Podia gerar amores, podia entrar em “guerras” mas foi sempre alguém reconhecido no mundo do futebol pela personalidade forte e as ideias vincadas que chegaram a colocar a carreira “congelada”. Isto fora de campo claro, porque dentro das quatro linhas era capaz de gerar unanimidade entre companheiros e rivais: o médio ofensivo, que muitas vezes jogava na frente como avançado, era um talento à solta e foi protagonista em alguns dias que estão ainda hoje na história do futebol português, como os sete golos que apontou numa goleada do Sporting ao Mindelense por 21-0 na Taça. Fernando Peres morreu este domingo aos 76 anos.

Formado nas escolas do Belenenses, onde passou os primeiros cinco anos da carreira como sénior depois de ter destacado nas seleções jovens de Portugal, Fernando Peres chegou ao Sporting em 1965 naquela que seria uma das épocas mais marcantes: além de ter conquistado o Campeonato Nacional (e a Taça de Honra, que na altura também tinha o seu peso), foi um dos convocados para o Campeonato do Mundo de 1966, onde os magriços de Portugal conquistaram o terceiro lugar. O médio ofensivo/avançado nunca se chegou a estrear, “tapado” por uma linha atacante de sonho composta por José Augusto, Simões, Torres e Eusébio (com Coluna e Jaime Graça por perto), mas ficou a presença num dos momentos mais altos do futebol nacional.

Em 1968, depois de ter falhado o acordo para renovar contrato, aproveitou as leis da altura para se transferir para a Académica, algo na altura possível pela lei estudantil. Aí, sentiu também que o que ficara acordado não se cumprira e regressou a Alvalade para mais três temporadas, onde conquistou de novo o Campeonato de 1970 e a Taça de Portugal de 1971, que ficou marcada pelos 21-0 ao Mindelense, de Cabo Verde, nos oitavos de final, com sete golos de Peres, mais um do que Lourenço (Pedras, três; Tomé, dois; Dinis, Chico e Marinho marcaram os outros golos), antes do triunfo por 4-1 na final com o Benfica.

Na época seguinte, de 1971/72, acabaria por sair dos leões com alguma polémica à mistura, depois de ter defendido o treinador despedido Fernando Vaz: as propostas de renovação nunca convenceram o jogador, o clube não ficou satisfeito com as críticas públicas aos dirigentes e, depois de um impasse que o fez parar durante um ano (onde foi treinador do Peniche), acabou por sair para o Vasco da Gama, onde ganhou o Campeonato Brasileiro antes de voltar a Portugal mas para o FC Porto. Por causs das constantes lesões, fez apenas 18 jogos (dois golos) e saiu de novo para a América do Sul, representando o Sport Recife por quem viria ainda a conquistar um Campeonato de Pernambuco já na parte final da carreira.

Voltou aos bancos no Juventude de Évora, chegou a treinar na Primeira Liga (U. Leiria e V. Guimarães), conseguiu uma subida ao principal escalão marcante pelo Estoril, foi adjunto de Pedro Rocha no Sporting durante alguns meses, passou ainda pelo Atlético mas acabaria por perder ligação direta com o futebol. Morreu em Lisboa este domingo.

“Foi com grande tristeza que tomei conhecimento da morte de Fernando Peres, jogador que deixou uma marca indelével na Seleção e nas equipas que representou. Com uma personalidade muito vincada pelos valores que sempre praticou na vida, deixa saudades a todos os que o conheceram ou tiveram o privilégio da sua amizade. Fernando Peres será sempre lembrado como uma figura ímpar do futebol português”, comentou Fernando Gomes, líder da Federação, no site oficial da FPF.