Primeira Liga NOS

Um clássico dos dias de hoje às horas de antigamente: o Sporting-FC Porto joga-se com sol e “tem outro encanto”

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Nunca um Sporting-FC Porto se jogou tão cedo em Alvalade. Gabriel, Padrão e José Alberto Costa, que passaram pelos dois lados do clássico, explicam porque é que o futebol às 15h30 "tem outro encanto".

Marega e Mathieu são dois dos jogadores mais regulares nas duas equipas e serão titulares neste Sporting-FC Porto

AFP/Getty Images

Para o Campeonato, existem apenas quatro por temporada. Dois por volta. Podem ser jogos do título, reafirmações de liderança ou o relançar de corridas pelo primeiro lugar. São, à margem de tudo isso, os jogos de futebol mais aguardados do ano e colocam frente a frente aquelas que são, em teoria, duas das melhores equipas de Portugal. Esta semana há um. Este sábado é dia de clássico e o Sporting recebe o FC Porto na 17.ª jornada da Primeira Liga. Oito pontos separam os dois adversários, entre a liderança dos dragões e o quarto lugar dos leões, mas a diferença pontual na hora do apito inicial pouco interessa a quem tira o dia para assistir a um dos jogos com mais história do futebol português. Esta época, numa manobra quase saudosista e que recorda os domingos de bola de outros tempos, o apito ouve-se às 15h30 da tarde, num horário que convida ao almoço e ao convívio – tão ou mais intensamente vividos do que o jogo propriamente dito.

Nunca um Sporting-FC Porto para o Campeonato se jogou tão cedo este século. Que é como quem diz, esta será a primeira vez que o novo Estádio José Alvalade irá receber um clássico entre leões e dragões a esta hora. O mesmo acontece com a ordem inversa, já que o último FC Porto-Sporting disputado à tarde (16 horas) foi ainda nas Antas e nunca no Dragão: é preciso recuar até 2002/03, à derradeira jornada de um Campeonato que o FC Porto de José Mourinho conquistou com mais 11 pontos do que o segundo classificado Benfica, para encontrar um clássico entre ambos jogado à tarde. O horário do jogo, em nada semelhante aos normalmente praticados pelos jogadores das duas equipas – habituados, nos últimos anos, a jogar às 20h15, 21h ou 21h15 –, convida os adeptos a almoçar nas imediações do estádio, a encher os restaurantes à volta de Alvalade e a recriar o ambiente vivido no final de fins de semana desportivos que tinham modalidades ao sábado, camadas jovens do futebol na manhã de domingo e futebol sénior ao início da tarde. Este sábado, o futebol à tarde regressa aos grandes jogos da Primeira Liga. E quase ninguém acha que tenha sido uma má ideia.

A começar por Sérgio Conceição. Na antevisão da visita ao Sporting, o treinador dos dragões explicou que este é um horário que “faz bem ao futebol”. “Quero dar os parabéns a quem estabeleceu este horário, haverá muita gente que vai levar os seus filhos e as suas famílias ao estádio. Prova disso é que os bilhetes esgotaram em duas ou três horas. É sinónimo de que o espetáculo beneficia deste horário”, disse o técnico, que acrescentou ainda que não está preocupado com a “quebra de rotinas”. Ora, esteja Sérgio Conceição preocupado ou não, a verdade é que esta “quebra de rotinas” vai existir. Em situação normal, os jogadores do FC Porto viajariam para Lisboa esta sexta-feira, ficariam alojado, como desde há 30 anos, no Hotel Altis, fariam um passeio pela zona do Parque Eduardo VII nas primeiras horas da manhã de domingo (pelo menos quando as rivalidades estão menos “acesas”), almoçavam, ainda assistiam à palestra do treinador e desfrutavam de um período de descanso antes de se dirigirem, de autocarro, para o Estádio José Alvalade. Com um jogo às 15h30, toda esta rotina ficará reduzida, alterada e quase anulada – e o mesmo acontecerá com o Sporting, que antigamente marcaria um encontro com o plantel num hotel perto do estádio, durante a manhã, almoçava e seguia para a curtíssima viagem de autocarro.

