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Jean Wyllys em Lisboa: A omelete, o SMS surpresa de Dilma Rousseff e o grito “Marielle presente e Lula livre”

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Com manifestações de solidariedade e contra-protestos à porta, Jean Wyllys justificou o auto-exílio do Brasil: "Eu percebi que ia morrer". Promete não desistir e diz que Bolsonaro enganou brasileiros.

Jean Wyllys deu uma conferência em Lisboa sobre o seu auto-exílio do Brasil

Nuno Viegas/Observador

Jean Wyllys passou por Lisboa para explicar o seu auto-exílio do Brasil, um dia depois de ter sido atacado com ovos durante a apresentação do romance “A Noite da Esperança”, de Milton Hatoum, em Coimbra. O ativista, homossexual assumido e ex-deputado brasileiro, deixou o seu país para denunciar a presidência de Jair Bolsonaro e proteger a própria vida. Jean Wyllys vive agora na Alemanha.

O mote da conferência, recebida pela Casa do Alentejo, era uma questão política:“Porque se exilar do Brasil hoje?”. Mas a primeira resposta de Jean Wyllys veio na forma de culinária. O ativista ofereceu ao público uma omelete (literal) feita (metaforicamente) a partir dos ovos que lhe tinham sido atirados em Coimbra pela “caricata” extrema-direita portuguesa, “ridícula, sem autoridade moral e a ser instrumentalizada pela extrema-direita eleita no Brasil”. O momento, como muitas das declarações do ativista, foi recebido pelo público com aplausos de pé.

“A Noite de Esperança” é uma crítica assumida à ideologia extremista do atual Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, portanto o evento em Coimbra, na terça-feira, 26 de fevereiro, esperava-se político, como foi, mas a sessão tinha um pendor literário — o escritor português Afonso Cruz, presente na apresentação, assumiu que lhe pediram para não falar de política. Já a intervenção de Jean Wyllys esta quarta-feira, organizada pelo SOS Racismo e pelo Coletivo Andorinha em Lisboa, indicava à partida que seria uma discussão sobre o estado atual da sociedade brasileira, e uma reflexão sobre a história do ex-deputado do Brasil. Jean Wyllys admitiu estar otimista, mas a longo prazo: “Esta noite vai ser dura mas não vai durar, porque há resistência. As pessoas que votaram no Bolsonaro não são racistas, foram enganadas“.

As notícias falsas que criaram uma certeza: Eu percebi que ia morrer

Ao entrar na política, Jean Wyllys deparou-se com o que considera uma campanha de “ameaças, insultos e difamações”. O início destes ataques políticos, garante, deu-se com o atual Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro: “O primeiro deputado a insultar-me numa Comissão da Câmara Federal, com uma expressão homofóbica, é hoje Presidente do Brasil. E os meus colegas não se indignaram. Riram-se”.

Em 2016, uma das atitudes mais polémicas de Jean Wyllys surgiria também ligada ao atual presidente do Brasil. Após um insulto homofóbico do ainda deputado Jair Bolsonaro, Jean Wyllys cuspiu na cara do agora Presidente do Brasil. O ativista admite que não se arrepende do confronto com o “fascista”, como rotulou o presidente brasileiro, uma atitude que o levaria a enfrentar a Comissão de Ética do congresso brasileiro.

Também os ataques ao seu caráter terão começado por obra de Jair Bolsonaro, disse Jean Wyllys : “Essa pessoa também foi a primeira a criar uma notícia falsa contra mim. Ele pegou numa entrevista minha e editou-a de forma criminosa para sugerir que eu tinha chamado ignorante ao povo brasileiro. Começou aí um processo de destruição de reputação que se tornaria hábito”. Ao longo da carreira política de Jean Wyllys, o ativista seria alvo de várias notícias falsas, como a de que teria apresentado um projeto lei para alterar o texto da bíblia (informação que, em tom de brincadeira, classificou como “obviamente falsa”, já que “era impossível mudar a bíblia por legislação, por mais que eu gostasse”).

Jean Wyllys considera que as ameaças, que começou a receber em 2011, partiram das campanhas de difamação de que foi alvo (especificamente a noção de que apoiaria a distribuição de um “kit gay nas escolas e dildos de madeira nas creches”). Nesse ano a polícia brasileira terá prendidos dois homens que planeavam o seu assassinato. “Eu nunca pedi proteção. Achei que o que eu precisava de fazer era trabalhar e tomar alguns cuidados, como deixar de anunciar publicamente a minha agenda”, explica o ativista. O medo surgiria após a morte da deputada, negra e lésbica, Mariell Franco: “Uma pessoa que eu amava, que era poderosa e linda, sobre quem não pesava uma única ameaça foi emboscada e morta. Aí ficou claro para mim que o jogo contra nós era pesado“.

