquilo que eu tenho para mostrar ao meu filho sobre o exemplo de vida é que nós corremos riscos pelo que achamos correto. Enquanto governante foi o que eu sempre tentei fazer”, defendeu o socialista esta quinta-feira.

Questionado sobre o seu regresso à administração da sua empresa familiar, Pedro Nuno também refletiu sobre as diferenças entre as características dos políticos e gestores no setor privado. “Enquanto no privado há um foco na execução, há qualidades que aprendemos na política muito importantes que têm a ver com a gestão de conflitos, gerir a diversidade de opiniões, conseguir que a população que nós defendemos perceba o que está a ser feito. Infelizmente, muitos políticos estão tão preocupados em fazer a gestão de perceções que muitas vezes não se decide porque não se quer ter crítica, oposição ou alguém que diga mal de nós.”

Para terminar o debate com o eurodeputado liberal, o antigo líder do PS deixou uma mensagem de alerta aos estudantes que o ouviam no auditório do ISEG. “Quando chegarem aos 45 anos, vão olhar para trás e grande parte deste auditório — não quero tirar o mérito a ninguém, mas são as estatísticas — vai estar a ganhar dois mil e poucos euros. Muitos de vocês nas Big Four [as quatro maiores empresas de consultoria], onde começam a pagar 1.200 euros com estruturas ultra-piramidais, onde sobem alguns mas com a promessa de que todos podem chegar lá acima. E esta promessa é mortal, porque faz com que depois vocês embarquem num discurso de promessa permanente, da liberalização, que é aquilo que nos vai fazer ser empreendedores e um dia ser ricos. Abram todos a pestana, quando nos prometem que podemos todos chegar lá.”

[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]