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“Os que me chamam Judas podem estar à vontade”. Bruno Fernandes sobre o ataque à Academia, a rescisão e o regresso, Peseiro e Keizer

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Bruno Fernandes deu uma longa entrevista ao jornal A Bola e falou sobre tudo: o ataque de Alcochete, a rescisão, o papel de Peseiro e os métodos de Keizer. E diz que não saiu por Bruno de Carvalho.

Bruno Fernandes chegou ao Sporting no verão de 2017 e não demorou a assumir um papel de relevo na equipa verde e branca

Filipe Amorim / Global Imagens

No verão de 2017, Bruno Fernandes era “apenas” o capitão da Seleção Nacional Sub-21. Jogava na Sampdoria de Itália, nunca tinha jogado ao mais alto nível em Portugal e era pouco conhecido – mesmo entre aqueles que no FC Porto, Benfica e Sporting têm a responsabilidade de procurar novos jogadores, novos talentos e novas oportunidades. Nesse verão de 2017, enquanto capitão e principal destaque da seleção das esperanças no Campeonato da Europa Sub-21, Bruno Fernandes deu-se a conhecer. De Génova voou para Lisboa e passou a chamar casa ao Estádio José Alvalade. Assumiu uma colaboração de sucesso com Bas Dost, foi o melhor jogador do Sporting em 2017/18, estava no balneário de Alcochete aquando do ataque à Academia, rescindiu e regressou – tudo isto desde o verão de 2017 até agora.

O médio do Sporting foi considerado pelo jornal A Bola o Jogador do Ano e a atribuição do troféu foi um pretexto para conversar sobre tudo aquilo que aconteceu desde que Bruno aterrou em Lisboa. Sem fugir às perguntas e sem declarar quaisquer temas como proibidos, o jogador da Seleção Nacional deu uma longa entrevista e falou sobre Jesus, Peseiro e Keizer, sobre um arranque de época que ficou aquém das expectativas, sobre o ataque à Academia, a rescisão, o regresso e o futuro.

Atualmente, o Sporting está no terceiro lugar do Campeonato, vai já no terceiro treinador a passar pelo banco técnico (a contar com um interino), e está apurado para os 16 avos de final da Liga Europa. Bruno Fernandes garante que não tinha dúvidas de que os leões poderiam estar nesta situação – mesmo depois de uma segunda metade de temporada particularmente atribulada. “Acreditava que poderíamos estar onde estamos. Jogando no Sporting temos de ter plena noção e consciência de que temos de estar aqui para lutar por títulos e lutar para ganhar todos os jogos. Foi isso que tentámos fazer desde que chegámos, a nossa preparação. Obviamente foi uma preparação atípica em relação ao que é normal, mas o foco e objetivo tinha de lá estar”, explicou o jogador.

A época não começou da melhor forma e o jogador português acabou por revelar a frustração nas redes sociais após a derrota com o Sp. Braga

O médio português começou a época a meio gás – a ressentir-se não só do final de temporada caótico como também do Mundial da Rússia, que atrasou o arranque de pré-temporada – e desabafou a frustração no Instagram, em resposta às críticas de um adepto. “Compreendo tudo aquilo que foi escrito e estou de acordo. É verdade que nada justifica as minhas exibições não ao nível das do ano passado ou que apareça por simples momentos e volte a desaparecer! Acredita que mais do que ninguém sinto-me frustrado com isso e com a falta de qualidade que tenho vindo a apresentar e não, a culpa não é de ninguém a não ser minha”, escreveu Bruno Fernandes, em declarações que foram vistas como o assumir de um mau momento que era quase inegável. Três meses depois, o médio diz-se arrependido do desabafo. “Sou um jogador que não lida da melhor maneira com as derrotas, senti-me muito frustrado. Não achei por bem fazer aquilo que fiz, não acho correto o que fiz, desabafar nas redes sociais, mas foi um desabafo que fez com que eu me soltasse e que conseguisse perceber que não era só desportivamente que eu estava mal, mas também psicologicamente”, explica o jogador.

Nessa altura, o treinador era José Peseiro. O número 8 dos leões lembra que o treinador português teve um papel algo ingrato e teve de ser “treinador, diretor e delegado”. “Não havia meio de comunicação entre Cintra e Peseiro. Não tínhamos o Hugo Viana de agora, o Beto de agora, que ajudam as mensagens a chegar. Acho que o papel de Peseiro, e que pouca gente deu valor, foi muito importante e o nosso foco esteve só no futebol”, explica o jogador, ressalvando ainda que o técnico “fez o melhor que podia” mas acabou por “ocupar muito a cabeça com várias coisas”.

