A forma como o Japão conseguiu desmontar a melhor organização defensiva na meia-final frente ao Irão de Carlos Queiroz, além do histórico de sucesso sem equiparação entre as outras seleções, colocava o conjunto nipónico como teórico favorito no encontro decisivo da Taça da Ásia, esta sexta-feira. No entanto, o Qatar comprovou que os números com que chegou à final foram tudo menos obra do acaso e o conjunto comandado pelo espanhol Félix Sánchez (que trocou em 2006 a Academia do Barcelona, onde esteve dez anos, pelo projeto desportivo do país que vai receber o Mundial de 2022) garantiu mesmo o seu primeiro título de sempre na competição, numa vitória por 3-1 esta sexta-feira em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Contas feitas, o Qatar terminou a prova com o impressionante registo de sete vitórias noutros tantos encontros, tendo marcado 19 golos e sofrido apenas um ao longo dos 630 minutos disputados: depois de bater na fase de grupos Líbano (2-0), Coreia do Norte (6-0) e Arábia Saudita, ganhou a Iraque (1-0), Coreia do Sul (1-0) e Emirados Árabes Unidos (4-0) antes de vencer a equipa nipónica na final. Chegou mesmo a haver um protesto contra os jogadores naturalizados que tinha mas a verdade é que o mesmo não foi deferido e, entre as sete nacionalidades de nascimento entre os 23 convocados, houve pela primeira vez um português a conquistar a Taça da Ásia: Pedro Correia, mais conhecido no mundo do futebol por Ró-Ró.

Nascido em Mem Martins, o defesa de origem cabo-verdiana começou a jogar na equipa do local de nascimento nas escolinhas e infantis, passando em 2001 ainda nos Sub-13 para o Benfica. Nos juvenis, acabou por sair da formação encarnada, esteve alguns meses no Estrela da Amadora mas cumpriu os dois últimos anos nas camadas jovens pelo Farense, onde subiu aos seniores na temporada de 2009/10. Ró-Ró esteve ainda no Aljustrelense mas mudou-se em 2010/11 para o Qatar, onde ficou até hoje, entre o Al Ahli (onde jogou até 2015) e o Al-Sadd, atual equipa do lateral direito de 28 anos, treinado por Jesualdo Ferreira.

Pedro Correia, com a camisola número 2, fez a estreia pelo Qatar em março de 2016 (GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images)

Como explicou ao DN, a oportunidade chegou através de Pedro Russiano, ex-avançado que passou pela formação de Benfica e FC Porto e que na altura jogava no Al Riffa, que indicou o seu nome ao empresário que o levaria para o Qatar. Acabou por passar o período de dois meses de testes, adaptou-se bem à nova realidade e foi convidado para representar a seleção do país no início da aventura no Al-Sadd, repto que acabou por aceitar fazendo a estreia em março de 2016 – e já leva 40 jogos daí para cá.

“Sou português, serei sempre, mas aprendi a ser qatari também. Falei com a minha família, com o meu empresário e todos disseram que eu devia aceitar o desafio. Já tenho muitos amigos árabes e a minha vida continuará a passar por cá. Quero que o Qatar organize o melhor Mundial de sempre e quero estar lá, claro. Tive de sair do clube do meu coração, o Benfica, aos 16 anos. Uma década depois tornei-me jogador da seleção do Qatar. Incrível, não é?”, comentou ao Maisfutebol em 2016.

Dois anos depois, conseguiu algo ainda mais incrível ao conquistar a Taça da Ásia, numa final onde o Qatar saiu para o intervalo já em vantagem por 2-0 com golos de Almoez Ali (12′) e Abdulaziz Hatem (27′). Minamino ainda conseguiu reduzir para o Japão aos 69′ mas Akram Afif, de grande penalidade, sentenciou o resultado final aos 83′, num triunfo com outro impacto por ter sido conquistado em “território hostil”, como descrevia o El País, por causa dos bloqueios políticos e económicos desde 2017. A Marca também destacou o contributo do lateral nascido em Portugal entre os segredos para vencer pela primeira vez o troféu.