Gabriel Mendes, antigo lateral do FC Porto e do Sporting, é atualmente taxista na cidade do Porto

Algo que para jogadores de outros tempos não é nada de novo: era sim, há alguns anos, a rotina habitual de domingo. Gabriel, antigo lateral direito do Sporting e do FC Porto nas décadas de 70 e 80, garante que a quebra de rotinas em nada afetará o jogo propriamente dito porque será algo partilhado e experienciado pelas duas equipas. “O problema era se isto fosse novo para uns e normal para outros. Mau para uns e bom para outros. Assim pronto, é igual para todos, ninguém fica a perder”, diz o antigo jogador, que para lá dos dois “grandes” só representou Sp. Espinho, Ermesinde, Sp. Covilhã e Torres Novas. Gabriel, bicampeão pelos dragões, conta ainda que quando os jogos eram disputados às primeiras horas da tarde, o estágio era feito na véspera e o plantel almoçava por volta das 11h da manhã, numa tentativa de espaçar ao máximo o momento da refeição do apito inicial. À preocupação com as horas, porém, só mais tarde se aliou a preocupação com o conteúdo do almoço. Carlos Padrão, antigo guarda-redes de leões e dragões, explica que “já apanhou a fase das massas” mas que, durante muito tempo, os jogadores realizavam 90 minutos de competição ao mais alto nível em plena digestão do almoço.

“Almoçava-se às 11h. Eu já apanhei a fase das massas. Antes comiam-se grandes bifes que demoravam 18 horas a digerir. Só no dia seguinte é que aquilo era digerido e umas horas depois os jogadores já estavam a jogar ao sol”, lembra o ex-jogador que também passou por União de Leiria, Belenenses, V. Setúbal e Boavista. Mesmo com o almoço às 11h, Padrão garante que “o futebol ganha outro encanto” quando jogado durante a tarde e, numa opinião que autocensura como “saudosista”, considera que o clássico deste sábado é “o regressar a outros tempos”, quando famílias inteiras reservavam um dia para um jogo de futebol e uma ida ao estádio era também um momento de convívio. Algo que, mais uma vez, Sérgio Conceição reiterou na antevisão do clássico, quando disse que “preferia ter um estádio cheio de famílias e miúdos” a manter as rotinas habituais e defendeu que “muitas das vezes o futebol deve promover este tipo de jogos nestes horários”.

Padrão foi guarda-redes do Sporting na década de 70 e do FC Porto no início dos anos 90, na reta final da carreira

Mas se Sérgio Conceição, apesar de as desvalorizar, ainda menciona a perda das rotinas, José Alberto Costa explica que, na verdade, o jogo às 15h30 pode até ser menos nocivo para os hábitos físicos dos jogadores do que uma partida às 19h. O antigo médio do FC Porto nos anos 70 e 80, que na década de 90 foi adjunto de Carlos Queiroz no Sporting, lembra que as equipas treinam ou de manhã ou de tarde e que, em caso de treino pós-almoço, as sessões arrancam por volta das 16h – apenas meia hora depois do estipulado para o início do clássico. Significa isto que, na ótica de José Alberto Costa, ainda que a antecipação da hora da partida para o início da tarde possa reduzir o tempo disponível para o habitual passeio de desentorpecimento ou o aconselhável período de relaxamento, os jogadores estão habituados a altos níveis de esforço físico nesta janela horária. “Creio que não existirão quaisquer perturbações de rendimento”, atira o antigo adjunto de Queiroz, que mais recentemente esteve no comando do Sp. Braga B. “Além disso, o horário só favorece a adesão dos adeptos. Saboreia-se muito mais o prazer do jogo. As famílias vão ao estádio, regressam cedo e ainda vão a tempo de ir jantar a casa. O dia é muito mais planeado”, acrescenta.