Sobre Marcel Keizer e a aparente revolução que o treinador holandês empreendeu em Alvalade – os leões marcaram 30 golos desde que o técnico chegou a Portugal e só perderam uma vez –, Bruno Fernandes reconhece que os jogadores ficam “todos muito mais felizes” quando os resultados terminam em goleada mas garante que “o objetivo é ganhar jogos, independentemente de ser 1-0 ou por mais”. O médio português falou ainda sobre a “filosofia atacante” que Keizer prometeu logo na apresentação e que acabou por implementar de forma quase imediata: o capitão leonino explicou que um dos métodos do holandês “é mesmo fazer golos, o ataque, a organização, principalmente ofensiva, para poder recuperar rapidamente quando se perde a bola”. Este detalhe específico, a recuperação rápida da bola perdida, tem sido apelidada pelos jornais desportivos como “regra dos cinco segundos”, numa tentativa de desconstruir as intenções táticas de Marcel Keizer. “Na Sampdoria já tinha tido a felicidade de trabalhar uma ideia semelhante, às vezes até demais, porque começava a contar alto e bom som, no treino, e muitas vezes a contagem ia longe demais… Mas acaba por ser uma contagem de incentivo, para dar aquele fogo que precisa para reagir, pois normalmente, quando um jogador perde a bola, pode parar e desleixar-se um bocado”, sentenciou o jogador.

Keizer trouxe a “regra dos cinco segundos” na recuperação de bola que Bruno Fernandes já tinha colocado em prática na Sampdoria

A Jorge Jesus – ainda que garanta que o treinador “agora vai gabar-se disto” –, agradece “tudo o que fez”. “Ajudou-me a crescer muito. É um treinador com quem aprendi muito e estou-lhe grato. Apostou em mim. Desejo-lhe tudo de bom”, afirmou Bruno Fernandes, para depois falar sobre o tema mais difícil: o ataque à Academia de Alcochete, a 15 de maio. Garante que “não é um assunto que seja fácil” e que tenta “ao máximo fugir” do tema mas revela que o pior já passou.

Mexeu tudo muito comigo. Apesar disso tudo tentei e tento ainda hoje e vou tentar até conseguir ultrapassar isso que foi um momento menos positivo na minha carreira. Acho que tenho vindo a trabalhar para isso, o Sporting tem vindo a trabalhar para isso, mesmo com o clube ainda instável, com presidente interino, tentaram ajudar ao máximo, e acho que esse momento já está praticamente ultrapassado. (…) Os primeiros dias foram mais difíceis, mas depois disso, como já disse, o Sporting já na altura do presidente Sousa Cintra fez com que nos sentíssemos à vontade, com várias mudanças na Academia. Fez com que os jogadores sentissem menos aquilo que aconteceu”, explicou o jogador do clube de Alvalade, que acabou por rescindir contrato de forma unilateral no seguimento do ataque.

Com Sousa Cintra, no dia em que voltou a assinar contrato com o Sporting e foi de novo “apresentado”

Rescindiu para depois regressar. Garante que a decisão de ir embora foi tomada “muito rápido, na altura do Mundial”, porque achou que era “a melhor” opção. Depois de voltar da Rússia, depois de “decidir aquilo que seria melhor” para si e para família, achou “por bem voltar”. “Achei por bem por tudo aquilo que o Sporting me deu, pela oportunidade que tive e por todo aquele acolhimento dado pela maioria dos adeptos, pelo carinho que me deram desde o momento em que cheguei”, acrescentou Bruno Fernandes, que garantiu que não falou “com ninguém do Sporting até ao dia em foi assinar contrato”. O médio de 24 anos sublinha que não rescindiu contrato devido a Bruno de Carvalho – mas sim “por causa do que aconteceu na Academia” – e explica que espera que “o ataque não tenha sido mandatado por ninguém que trabalhasse no Sporting”.

Para o regresso contou, especialmente, um sentimento de dívida. “O Sporting apostou em mim, pagou 8,5 milhões de euros por mim, para um clube português é muito dinheiro, e eu sentia-me, e sinto-me, também um bocadinho em dívida. Obviamente após rescindir o contrato todas essas coisas vêm à cabeça, e obviamente pensas naquilo que passaste no clube, tiveste um momento negativo num ano inteiro, um momento que ninguém esperava, mas nesse ano inteiro tiveste muitas coisas boas. Foi o melhor ano da minha carreira”, acrescentou o médio português, que recordou ainda que disse ao empresário, “no dia antes de viajar para Lisboa para assinar contrato”, que não queria ganhar “nem mais um euro” e que ficaria “com o mesmo contrato”: “As pessoas que me chamam de mercenário e de Judas podem estar completamente à vontade para o continuar a fazer porque são coisas que me passam completamente ao lado”, atirou.

Sobre o futuro, o desejo de Bruno Fernandes é simples: “Conseguir conquistar tudo o que tenho para conquistar e o que o clube tem para conquistar”. Desde o verão de 2017 para o Natal de 2018, o médio passou de capitão dos Sub-21 a capitão do Sporting, de jogador no lote de rescisões a melhor elemento do leão de Keizer e de aparente desconhecido do futebol português a Jogador do Ano.

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