O então deputado passou a ter escolta da polícia legislativa, que o acompanha no percurso de casa para o trabalho. Com medo pela sua vida e a da sua família, Jean Wyllys diz que a sua vida pessoal desapareceu: “Não se pode ir à praia rodeado por polícias. Eu vivia em cárcere privado, o que me deprimiu e afetou emocionalmente. Eu percebi que ia morrer: se não fosse assassinado morreria doente por levar aquela vida. Foi aí que percebi que tinha de deixar o Brasil“. O primeiro contacto, conta, foi com o embaixador de Espanha no Brasil, que lhe prometeu um visto de estudante para o retirar do país. Renunciaria ao mandato no final de janeiro de 2019, partindo para a Europa.

O grito que gerou protestos: Marielle presente e Lula livre

Mesmo após o auto-exílio, Jean Wyllys garante que a campanha contra ele continuou: “Disseram que deixei o Brasil por ter ligações ao homem que esfaqueou Jair Bolsonaro durante a campanha, num ato que agora se diz não ter tido qualquer coordenação”. Emocionado, considera que o facto de continuar a intervir de forma pública é uma derrota para a extrema-direita brasileira: “Pensaram que me derrotavam mas enganaram-se. Aqui estou eu“. A luta agora, afirma, é “pela democracia e por um confronto histórico com os males da sociedade, para que olhemos para a herança de escravidão, racismo, machismo e transfobia que ainda constitui a sociedade brasileira”.

A seu lado o ex-deputado vê os “brasileiros cordiais, alegres, felizes e que sabem dançar”, os “progressistas de esquerda” que querem ser “felizes de novo”. Apelando à luta, Jean Wyllys levantou um cartaz exigindo a libertação de Lula da Silva, antigo Presidente do Brasil preso por corrupção. O grito, repetido pela maioria do público surgiu na forma de palavras de ordem: “Marielle [Franco] presente e Lula [da Silva] livre“.

Jean Wyllys pede a libertação do antigo Presidente Lula da Silva

Um homem envolto na bandeira de Portugal, e rapidamente retirado da sala, gritou em resposta pela prisão de Dilma Rouseff, antiga Presidente brasileira que perdeu a posição após o controverso impeachment que daria a Michel Temer a presidência do país.

A própria Dilma Rousseff enviou, minutos depois, uma mensagem de solidariedade e agradecimento dirigida a Jean Wyllys. Foi a mulher de José Saramago, Pilar del Rio, que estava presente na conferência, a receber e ler a intervenção inesperada de Dilma Rousseff, que confirmou estar a seguir a conferência online. O dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba fechou a sessão, repetindo o lema: “Marielle presente e Lula livre”. “A luta contra o racismo veio para ficar”, acrescentou.

Manifestantes pediram 25 de abril contra Bolsonaro. PNR diz que extrema-esquerda convidou Wyllys

À porta da Casa do Alentejo estavam reunidos alguns manifestantes para receber Jean Wyllys. A demonstração, organizada por vários movimentos cívicos portugueses, era solidária com o ativista brasileiro. “Vem Portugal. Vem para o Brasil. Vem trazer os valores de Abril”, gritavam os manifestantes, aludindo à revolução que derrubou a ditadura salazarista em Portugal. “Estamos aqui para mostrar que o fascismo e o medo não podem ganhar”, explicou ao Observador uma manifestante, imigrante brasileira que preferiu não se identificar.

Manifestantes mostravam solidariedade para com Jean Wyllys antes da conferência

Ao fundo da rua, com um cordão policial a separá-los do público que esperava para ouvir Jean Wyllys, o PNR protestava a presença do brasileiro em Portugal. “É um homem que cospe num candidato à presidência do Brasil e que vem a Portugal a convite da extrema-esquerda para debitar ideologia de lixo”, justificou o líder do partido de extrema-direita, José Pinto Coelho.

Para prevenir a repetição de eventos como os de Coimbra (e em resposta aos “arruaceiros”, como o economista Boaventura de Sousa Santos classificou os protestantes do PNR ao abrir a conferência) a PSP reforçou a segurança do evento. Para além do cordão policial que mantinha afastadas as duas manifestações, dois agentes guardavam a porta da Casa do Alentejo e revistavam todos os membros do público. No interior, funcionários de uma empresa de segurança privada realizavam uma segunda revista, escoltavam o ativista e vigiavam a sala.

O vice-presidente do PNR, João Pais do Amaral, liderava a manifestação contra o ativista em Lisboa

Jean Wyllys já tinha abordado a necessidade de ter segurança em Portugal, em entrevista ao Observador antes da conferência: “Na Alemanha não tenho segurança, não tenho problemas. Creio que este incidente aconteceu em Portugal porque a língua é comum e há imbecis que mantêm diálogo com os fascistas brasileiros. Noutro lugar da Europa, uma situação destas não é passível de acontecer”. Em conferência acrescentou que se ainda havia resistência homofóbica em Portugal, era um papel de todos “tornar Lisboa um paraíso para os gays, as lésbicas, os transexuais e toda a gente”.

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