Gabriel, Padrão e José Alberto Costa concordam noutro aspeto fulcral do jogo deste sábado. Para os três, “o futebol é momento”, “o favoritismo é relativo” e este é sempre “um jogo especial”, mas a verdade é só uma e inequívoca: tendo em conta a produção atual das duas equipas e a fase em que se encontram, o FC Porto parte com vantagem para a visita a Alvalade. Ainda assim, e tal como José Alberto Costa recorda, o encontro é mais importante para o Sporting do que para os dragões – já que uma eventual derrota significaria um desaire quase decisivo para as ambições dos leões relativamente ao Campeonato – e isso pode catapultar os jogadores leoninos para uma exibição acima do normal que culmine com a vitória frente à equipa de Sérgio Conceição. Mas, em caso de vitória dos dragões, Gabriel, Padrão e Costa voltam a ser unânimes: o primeiro xeque ao título nacional está feito e o mate fica adiado para uma segunda volta que, se não existirem grandes alterações de rendimento inesperadas ou lesões de importância relevante, só precisa de ser regular e normal para que a temporada continue com o bicampeonato do FC Porto.

José Alberto Costa jogou no FC Porto e mais tarde foi adjunto de Carlos Queiroz no Sporting

Os três antigos jogadores são três exemplos de personalidades do futebol português que passaram pelos corredores de dragões e leões, ainda que José Alberto Costa só o tenha feito em Alvalade enquanto treinador. De entre os mais de 50 jogadores que passaram pelos dois lados – num lote que inclui os mais longínquos Alhinho, Paulo Futre e Fernando Gomes; Jardel num passado mais recente; e Moutinho, Postiga ou Liedson nos últimos anos –, a esmagadora maioria teve mais sucesso, mais conquistas e mais vitórias no FC Porto do que no Sporting. Salvo raras exceções, os jogadores que vestiram ambas as camisolas tiveram dias mais felizes de azul e branco. Porquê? Para Carlos Padrão, a explicação é simples. “Como o [António] Morato disse no outro dia na televisão: o FC Porto é regras, regras, regras. Nenhum jogador pisa o risco. Nenhum jogador pode deixar de ser profissional. Este FC Porto de Sérgio Conceição liga muito com o FC Porto do passado. Aqui em baixo as coisas são diferentes. Fala-se muito, diz-se muita coisa. O Sporting tentou blindar o clube quando contratou Jorge Jesus, impor regras, impor uma conduta, mas depois desmoronou-se tudo”, afirmou o antigo guarda-redes, que acredita ainda que Marcel Keizer não terá um futuro muito longo em Alvalade.

“Quando o contrataram, disse logo que era arriscado. 40 e tal anos e nenhum título… Se fossem 30 e tal, pronto, mas 40 e tal? E é preciso recordar que Portugal, as equipas portuguesas, sempre fizeram bons resultados contra holandeses. Tanto os clubes como a Seleção. O futebol holandês é mais anárquico e o português é rigoroso. Ele chega cá com esta vertigem atacante e isto encaixa que nem uma luva no caráter defensivo do futebol português. Em termos defensivos as coisas não estão bem e o Sporting sofre muitos golos. Será muito difícil ao Marcel Keizer permanecer muitos anos”, atira Carlos Padrão, atualmente com 60 anos.

Previsões à parte, Gabriel, Padrão e José Alberto Costa têm certezas de que o FC Porto vai entrar em campo enquanto favorito ao título e vai sair dele com o mesmo estatuto, independentemente do resultado. Num clássico cujo resultado não decide, pelo menos diretamente, a conquista do título, a festa está reservada para o antes, o durante e o depois, nas imediações de Alvalade, nos restaurantes e nas roulotes, onde o Sporting-FC Porto começará a ser celebrado à hora de almoço e será comentado, discutido e analisado ainda com o sol a pôr-se.

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